Criado em 1995, para tratar de questões que a dramaturgia latino-americana já cuidava, mas o teatro brasileiro ainda mal prestava atenção, o grupo Mayombe experimentou três fases distintas nestes 18 anos de atividades artísticas. A mais recente demarca a trilogia completada com "Klássico (com K)", que estreia na quinta-feira (18), às 20 horas, em sessão para convidados, e de sexta a domingo no Esqyna Espaço Teatral.

A trilogia persegue um modo utópico de entender. Propaga uma crença no mundo que habitamos, embora discreta, talvez um tanto retrô. "Como uma luzinha, um vagalume", diz Sara Rojo, diretora do grupo e do espetáculo.

Recorrendo basicamente ao mesmo elenco e ao mesmo dramaturgo (Éder Rodrigues, texto final das contribuições da equipe de criação) e a recursos de multimídia, que também frequentam os outros títulos da trilogia ("Por Esta Porta Estar Fechada as Outras Tiveram que se Abrir" e "A Pequenina América e sua Avó $ifrada de Escrúpulos"), "Klássico(com K)" entronca trajetórias e conflitos de quatro personagens clássicos e determinadas subjetividades dos atores numa arena-show.

Deste modo, Marina Viana, Didi Villela, Flávia Almeida e Fernando Oliveira, respectivamente, "brincam de ‘presentar’ e representar" Medeia, Fausto, Antígona e Ulisses. O quarteto de atores/personagens tem um caminho dramatúrgico e espacial pré-fixado e nunca improvisa. Mas a encenação não entrega uma sequência lógica de ações que o distinto público consiga antecipá-la.

Como uma espécie de juiz (remissão aos clássicos de futebol) ou um deus ex machina, a iluminadora Marina Arthuzzi comanda do palco as operações técnicas. Rege o andamento da trilha sonora e das projeções em vídeo. Estimula e/ou questiona o ritmo, a dinâmica das interpretações. Seria, portanto, a única margem de acaso concedida à encenação de 1h10 de duração.

Como os demais processos de montagem do Mayombe, o de agora se prolongou por 14 meses. Cinco só na pesquisa do que fazer, em que tema tocar; que personagens abordar e que sentido profundo eles projetariam no público e no elenco; e as variadas nuances que tantos escritores de porte concederam às quatro criaturas eleitas. Tempo que raras montagens teatrais podem dispor.

Sara Rojo, porém, não definiu razão bastante para tão longa elaboração. Tanto empenho, tanta dedicação. Talvez por se destinar "à cena e não a um artigo". Peruana radicada há 20 anos em Belo Horizonte, ela também nunca acreditou em estrutura hierárquica, na verticalização do poder. Apesar das crises que atravessa ao criar, Sara avalia, um ator sempre teria algo de muito importante a contribuir à criação.


Serviço

"Klássico (com K)" na Esqyna Espaço Teatral (rua Célia de Souza, 571, Sagrada Família). De sexta a domingo às 20 horas. Entradas a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Espetáculo em cartaz de 19/4 a 19/5.