Em 2015, a pernambucana Teliana Pereira se firmou como a tenista número 1 do país. Radicada em Curitiba, onde mora desde os 8 anos, ela encerrou um jejum de quase três décadas desde a última conquista brasileira em um torneio de nível WTA, quando foi campeã em Bogotá (Colômbia), em abril. E, surpreendentemente, ainda repetiu o feito em Florianópolis, em agosto.

Em ritmo de preparação para a temporada 2016, a tenista conversou por telefone com o Hoje em Dia e falou sobre a meta de conquistar uma vaga na Olimpíada do Rio, além de ganhar ainda mais posições no ranking mundial, no qual ocupa hoje a 45ª colocação.

Como se sente sendo a tenista número 1 do Brasil?
Fico muito feliz, pois são muitos anos jogando e me dedicando para chegar o mais longe possível. Este ano foi o melhor da minha carreira até agora, e o mais importante é olhar pra trás e ver que tudo valeu a pena.

Você acredita que é devidamente valorizada pelo posto no ranking?
Com os títulos de WTA, o reconhecimento cresceu bastante, afinal havia 27 anos que uma brasileira não vencia. Mas ainda está um pouco abaixo do que eu esperava, pois o tênis feminino ainda é um pouco marginalizado. Acredito que, se continuar subindo no ranking e outras jogadores conseguirem aparecer entre as 50 melhores do mundo, por exemplo, no futuro teremos um reconhecimento maior.

Depois do Guga, o brasileiro ficou exigente no tênis. Como você lida com esse tipo de cobrança?
Eu levo em consideração qualquer comentário feito com seriedade e sem o objetivo de me rebaixar. Não vejo a pressão como algo ruim, porque só existe pressão sobre quem tem potencial. Por isso, tento focar bastante no meu trabalho. Sei que o brasileiro quer que eu me mantenha bem no ranking e ganhe cada vez mais títulos, e isso eu também quero. Mas não é simples assim. Infelizmente, atletas vivem bons e maus momentos. Temos que ter sempre objetivos bem traçados, para ir subindo um degrau de cada vez.

Como você avalia a sua temporada? Já esperava essa performance?
Com certeza, este ano foi melhor do que o imaginado e planejado. Sempre soube que tinha nível para isso, mas não estava nos planos ganhar nem um WTA, quanto mais dois! Antes de começar o ano, eu já estava no Top 100, mas o começo foi um pouco complicado. Eu vinha de uma lesão que havia me afastado das quadras por mais de três meses, e só voltei a jogar em janeiro, completamente sem ritmo. Por isso, meu foco era permanecer entre as 100 e, principalmente, voltar a ter confiança. Por tudo isso, foi de certa forma uma surpresa.

No tênis, um ano depende do outro, já que é preciso defender os pontos ganhos. Ou seja, 2016 tem tudo para ser ainda mais difícil. Como está se preparando para isso?
Sempre é difícil, e como terei pontos a defender, será um pouco mais complicado. Mas não adianta entrar nessa. Porque às vezes a gente vai mal no torneio em que estamos defendendo pontos e, na semana seguinte, vai bem no que não tínhamos nada a defender. Por isso, estou bem tranquila, fazendo uma pré-temporada de preparação. Nem quero colocar um objetivo de terminar entre as 30 melhores, por exemplo, como já me perguntaram. Acho que o mais importante é ter outra temporada equilibrada, me manter entre as 50, e continuar evoluindo meu jogo tecnicamente, mentalmente e fisicamente. Se isso acontecer, já ficarei satisfeita.

Quais são as metas para 2016? Disputar a Olimpíada do Rio é a principal?
Claro que esse é um dos meus objetivos. Disputar uma Olimpíada no seu país é um sonho de qualquer atleta. Tive a sorte de sentir o gostinho no Pan do Rio, em 2007, e quero sentir de novo na Olimpíada. Hoje, eu estaria classificada. Mas o tênis só define as vagas mais perto da competição. Como não tem vaga separada para o Brasil, preciso continuar fazendo meu trabalho para seguir bem ranqueada.
 
Você já está garantida no Australian Open. Até onde pretende ir no primeiro Grand Slam de 2016?
Sendo bem realista, como é no piso rápido, onde não me sinto muito bem, chegar até a terceira rodada estaria de bom tamanho. Se fosse no saibro, acredito que poderia chegar até uma quarta rodada, ganhando três jogos. Além disso, também preciso ter um pouco de sorte no sorteio da chave.

E em termos de ranking, até onde você acredita que pode chegar?
Essa é uma pergunta difícil. Não acho que devemos nos colocar limites. Temos que tentar sempre o nosso melhor, e assim vamos descobrir nossos limites reais. Acredito que ainda tenho muito a evoluir no meu tênis, e isso me deixa muito feliz, porque posso melhorar ainda mais. Sendo honesta, acho que tenho nível para jogar entre as 20 melhores.

Você já disputou todos os quatro Grand Slams. Tem preferência por algum?
Roland Garros, com certeza, é o meu Grand Slam preferido. Essa pergunta é até fácil de responder. Primeiramente, porque é no saibro, onde jogo desde pequena, onde treino e me sinto à vontade, é onde o meu melhor jogo aparece. E, além disso, porque todos os brasileiros têm uma história com Roland Garros depois de tudo que o Guga conquistou por lá.

Você concorda que o Brasil não capitalizou efetivamente o ‘efeito Guga’? Como criar uma política de popularização do tênis?
Concordo sim. Acredito que a solução é apostar nas crianças e no esporte. Construir mais quadras públicas, dar condições a todos para poderem praticar o esporte, já que é caro. Além disso, não podemos esquecer o que o Guga, o Meligeni, a Maria Esther Bueno e outros fizeram por este esporte. Depois disso, é preciso olhar para o treinamento e melhorar o nível dos profissionais que cuidam da base. Tem alguns lugares que fazem isso com seriedade, mas é uma minoria. Espero que, após a Olimpíada, a CBT (Confederação Brasileira de Tênis) mantenha um grande centro de treinamento lá no Rio. Tudo isso precisa ser tratado como um trabalho a longo prazo, precisa ter continuidade. O problema no Brasil, de uma forma geral, é que tudo é feito a curto prazo e, se o resultado não aparece, é abandonado. Tem que investir nas crianças e seguir até que elas cheguem ao nível profissional. Só assim para realmente formar atletas com certa regularidade.

Quem é o seu grande ídolo no esporte?
Eu gosto muito do jogo do Rafael Nadal. Me espelho muito nele, na forma como ele se empenha nas partidas, como ele usa a força física dele e, principalmente, a sua determinação. E, é claro, o Guga. Apesar de ele já ter parado, sempre foi um grande jogador e uma grande pessoa.

Que outros esportes você acompanha? Tem ídolos de outras modalidades?
Eu acompanho bastante o futebol, até porque o meu sobrinho é goleiro do Coritiba. Além disso, tenho uma grande amizade com o Alex (ex-jogador do Cruzeiro e do Coxa), de quem eu sou fã declarada. Meu namorado é “coxa branca” e, por tudo isso, também torço pelo Coritiba.

Como é essa amizade com o Alex? Como vocês se conheceram?
Ele é uma pessoa incrível. Eu já conhecia, por ter acompanhado parte da carreira dele graças ao meu namorado, que é muito fã. Depois disso, uma série de acontecimento foi nos aproximando. Quando ele voltou para o Coritiba (no fim de 2012), meu sobrinho começou a jogar lá e, com isso, eu passei a ir nos jogos. Como a filha dele também joga tênis, isso acabou nos unido. Inclusive, parei a minha leitura da biografia dele para te atender (risos).

A Maria Esther Bueno é a referência do país no tênis feminino. Já teve a chance de conversar com ela e receber umas dicas?
Pra falar a verdade, tive muito pouco contato com ela. Conheço a história dela, mas nos encontramos poucas vezes. Duas, se não me engano, uma no Rio e outra em Wimbledon. Mas não chegamos a conversar sobre tênis. Eu gostaria de ter um tempo para poder conhecê-la melhor, mas o calendário é muito corrido. Sempre que nos encontramos, foi muito rápido.

Entre as atletas mais famosas, qual a mais simpática, e qual a mais ‘mala’?
Em todas as áreas, a gente encontra pessoas dos dois tipos. Mas eu prefiro ignorar as antipáticas. Criar uma amizade é difícil, porque todo mundo que está ali, na verdade, está competindo. Mas uma que eu adorei conhecer e achei super simpática é a Ana Ivanovic. A Flavia Penetta também era super legal, todo mundo se dava muito bem com ela e, por isso, todos ficaram tristes quando ela resolveu parar.