O motociclismo brasileiro vive situação semelhante à do tênis, com Gustavo Kuerten: depois de Alexandre Barros, que venceu corridas nos Mundiais de 500cc (atual MotoGP), aumentaram o interesse e o número de praticantes e competições, mas a representação internacional, na pista, segue modesta. Uma situação que um paulista de 22 anos tenta mudar. Eric Granado começou muito cedo, tornou-se o primeiro piloto do país a conquistar o Campeonato Europeu (da Moto2, em 2017) e, depois de experiências complicadas na principal competição do esporte (ano passado acabou tendo o contrato rompido pela equipe Forward na Moto2 antes do GP da República Tcheca), retoma agora a carreira internacional na inédita Copa do Mundo FIM de MotoE (motos elétricas), que será disputada paralelamente a cinco GPs europeus da MotoGP.

Com equipamento igual e animado pelo bom desempenho nos treinos de pré-temporada, ele se mostra confiante em mostrar que merece um lugar na categoria principal. Na primeira visita ao Circuito dos Cristais para testes com a Honda CBR1000R que pilota no Superbike Brasil – com direito a novo recorde da pista – ele falou ao Hoje em Dia sobre a trajetória e os planos.

Como foi seu começo sobre as duas rodas?

Eu comecei no motociclismo com seis anos de idade, desde bem pequeno eu assistia às corridas do Mundial de Motovelocidade, do Valentino Rossi, do Alexandre Barros, sempre gostei muito. E meu pai corria na época, disputava as corridas do Paulista, algumas do Brasileiro, eu sempre ia para a pista acompanhar. Começou a surgir a paixão, eu comecei a dique queria ser piloto e com seis anos ganhei uma motinho de presente de Natal dele, ele até criou um campeonato porque não havia campeonatos para crianças. Com oito anos eu fui para a Europa e dei início à carreira internacional. Isso me deu uma bagagem incrível porque, se eu não tivesse saído tão novo, não teria chegado até aqui.

O que achou da pista de Curvelo?

Gostei muito da estrutura, a pista foi muito bem elaborada, há alguns pontos a melhorar em termos de segurança, mas os proprietários estão com todas as intenções de aprimorar as condições. O traçado é de nível internacional, são muitas curvas, de desenhos variados, e eu gosto de pistas assim. Nelas o piloto conta mais e pode fazer a diferença, mesmo sem ter a melhor moto.

Você foi o mais rápido nos testes de pré-temporada da MotoE, mas um incêndio nos boxes em Jerez de La Frontera acabou destruindo todas as motos e atrasando o início do campeonato.

Infelizmente o incêndio atrasou bastante o começo da temporada, mas vai dar tudo certo, em junho haverá um novo teste e em julho a primeira corrida (na programação do GP da Alemanha). Agora é aguardar e ficar na ansiedade.

E como está sendo a adaptação a uma máquina tão diferente, mais pesada, com outro centro de gravidade?

A pilotagem realmente é um pouquinho diferente, pelo fato da moto não ter marcha, não ter embreagem, você tem que saber administrar bem as entradas de curva, quando entra em ação o freio motor eletrônico. Mas é bastante interessante, é uma moto de corrida, um protótipo, com suspensão de corrida, pneus e freios que permitem um bom rendimento. De início o peso chama a atenção, mas com o tempo sobre a moto já me sinto totalmente confortável.

Você está de volta ao Mundial depois de uma experiência difícil. Como é ter essa nova oportunidade para mostrar seu talento em um campeonato com equipamento igual para todos?

Infelizmente ano passado eu tive a má sorte de pegar uma moto que não era competitiva (a Suter), era um equipamento que a princípio deveria ser competitivo mas não foi e eu não consegui confirmar meu potencial no Mundial como fiz no Europeu. Agora na MotoE estou tendo uma chance incrível, pois a moto é igual para todo mundo. Quem se destacar certamente vai mostrar que merece espaço em uma categoria como a Moto2 ou mesmo a MotoGP. Desde o primeiro teste fui um dos mais rápidos e isso é um bom sinal.

A MotoGP continua sendo seu objetivo?

Com certeza. Meu foco, meu objetivo continua sendo a MotoGP. Num primeiro momento penso que o melhor é voltar à Moto2 com uma moto competitiva para merecer uma vaga na MotoGP, porque eu não quero estar lá para ser mais um, quero ser um cara que faça a diferença e conquiste resultados.

Desde a saída de Alexandre Barros existe a expectativa por outro representante brasileiro fazendo bonito no Mundial. Por ser o piloto mais próximo dessa condição, você se sente especialmente pressionado?

A cobrança sempre existe dos fãs, do público, dos patrocinadores, também tem gente torcendo para dar errado, mas a maior cobrança é a minha, eu me cobro muito, seja num treino em que esteja sozinho na pista ou numa corrida com 35 adversários eu sempre quero fazer meu melhor. Se for o suficiente eu vou chegar lá.

Granado 1

Título europeu da Moto2 em 2017 foi o primeiro conquistado por um brasileiro

Acredita que a conquista do Europeu teve o reconhecimento merecido no Brasil?

É difícil falar em reconhecimento para o esporte a motor por aqui, nosso país vive futebol. Fui campeão europeu, sou um dos que chegaram mais longe e, tirando patrocinadores ligados diretamente ao motociclismo, o apoio que tenho é zero. Lá fora várias empresas que não têm relação com o esporte fazem questão de colocar sua marca, porque sabem que isso é muito bom para a imagem e gera retorno. Na Europa, especialmente na Espanha, o motociclismo é uma potência. Aqui falta incentivo, faltam patrocinadores, mesmo porque se alguém consegue se destacar e chegar à MotoGP, como eu busco, a molecada vai se interessar, vamos voltar a receber uma etapa do Mundial e tudo vai evoluir. Assim como no futebol todo mundo quer ser o Neymar; no surfe todos querem ser o (Gabriel) Medina, falta alguém no motociclismo. Se você não tem alguém para ser um ídolo, uma referência, fica complicado. Estou trabalhando há muitos anos nessa caminhada, espero um dia ter esse reconhecimento e, mais importante, ajudar o esporte a crescer. Hoje não temos categorias de base, motos para as crianças começarem, é tudo muito difícil. Um dia a gente chega lá.

E que conselhos dá aos meninos e meninas que querem ser pilotos?

Que eles sigam sua paixão. É preciso ser apaixonado pelo esporte, pelas duas rodas, porque é necessária muita dedicação, abrir mão de muita coisa, principalmente da adolescência, dos momentos com os amigos, com a família, ficar longe, dorme cedo, treina cedo, fica cansado, se machuca, é todo um processo de adaptação na vida de uma criança quando se começa na idade certa e tudo isso é muito difícil de lidar, mas tem que manter o foco, a força de vontade, a fé principalmente. Afinal de contas, é um esporte de risco e você depende de muitos fatores para ter sucesso. E claro, que você sempre dê o melhor de si e com certeza as portas se abrirão, você terá patrocinadores, apoiadores, pessoas que acreditam e torcem por você.