De Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, a Changchun, na China, passando por Brasil, Ucrânia, Alemanha e Inglaterra. Esse foi o caminho trilhado pelo atacante Marcelo Moreno, 28 anos, que promete retornar a Belo Horizonte para encerrar a carreira no Cruzeiro, clube onde fez história.

Pela Raposa, o boliviano fez 93 jogos e 45 gols. Em duas passagens pela Toca da Raposa II (2007/2008 e 2014), tornou-se o maior artilheiro estrangeiro da história do clube.

Em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, Moreno conta como está a vida no Oriente, fala do amor pelo Cruzeiro, comenta a briga com o treinador que o fez deixar a seleção boliviana e descarta vestir a camisa do Atlético.

Como está a vida na China? Se adaptou ao futebol e à cultura oriental?

Um pouquinho difícil no início. É uma cultura totalmente diferente. Foi um choque cultural. Idioma, comida e outras coisas. É uma experiência nova, mas com o tempo a gente foi gostando, apreciando e se adaptando melhor à nova vida. As coisas dentro de campo também melhoraram. Em 2016 terei um ano melhor.

O que você costuma fazer nas horas vagas? Já conhece os pontos turísticos de Changchun?

]Conheço a cidade. Existem muitos parques, muito frequentados pelas pessoas na China. Fui com minha esposa e já tiramos várias fotos. Vamos muito ao shopping e também ao cinema. Conseguimos ver filmes em inglês.

Certa vez você disse que os jogadores brasileiros são escravos do calendário. Quais são as dificuldades de se jogar por aqui devido a estas circunstâncias?

É um descaso. Não é normal. Jogar até três jogos por semana é muito difícil para qualquer atleta, mesmo estando 100% fisicamente. A gente que joga sabe o sacrifício que faz nas viagens. É complicado e só quem está dentro de campo sofre.

Como é a rotina de treinos e jogos na China? Há um espaçamento maior em relação ao Brasil?

Lá eles respeitam um pouco o jogador de futebol, que atua uma vez por semana. Os times que se classificam para a Liga da Ásia muitas vezes jogam duas vezes por semana. É um calendário tranquilo, que dá para o atleta se recuperar e render 100%. O torcedor paga ingresso porque quer ver espetáculo. E o jogador precisa e quer estar bem. Tomara que isso volte ao futebol do Brasil um dia.

O técnico da Seleção Brasileira, Dunga, deixou de convocar jogadores como Tardelli, Ricardo Goulart e Everton Ribeiro por atuarem neste chamado “futebol emergente”. Você concorda que o nível técnico na China ainda é muito baixo, mesmo com tantos reforços de peso?

Cada profissional tem sua opinião. Tem que respeitar a decisão do Dunga. É uma liga que está crescendo. Daqui a pouco vai ser uma das melhores pelas contratações que estão fazendo. O nível vai ser melhor e a visibilidade também.

Recentemente você esteve numa partida do Cruzeiro pelo Brasileiro, e foi para o meio da torcida? O que sentiu naquele momento?

Eu não podia recusar. Já tinha recebido o convite dos torcedores. Em 2008, na minha primeira passagem, recebi o pedido e não deu para ir. Em 2014, a mesma coisa, por causa de jogos e viagens. Agora estava de férias e deu certo. Senti uma emoção melhor junto com o torcedor do que quando marcava um gol.

No Brasil, você passou por Vitória, Flamengo e Grêmio. Porém, foi no Cruzeiro que mais se deu bem. Por que essa identificação tão grande com a camisa da Raposa?

Me sinto bem. Tenho um carinho muito grande pelos clubes pelos quais passei, porque sempre me respeitaram. No Cruzeiro deu tudo certo nas minhas duas passagens, ganhando títulos e deixando meu nome na história do clube. Deu tudo certo porque a gente se entende com a diretoria e com os jogadores. Tenho amigos em Belo Horizonte que me fazem sentir bem e adaptado à cidade. Além disso, a torcida do Cruzeiro sempre me apoiou e acreditou no meu trabalho. Cheguei em 2014 desacreditado e a torcida me apoiou e me abraçou, mesmo sabendo que eu não estava bem fisicamente.

Um retorno à Toca está programado? Já conversou sobre isto com a diretoria cruzeirense? Qual sua relação com os dirigentes?

Tenho contrato de mais um ano na China. É difícil falar agora. Seria interessante voltar ao Cruzeiro futuramente. Seria lindo uma volta. Agora não posso. Já deixei claro que gostaria de encerrar minha carreira no Cruzeiro.

Você deixou de atuar pela seleção boliviana por não concordar com a postura do técnico Julio César Baldivieso. Foi uma decisão difícil? Ainda veremos o Moreno defendendo a seleção do seu país?

Foi uma das decisões mais difíceis que tomei na minha carreira. Eu sempre deixei tudo para atuar pela minha seleção, viajando muitas horas. Sempre fiz por amor, por querer defender o meu país e ajudar os jogadores que não têm a experiência necessária e dar exemplo aos jovens. Gostaria de voltar, mas com este treinador acho bem difícil a minha volta e também dos outros jogadores que renunciaram. Prefiro ficar fora a fazer um ambiente ruim com ele no comando.

Seu pai é brasileiro. Se arrepende de não ter optado pela cidadania brasileira? Acha que teria vestido a amarelinha?

Em nenhum momento me arrependi. Estou defendendo a seleção da Bolívia, onde fui muito bem recebido e joguei pela primeira vez com 18 anos. Consegui ajudar a melhorar a estrutura de treinamentos e outras coisas e isso foi importante na minha carreira. Se fosse convocado para a Seleção Brasileira, eu não saberia quanto tempo eu estaria lá. Tem muitos jogadores com a mesma qualidade. Acho que tomei a decisão certa e tenho orgulho de poder representar a Bolívia nas Eliminatórias para a Copa do Mundo e na Copa América.

Se recebesse uma proposta milionária do Atlético, você cogitaria defender o maior rival do Cruzeiro?

Pode pagar o que for. Eu não jogaria no Atlético. Eu agradeceria a proposta, mas em respeito ao Cruzeiro eu não jogaria.

Existe amor à camisa no futebol ou é uma coisa que ficou no tempo, no passado?

Existe, mas em poucos jogadores. É muito difícil ver alguém jogando em um time e não sair por propostas melhores. É difícil recusar uma proposta, mas ao mesmo tempo você sabe que vai melhorar a vida da sua família. Hoje em dia são poucos que podem escolher o contrário.