Um gigante dentro das quatro linhas e um comentarista consolidado fora delas. Apesar de ser um resumo simplório das duas carreiras bem sucedidas de Leovegildo Lins da Gama Júnior, o eterno “Maestro Júnior”, o que se não pode deixar de lado é a capacidade do ex-lateral do Flamengo e da Seleção Brasileira de jogar e falar de futebol.

Filho de empresário – o pai era dono de uma fábrica de azulejos e pisos e tinha irmãos atletas – o mais novo chegou a defender a Portuguesa-RJ e o mais velho a seleção de vôlei –, Júnior deixou a Paraíba aos cinco anos para morar no Rio de Janeiro. Ali, ainda não imaginava o quão importante se tornaria.

Sessenta anos depois, o maestro coleciona histórias. Em seu Instagram, por exemplo, o número de imagens ao lado de ícones do esporte impressiona.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, Júnior analisa o desempenho do Brasil contra a Argentina, na semifinal da Copa América, relembra os duelos contra o Atlético na década de 1980, comenta a revolta alvinegra com José Roberto Wright, e muito mais.

Como viu a classificação do Brasil para a final da Copa América, na vitória por 2 a 0 sobre a Argentina?

Rapaz, foi além da expectativa. O jogo foi bom porque a Argentina jogou, pelo menos individualmente. O Messi jogou bem pra caramba e teve uns “lampejos de Messi”. A intensidade não foi aquela que estamos acostumados a ver, mas se eles tivessem jogado assim desde o início, estariam numa outra posição e não teriam cruzado com a gente nessa semi.

Eles reclamaram muito de dois pênaltis não dados ou até mesmo revisados pelo VAR. Concorda ou é choro de perdedor?

O resultado foi justo. É lógico que na falta do Daniel Alves no Agüero, o árbitro poderia ter dado uma olhada no VAR. Como é uma coisa interpretativa, fica difícil tirar conclusão. Em consequência saiu aquele golaço do Firmino.

Você foi um dos primeiros ex-jogadores a se consolidar nas últimas décadas como comentarista, mesmo tendo uma forte ligação com o Flamengo. Como você enxerga hoje o ex-atleta que entra e busca espaço na TV?

Isso foi uma evolução da nossa classe de jogadores. Começaram a usar ex-jogadores como comentaristas em função da experiência. A gente tem uma visão, em algumas situações, das pessoas que não jogaram profissionalmente. Esse espaço foi se abrindo, e o próprio torcedor começa a se identificar com isso. Temos que seguir algumas regras básicas. Minha experiência foi na Itália, comentando alguns jogos pela rádio e a TV. Me deram uma boa experiência. Em 1995, participei da final do Brasileiro entre Botafogo e Santos, na Globo, e fiz alguns outros jogos. Quando cheguei de fato para trabalhar, em 1998, o Armando Nogueira era o chefe. Ele me falou uma coisa que jamais esqueci: “critique sem ofender e elogie sem bajular”. É uma regra que serve para todos. Consegui dissociar minha ligação com o Flamengo porque estou ali para comentar e não torcer.

O que faltou para a Canarinho voar na Copa do Mundo de 1982? Em entrevista ao Hoje em Dia, o argentino Mario Kempes citou certo preciosismo contra a Itália...

É uma questão de detalhes. Quando empatou o jogo em 2 a 2, o Telê me chamou à beira do campo e me pediu para ficar, assim como o Leandro. Dali para frente, não apoiamos mais. Tomamos um gol de escanteio. Aí entra aquela coisa do comentário em cima do resultado. Não havia outra forma para aquela Seleção jogar; até porque ele encontrou um jeito de colocar Sócrates, Zico, Cerezo e Falcão em campo, juntos. É tudo questão de detalhe. Tivemos a oportunidade de empatar numa cabeçada do Oscar, e hoje o comentário poderia ser outro. Depois de 1970, talvez nosso time de 82 seja o que mais demonstrou o que é o futebol que o torcedor brasileiro gosta.

Como você define Telê Santana?

O Telê foi nosso grande mestre. Não somente no futebol, mas também como educador. Tive dois treinadores assim: Coutinho e ele. Eram pessoas que se preocupavam com o jogador de futebol e com o cidadão. O Telê era exatamente isso. Extremamente exigente, sobretudo com aqueles que não eram muito profissionais. Quem era, tomava pouquíssima dura. Ele queria que todos trilhassem um caminho vitorioso, sem problemas extra. Em termos de futebol não preciso falar muito.

E o Pelé?

Tive a oportunidade de estar com o Rei algumas vezes. Contudo, teve um amistoso contra o Atlético, para as vítimas de uma enchente no Rio, em 1979. Jogamos juntos (pelo Flamengo). Foi meu primeiro grande contato com ele. Em 98, quando participávamos de uma mesa redonda, é que descobri de fato quem era o Edson Arantes do Nascimento: uma pessoa extremamente humilde, sem tratamento exclusivo com as pessoas. Somado ao que fez no campo, sem reclamação de gramado e chuteira, entendemos porque é o rei do futebol.

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Você sempre gostou de bater bola na praia. Hoje cada vez menos meninos começam nos campos de pelada ou mesmo nas areias. Acredita que isso é um obstáculo à criatividade e ao talento?

Pode ser uma razão. Acho que a explosão imobiliária acabou com aqueles campos. Hoje você tem em quase todo bairro ou condomínio os campos society. Não existe mais aquela coisa da rua, que um garoto menor joga contra um maior. Nas escolinhas, as categorias são divididas. Não se cria mais situações diferentes. Os próprios educadores pedem para não driblar. Na nossa época era obrigação saber dar o drible. Creio que seja uma involução individualmente. Hoje aparece um Everton Cebolinha, que precisou de três ou quatro jogos, para que todos vejam de fato o que é um atleta diferenciado.

O beach soccer foi um momento de você reviver os tempos de jogador de futebol, com apoio de torcida e jogos importantes. Qual a importância desse momento na sua carreira?

Eu praticamente joguei em três décadas: 70, 80 e 90. Peguei quase três gerações. Tem uma rapaziada que só me viu jogando na praia. Outros vão ao YouTube me ver atuando nos gramados. Comecei em 1993 essa história do beach soccer, que durou oito anos. Eu estava bem fisicamente. Começamos com jogadores de campo, depois pegamos uma garotada que estava acostumada com a areia. Foi um processo vitorioso e que deu visibilidade gigante à modalidade no mundo. Para mim foi motivo de prazer e satisfação. Parei com 47 anos e já estava com a bengalinha pronta para largar as tornozeleiras e sair apoiado ali dos jogos (risos).

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De Cruzeiro e Atlético, quem foram os grandes amigos que você fez?

Nós jogamos naquela época em que Flamengo e Atlético dividiam a supremacia do futebol brasileiro. Na Seleção você tinha João Leite, Éder (Aleixo), Cerezo, Luizinho, Reinaldo... Esses caras, de tanto conviver, acabaram virando amigos. Não é conversa fiada. Ficou um laço. O que aconteceu durante os jogos, acontece mesmo, mas nem por isso atrapalhou nossa relação. O “Rei” é um cara que, não só pelo futebol, mas pelas coisas que superou na vida, para mim, é um motivo de prazer e satisfação. O Nelinho, quando a gente era solteiro aqui no Rio, fizemos história demais no Carnaval (risos). O “Mané” é um daqueles que com quem você senta e tem a maior satisfação por estar ao lado. Quando cheguei na Seleção, em 1979, ele me abraçou como novato. Disso não esqueço nunca mais.

E com a Seleção?

Aí já é um pouco diferente. Visto um pouco a camisa mesmo. Semana passada, reprisaram a final da Copa de 2002, quando eu grito o gol do Ronaldo junto com o Luiz Carlos Júnior. É uma coisa que jamais a gente deve fazer, mas ali não teve jeito. Era final de Copa, estava tão envolvido com as coisas, além de terem alguns hermanos atrás da gente nos perturbando demais (risos). Nos anos (1998 a 2003) em que passei no SporTV, foi onde criei uma base; foi minha universidade de comunicação.

Pergunta sobre o “jogo que não teve fim”. Qual a visão dele sobre aquele duelo entre Atlético e Flamengo, pela Libertadores de 1981, no Serra Dourada? A arbitragem do José Roberto Wright causa indignação aos atleticanos até hoje.

Eu também, se estivesse do lado do Atlético, não gostaria de escutar o juiz que acabou um jogo o qual eu teria a possibilidade de ganhar. Só que você tem que levar em consideração que num dado momento do jogo, o Wright parou a partida, chamou os dois capitães e falou que dali para frente expulsaria quem começasse com jogadas violentas. O jogo recomeçou, e o Reinaldo deu um carrinho de cima para baixo no Zico. Isso! Reinaldo deu um carrinho no Zico; olha só que heresia. Em função disso, desencadeou um cerco desequilíbrio no Éder, no Palhinha... Daí, naturalmente, ficou a revolta. Mas eu te faço uma pergunta: “Você acha que Flamengo ou Atlético precisavam de árbitro para ganhar jogo naquela época, com os times que tinham?”. Não tínhamos nada a ver com José Roberto Wright, até porque ele nunca foi torcedor do Flamengo. Ele foi criado no Fluminense. Não precisávamos daquele tipo de ajuda.

Como vocês foram para o vestiário naquele dia?

A gente queria jogar. Do mesmo jeito que ficou o amargo na boca do Atlético, ficou no time do Flamengo. Queríamos continuar. Tínhamos totais condições de ganhar do Atlético, como já havia acontecido em diversas oportunidades.