A Seleção Brasileira começava, há exatamente 50 anos, a última etapa antes da Copa do Mundo do México, onde conquistou o tricampeonato. Em 6 de maio de 1970, o time comandado por Zagallo disputava o primeiro dos três amistosos no país do Mundial encarando um combinado de Guadalajara. E ali tinha início a consolidação do “zagueiro” Piazza.

Uma marca da equipe de Zagallo foram as improvisações, sendo a de Piazza, que era volante, a única no setor defensivo. No ataque, Jairzinho foi deslocado para a ponta direita, Rivellino, para a esquerda, e Tostão jogou como centroavante. Todos atuavam como ponta-de-lança em seus clubes, que eram Botafogo, Corinthians e Cruzeiro, respectivamente.

No caso de Piazza, a improvisação contou até com uma pitada de sorte. “Minha situação, depois que caiu o Saldanha, com quem eu era o capitão, se transformou em dúvida com a chegada do Zagallo. Eu virei reserva, até que em um coletivo, em que já tínhamos um zagueiro machucado, o Baldochi sentiu uma lesão. O jogador para entrar era o Zé Carlos. Nem esperei orientação. Falei para o Zé ficar no meio e fui jogar de zagueiro, algo que já tinha feito naquele famoso clássico de 3 a 3 com o Atlético, em 1967”.

O desempenho de Piazza foi satisfatório, e segundo ele, Zagallo o manteve como zagueiro: “Ele (Zagallo) me perguntou se tinha problema em treinar como zagueiro e disse que não. Em Seleção, você tem de buscar primeiro uma vaga no grupo, depois, a titularidade, e se não for na sua posição, onde der”.

No último amistoso da Seleção no Brasil, Zagallo deu a Piazza a chance de jogar como zagueiro e ele teve grande atuação ao lado de Britto. “Quando a gente chegou ao México, antes deste jogo de 6 de maio, o Zagallo me disse que agradecia minha ajuda, mas que o Fontana iria formar a dupla com o Britto. Mas o Fontana, que também era do Cruzeiro, sentiu uma lesão na véspera do jogo, e fui escalado”, explica o ex-volante do Cruzeiro.

A partir daí, Piazza virou titular, para surpresa até dele mesmo: “Não tinha boa impulsão para cabecear, não sabia dar um carrinho. Mas tinha bom sentido de colocação e marcação. Atendi a equipe de maneira simples, no que ela precisava”.

 Físico

Tecnicamente, a Seleção Brasileira de 1970 foi uma das melhores da história. Em entrevista recente ao Hoje em Dia, Tostão disse que só vê aquele time, neste aspecto, inferior ao de 1958, que contava, entre outros, com Pelé, Garrincha, Didi e Nilton Santos. Mas nem só de técnica o tri foi construído. O trabalho de preparação foi de excelência. E o time chegou ao México um mês antes da Copa, vivendo um processo também de aclimatação à altitude e de encaixe na equipe de Zagallo de vários jogadores que atuaram improvisados. Segundo Piazza, isso foi fundamental, para o grupo e para seu desempenho.

Seleção Brasileiro 1970

O volente Piazza, entre Fontana e o goleiro Félix na foto, fez parte do time tricampeão do mundo em 1970, no México, atuando improvisado como zagueiro

“Foi uma inovação a preparação daquela Seleção. Dez dias, uma semana antes da Copa, a gente estava voando. Tinha jogo que eu achava que nem joguei. Estava acostumado a atuar como volante, a entrega era muito grande, terminava a partida com a camisa encharcada. No México, apesar dos jogos ao meio-dia, parecia que nem tinha suado direito”, revela Piazza.

Com a autoridade de quem integrou aquele time mágico, Piazza deixa um recado: “Os preparadores foram extraordinários. Tudo muito bem planejado, com amizade, respeito, capacidade. Havia harmonia, aceitação. Não se ganha só com nome. Copa do Mundo, tem que correr. A fase final é mata-mata. E quando vc está bem preparado, tem tranquilidade para absorver muitas coisas”.