As imagens feitas com um telefone celular nos últimos momentos de vida de Eric Garner foram vistas milhões de vezes na internet, mostram claramente um policial dando uma chave de braço e, desta forma, sufocando o homem negro e desarmado, embora ele tenha falado várias vezes "eu não consigo respirar".

Apesar da evidência visual e da declaração do médico legista de que a manobra contribuiu para a morte de Garner, um júri popular de Staten Island decidiu na quarta-feira não indiciar Daniel Pantaleo, o policial envolvido. A decisão levou milhares de manifestantes para as ruas de Nova York, onde realizaram passeatas, gritaram e bloquearam o tráfego até a manhã desta quinta-feira.

"O vídeo fala por si só", disse Jeffrey Fagan, professor de Direito da Universidade de Columbia. "Parece mostrar negligência, mas se aprendemos algo sobre o caso de Brown é a respeito do poder dos promotores de construir e conduzir uma narrativa, de forma que ela se molde do resultado."

Ekow N. Yankah, professor da Faculdade de Direito Benjamin N. Cardozo, concorda que "é difícil entender como um júri não viu qualquer causa provável de que um crime foi cometido o está sendo cometido quando se assiste ao vídeo". Outro especialista, James A. Cohen, que leciona da Faculdade de Direito da Universidade Fordham, foi mais longe, afirmando que "a lógica não desempenha uma papel neste processo".

O procurador-geral dos Estados Unidos, Eric Holder, disse que a promotoria federal vai conduzir sua própria investigação sobre a morte de Garner, em 17 de julho, quando oficiais tentavam detê-lo por vender cigarros contrabandeados nas ruas. O Departamento de Polícia de Nova York também está fazendo uma investigação interna que pode levar a acusações contra Pantaleo.

A decisão do júri provocou protestos em Nova York e em cidades como Atlanta to Califórnia.

Em Manhattan, os manifestantes se deitaram na estação Grand Central, andaram pelo meio do tráfego na West Side Highway e bloquearam a ponte do Brooklyn. Um vereador chorou. Centenas se reuniram na área fortemente protegida nas proximidades da árvore de Natal do Rockefeller Center com uma série de faixas nas quais se lia "Vidas de negros importam" e "Companheiros brancos, acordem". No bairro de Staten Island onde Garner morreu, as pessoas reagiram com uma raiva descrente, gritando "Eu não consigo respirar!" e "Mãos para cima, mão me sufoque!"

As manifestações, porém, foram pacíficas, em contraste com os incêndios e saques que acompanharam a decisão, nove dias antes, de não indiciar o policial que matou Brown.

As imagens, feitas por um espectador, mostram Garner, de 43 anos, dizendo aos policiais para deixá-lo em paz quando eles tentavam detê-lo. Pantaleo passou seu braço pelo pescoço de Garner no que parece ser uma chave de braço.

O homem corpulento, pai de seis filhos, tinha asma. É possível ouvi-lo dizer várias vezes "eu não consigo respirar!" Posteriormente, ele morreu no hospital.

O legista que examinou Garner concluiu que a morte foi um homicídio e afirmou que a chave de braço contribuiu para isso. Um patologista forense, contratado pela família de Garner, concordou com as conclusões do legista, dizendo que havia uma hemorragia no pescoço de Garner, indicando compressão.

Segundo Fagan, da Universidade de Columbia, outro fator a ser considerado é que os integrantes do júri popular são provenientes do distrito mais conservador e menos racialmente diversificado da Staten Island, onde vivem muitos policiais na ativa e aposentados e suas famílias.

"Staten Island é um distrito muito diferente", disse ele. "Na verdade, pode se mais próximo do subúrbio de St. Louis e não podemos deixar de levar isso em questão." Fonte: Associated Press.