A história do futebol mineiro é recheada de craques. A partir do esquadrão americano, decacampeão entre 1916 e 1925, o Trio Maldito atleticano, formado pelas lendas Jairo, Said e Mário de Castro, ou os Fantoni (Ninão, Nininho, Niginho, Orlando), marca maior palestrina, vários desfilaram talento por nossos estádios. Nenhum foi tão importante como Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, que nesta segunda-feira completa 74 anos.

E a história que transforma o eterno camisa 8 cruzeirense, maior ídolo e artilheiro do clube, no jogador mais importante da história do futebol de Minas Gerais começa há quase 55 anos. Em 28 de março de 1966, Vicente Feola convocou nada menos que 47 jogadores para a Seleção Brasileira. Era o início da preparação para a busca do tricampeonato mundial em sequência, na Copa da Inglaterra.

Arte

E Tostão estava presente na lista, o que não era garantia alguma de cruzar o Atlântico, pois 25 nomes seriam cortados pois naquela época eram 22 os inscritos.

Quem ficou de fora foi seu parceiro Dirceu Lopes e o meia atleticano Buglê, autor do primeiro gol da história do Mineirão em 5 de setembro de 1965, no 1 a 0 da Seleção Mineira sobre o River Plate, da Argentina.

As duas ausências provocaram reação oficial em Minas Gerais. Segundo o livro “Todos os Jogos do Brasil”, de Ivan Soter, André Fontenelle, Mario Levi Schwartz, Dennis Woods e Valmir Storti, um grupo de deputados estaduais mineiros assinou um documento manifestando a estranheza pelas não convocações de Dirceu Lopes e Buglê.

Dirceu Lopes e TostãoA ausência do parceiro Dirceu Lopes na lista inicial de convocados de Vicente Feola para a Copa de 1966 provocou a ira dos mineiros

Vestibular

Aos 19 anos, num grupo recheado de craques, pois vários bicampeões mundiais em 1958 e 1962 seguiam na Seleção, Tostão foi passando pelas etapas da longa preparação, recheada de amistosos.

Num deles, em 5 de junho, no Mineirão, contra a Polônia, já perto da definição dos 22 nomes que iriam à Inglaterra, o boato de que o cruzeirense seria cortado provocou muitas reações. Uma delas inimaginável nos dias atuais, pois a torcida atleticana levou a seguinte faixa ao Mineirão: “Tostão, a torcida atleticana também quer ver você em Londres”.

O boicote mineiro ao jogo ficou evidente pelo fato de apenas 21.516 torcedores pagarem ingresso para ver a goleada brasileira por 4 a 1, com dois gols de Tostão.

Marcas

Superadas todas as etapas, Tostão foi confirmado na lista final de Feola. Minas Gerais, pela primeira vez na história, teria um jogador na Copa do Mundo. O cruzeirense disputou um jogo, em 15 de julho de 1966, e na derrota de 3 a 1 para a Hungria o gol brasileiro foi marcado por ele.

O fracasso brasileiro na Inglaterra, pois a eliminação aconteceu na fase de grupos, com nova derrota por 3 a 1, para Portugal, na última rodada, sem Tostão em campo, não abalou o prestígio do ídolo cruzeirense.

Muito pelo contrário. O processo de preparação para a Copa do México, em 1970, iniciado por Aymoré Moreira, sempre teve Tostão nas convocações. E seguiu assim com João Saldanha, que comandou a Seleção nas Eliminatórias.

tostaoTostão e Pelé comemoram um dos gols da Seleção Brasileira nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970, no México, quando foi conquistado o tricampeonato

E foi na disputa pela vaga no Mundial que Tostão arrebentou. Foram dez gols em seis jogos numa das maiores parcerias da história do futebol com Pelé, que balançou as redes adversárias seis vezes no mesmo número de partidas.

Juntos, os dois marcaram 16 dos 23 gols da Seleção Brasileira na campanha em que foi assegurada a vaga na Copa do Mundo do México.

Façanhas

Nos gramados mexicanos, Tostão integrou um dos maiores ataques da história do futebol atuando ao lado de Jairzinho, Pelé e Rivellino. Foi campeão do mundo, num time em que tinha o companheiro de Cruzeiro Piazza, improvisado na zaga, e o também cruzeirense Fontana (zagueiro) e o atleticano Dario na reserva.

Ainda em 1970, o camisa 8 cruzeirense foi o primeiro jogador do Estado artilheiro de uma competição nacional com os 12 gols marcados no Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão ou Taça de Prata.

Quatro anos antes, em 1966, já depois da sua participação na Copa do Mundo da Inglaterra, Tostão era a referência do esquadrão cruzeirense que ganhou a primeira grande taça do futebol mineiro, a Taça Brasil de 1966, massacrando o Santos, de Pelé, que era pentacampeão do torneio, na decisão.

Após o segundo jogo, os 3 a 2, de virada, no Pacaembu, uma equipe do jornal O Estado de São Paulo entrou no vestiário cruzeirense, o que era comum na época, com uma coroa. E ela foi colocada na cabeça de Tostão. Foto feita, o diário estampava em suas páginas no dia seguinte que surgia o novo Rei do Futebol.

TostãoEm 1966, o Cruzeiro, que tinha Tostão como maior craque, venceu o poderoso Santos de Pelé na decisão da Taça Brasil, primeiro título nacional conquistado por um clube mineiro

Um exagero, que em entrevistas depois de encerrar a carreira Tostão já revelou que lhe provocou vergonha, até pelo reconhecimento ao que representa Pelé.

Mas não há dúvida de que surgia sim o Rei do Futebol mineiro, pois em quase 120 anos, nenhum jogador foi tão importante para o esporte no Estado como Eduardo Gonçalves de Andrade, um senhor que completa 74 anos nesta segunda-feira, e que será eterno como Tostão.