Moradores de rua, que geralmente passam despercebidos em meio ao cotidiano corrido de metrópoles como Belo Horizonte, são neste sábado (11) protagonistas de um evento social no Centro da cidade. Nos mesmos moldes de um projeto criado no início do ano passado na Cidade do Cabo, na África do Sul, o The Street Store BH, mobilizou universitários e voluntários para um trabalho de doação e solidariedade. Ainda de madrugada, dezenas de pessoas já se aglomeravam nas imediações do Parque Municipal à espera de roupas e calçados e também daquilo que normalmente não possuem: visibilidade e direito de escolha.

A roupa é só um vetor, um meio de se comunicar com essas pessoas que, no geral, são invisíveis para a sociedade. Por isso pensamos em doações não verticalizadas, onde as pessoas têm a chance de escolher o que querem”, explica a professora universitária e organizadora do evento Luciana Duarte, de 28 anos.

Até as 18 horas desse sábado (11), uma verdadeira “loja a céu aberto” está em funcionamento na avenida Afonso Pensa, altura do número 1.377. Já por volta das 5 horas da manhã uma fila de cerca de 100 pessoas já havia se formado no local à espera do início do Street Store.

Vim aqui buscar uma roupa melhor porque minha mãe está chegando hoje do Sul de Minas e quero que ela me veja bem”, explicou Warley Santos, de 21 anos. Como se tratava de uma ocasião especial, ele chegou bem cedo e esperou cerca de quatro horas o início do evento.

Após escolher as peças que mais o agradava, o rapaz, que vive nas ruas há nove meses e confessa não fazer muitas escolhas, já se sente mais à vontade para sonhar mais alto. “Quem sabe não volto para casa com minha mãe hoje? Ficar na rua é difícil, a gente enfrenta muita dificuldade e preconceito. É difícil ter gente assim tratando a gente como gente mesmo”, desabafou.

Um sentimento de gratidão que não se reflete apenas nas palavras e atitudes daqueles que receberam as doações, mas também daqueles que ajudam na realização do evento. “Hoje é meu aniversário e estar aqui é o meu presente. Ver a satisfação das pessoas e sentir que pode ser útil mesmo com atos pequenos não tem preço. É uma 'festa de aniversário' que não dá para esquecer”, afirmou a comunicadora Cleide Vieira, que completa hoje 32 anos.

A própria idealizadora e organizadora do evento não esperava que tanta gente fosse participar. A princípio, a ideia nasceu como uma forma de aprendizado para os seus alunos de engenharia de produção, mas acabou ganhando uma projeção bem maior. “Se quiséssemos, poderíamos ter uma quantidade maior de roupas e calçados aqui. Estou surpresa com a dimensão que o projeto tomou”, alegou Luciana.

Ao todo, cerca de 100 pessoas participaram do Street Store como voluntários que ajudaram a distribuir os milhares de objetos doados. Um segundo evento deve ser realizado ainda esse ano, desta vez em uma cidade da região metropolitana onde haja demanda. Mais informações sobre o projeto no site www.modaetica.com.br