Quando criou em 2009 o blog Baixa Gastronomia, o jornalista Daniel Neto, mais conhecido pela alcunha de Nenel, mal imaginaria que, no futuro, se tornaria uma “sumidade” quando o assunto é comida de botequim. Dali em diante, o blog se tornou um guia gastronômico para o povo mineiro. Em Belo Horizonte e região, apresentou às pessoas iguarias tradicionais, de torresmo a tropeiro, de costelão de boi e frango frito, de batata rústica a caldo de mocotó...

O blog rompeu fronteiras, ganhou um canal no YouTube e perfis e páginas nas redes sociais. Em 2019, completou uma década de trajetória; no mesmo ano, Nenel atuou como curador no circuito gastronômico da Virada Cultural. Uma celebração e tanto. Mas as comemorações seriam estendidas.

No primeiro semestre de 2020, Nenel foi convidado pela Federação Mineira de Futebol (FMF) para tocar o projeto Rango no Mineiro. Na prática, ele percorreria as cidades que sediam o Estadual para mostrar a comida consumida dentro e fora dos estádios. Os relatos estão sendo contados por meio de vídeos, divulgados nas redes sociais do Baixa Gastronomia e da FMF.

Até agora, três programas foram produzidos, sobre a gastronomia na região do Independência, do Mário Helênio, em Juiz de Fora, e do Ronaldão, em Poços de Caldas. A próxima parada é no Castor Cifuentes, mas antes disso, Nenel conversou com o Hoje em Dia. No bate-papo, nos deu detalhes sobre o Rango no Mineiro, contou histórias inusitadas e emocionantes, falou sobre a alegria de vivenciar a paixão futebolística no interior e criticou a “gourmetização” na Era das Novas Arenas.

Nenel

Nos fale sobre a mais recente empreitada, o Rango no Mineiro, fruto de uma aliança entre você e a Federação Mineira de Futebol. De quem partiu a ideia e como vem sendo esse trabalho?
Sempre tive na cabeça essa coisa de querer mostrar as comidas dos estádios e seus entornos, escrever ou fazer vídeos sobre o assunto. Mas com a correria do dia a dia, não consegui colocar isso em prática antes. Fiquei muito feliz quando a Federação entrou em contato comigo com a ideia de visitar os dez estádios do Mineiro e mostrar o que se come dentro e no entorno deles. A gente faz os vídeos, e eles são postados no Instagram da Federação e do Baixa Gastronomia. A Federação posta antes, e eu posto depois. Está funcionando de uma forma bem orgânica e dinâmica.

Como é a programação e toda a logística? O primeiro vídeo foi feito no Independência. E o último será no Mineirão, certo?
Isso. Começamos no Independência com o jogo América x Caldense. Depois fizemos Juiz de Fora e Poços de Caldas. Vamos para Nova Lima neste domingo. Em seguida, vamos rodar as demais cidades e demais estádios do Módulo I, terminando no Mineirão.

Você mesmo é quem faz o mapeamento dos lugares a serem visitados? Chegam sugestões de locais que você não conhecia? A Federação te ajuda nisso?
O mapeamento está sendo feito na raça, por pesquisa de internet. Sempre posto também nos stories do Instagram do Baixa Gastronomia que estou indo para alguma cidade. Muita gente manda dicas. Vamos sabendo mais ou menos por onde ir. E acontece também a surpresa de estarmos ali na cidade e avistarmos um lugar que não está na nossa lista e que também parece ser interessante.

A Federação é quem custeia tudo? Você chegou a dar essa ideia à Federação no passado?
Não, nunca falei antes com ela. Foi uma coincidência maravilhosa. Estou realizando um sonho. A ideia em si partiu da Federação. Ela é quem está bancando tudo, contratou videomaker e tal; essa produção fica por conta da FMF. Quanto a mim, vamos dizer que tenho o papel de ancorar o vídeo e fazer a curadoria de onde estaremos. O pessoal da Federação me dá liberdade total. Não participo da edição, mas antes de postarem, eles me enviam para eu dar uma olhada. Só sai depois que a Federação e eu aprovarmos.

Conta um pouco sobre a experiência no Independência, que foi a primeira parada.
Chegamos duas horas e meia antes do jogo, demos uma circulada pelos locais onde o pessoal indicou. No Independência, o vídeo foi feito totalmente fora do estádio, porque Belo Horizonte passou por um processo (de modernização) nas Arenas, então não se acha tanta coisa mais lá dentro dos estádios. No entorno do Independência tem muito boteco legal. Passamos pelo Bar du Magrelo, que tem um bolinho de carne nos dias de jogos. Comemos um bolinho de feijão ali na porta. Uma senhora vendia bolinho de bacalhau na rua. Fomos ao Bar do Beto, um quarteirão acima e que tem uma estufa de botequim muito legal, com salsichão no molho, churrasquinho... Lá comi um frango frito, um clássico. E encerramos comendo um feijão tropeiro, claro, num lugar chamado Tropeirão do Mineirão, apesar de estarmos no Independência. É de um senhor que tinha um bar no Mineirão antigo, então ele vende à moda daquela época, com o molho de tomate em cima.

Nenel

Quais as semelhanças e diferenças que você sentiu da culinária dos estádios e seus entornos e do clima das torcidas da capital e das cidades do interior que você já foi?
O estádio da Caldense me marcou muito, porque é um estádio menor, à moda antiga. O de Juiz de Fora também é muito legal, mas ele é grandão. O de Poços tem mais aquela atmosfera de interior. Só que o de Poços e o de Juiz de Fora têm uma coisa que matou minha saudade, que é sentar na arquibancada de concreto, algo sensacional. E em Poços tem ainda o velho alambrado.

Fala então como é a culinária do estádio e entorno do Ronaldão, em Poços. Que personagens você encontrou?
Dois vendedores ambulantes me marcaram muito. Um deles é o senhor Eduardo, conhecido como Senhor Biju, porque ele vende biju. É o melhor biju que já comi, recheado com paçoca. É absurdo, é crocante e leve, com a mistura de sal e doce da paçoca, delicioso. Esse senhor está há mais de 40 anos nessa, desde quando o estádio era outro, mais ao centro. E tem uma senhora que vende amendoim, bem embaladinho, salgado ou doce. Ela criou quatro filhos vendendo amendoim no estádio. Isso é muito legal. Ela contou sobre isso emocionada, pois chegou a passar fome, sem ter comida em casa, aí ela passou a vender amendoim. Os estádios têm disso, e a gente acaba divulgando esse trabalho das pessoas, ajudando nessa microeconomia.

Essas pessoas são batalhadoras. Como é para você conhecer essas histórias?
Me marcam porque têm a ver com meu trabalho. Comecei a falar sobre gastronomia em 2009, não sou um crítico gastronômico, sou um jornalista gastronômico. Comecei a falar sobre gastronomia popular em 2009, muito focado na comida. Ainda estou focado na comida, mas percebi que precisava fazer um trabalho além disso, mostrando as pessoas e os lugares, usando a gastronomia como fio-condutor. Então acho que estou conseguindo fazer isso. Tenho muito o que aprender. Sou mais de texto e estou aprendendo mais com vídeos. Creio que estamos conseguindo mostrar as histórias e o trabalho desses personagens.

Você citou as comidas em Poços, e como foi em Juiz de Fora?
Foi bem legal, principalmente fora do estádio. Tinha pipoca feita na pipoqueira antiga. E lá eles adicionam uns queijinhos fritos maravilhosos. Lá fora achamos um costelão de boi, sensacional. E também uma das melhores comidas dessa série para mim que está no Bar do Tião, que não estava no roteiro. Vi dois cachorros na porta do botequim, e cachorro na porta traz credibilidade. Sinal de que é bom. O cara pega um parmesão, coloca-o numa chapa de ferro, joga por cima palmito e orégano, é muito bom, muito saboroso.

Nenel

Neste domingo você estará no Alçapão do Bonfim. O que podemos esperar?
O Alçapão do Bonfim é meu sonho, falo isso sem demagogia. Não quero saber de Camp Nou. Sempre ouvi falar da magia do Alçapão, como era difícil jogar lá. Principalmente na época em que o Villa tinha times fortes. Sei que tem muito botequim no entorno do estádio. Estou com muita expectativa, confesso que nunca fui ao estádio.

Voltando para BH, o tropeiro é nosso carro-chefe, mas no Independência tem o bolinho de feijão, que você mesmo apontou. É um duelo e tanto, não é? É empate todo jogo?
Pois é. No Mineirão você acha bolinho de feijão também, assim como no Independência também tem tropeiro. Então todo mundo pode comer de tudo. Mas a tradição do bolinho de feijão do Independência é proporcional à tradição do tropeiro no Mineirão. É muito legal a gente ter duas tradições diferentes em dois estádios. Até porque hoje em dia existe uma pasteurização, tudo está ficando igual. Hoje você vai ao Mineirão, no Maracanã e na Arena Corinthians e se come a mesma coisa, o que é muito prejudicial para o torcedor, os comerciantes e a gastronomia. Fiquei muito triste em ver o Pacaembu comercializando pipoca a preço de cinema, sanduíches de franquia de fastfood e um sanduíche de costela a R$ 45. Poxa, o lugar era conhecido por seu sanduíche de pernil... Não podemos perder isso, está ficando muito plástico.

De que forma você encara então quando há um evento como a Copa do Mundo? Falando especificamente do Brasil, faltou ao país mostrar aos turistas o valor e o sabor de nossa culinária nos estádios?
Nos estádios sim. O estrangeiro que veio e teve o interesse de conhecer nossa gastronomia, a conheceu, mas longe dos estádios. Nas arenas, ele ficou preso às comidas dos patrocinadores, coisas que o cara come em qualquer lugar do mundo. Creio que quando a pessoa viaja, ela quer comer o que vende realmente no estádio. Na Argentina tem o choripan, o pão com linguiça deles; no México são os tacos; na Espanha é o pan com jamón, o pão com presunto deles; nos EUA, há o cachorro-quente deles. Cada um na sua, sabe. E é fantástico. O que sinto falta hoje, por exemplo, no Mineirão, é que cada bar tinha seu tropeiro, seu tempero. Não há mais essa opção. Tínhamos tropeiros fabulosos e suas várias opções.

Nessa chamada “gourmetização” nos grandes estádios, houve algum ponto positivo na sua opinião?
(Pensativo) Eu não vejo nenhum. Porque briga ainda rola, infelizmente. Aquelas cadeiras até são confortáveis, mas em estádio de futebol tinha que ter arquibancada de concreto. Quer conforto, fica em casa e assiste pelo pay-per-view. Estádio de futebol está sendo transformado em teatro. Cara, teatro é teatro, futebol é futebol. Você ver um espetáculo maravilhoso do Grupo Corpo é uma coisa, você vai sentar e apreciar, um baita espetáculo, por sinal. Agora, em estádio, estou indo ao campo, onde quero ficar em pé, gritar gol...

E gastronomicamente, há algum ponto positivo?
Nenhum. Só vejo pontos negativos, todo mundo vende a mesma coisa dentro do estádio: pipoca, hambúrguer de micro-ondas, tudo muito caro. O futebol moderno expulsou o povo do estádio. O povo não tem mais acesso. Tem lugar onde não se pode mais entrar com bandeiras. Acho que o futebol, nesse sentido, é ladeira abaixo.

Nenel

Para você, qual a importância do Estadual nos dias de hoje? Pergunto isso porque há pessoas que defendem a extinção do Campeonato Mineiro, enquanto outras o defendem com unhas e dentes. Qual sua opinião?
Independentemente de eu estar fazendo esse trabalho com a Federação, te falo que o Estadual é importante. O Brasil tem um problema de calendário, deveria realmente ser ajustado, talvez fazer um campeonato menor. Mas gosto demais do Estadual. A gente vê muita criança, muita família em campeonato estadual, em jogos mais tranquilos. Uma boa forma de introduzir uma criança no estádio. É importante para os times do interior, que muitas vezes não disputam outros campeonatos. E também para esses trabalhadores, atletas, membros de comissão técnica, roupeiro, massagista... É muito importante para as pessoas dessas regiões. Principalmente quando Atlético e Cruzeiro vão jogar nas cidades do interior, em que o jogo vira um evento. E aí, repito, gira a economia numa tarde de domingo. Estadual ainda tem arquibancada de concreto, alambrado, placar manual... É maravilhoso. É nossa tradição.

Falando do seu trabalho no Baixa Gastronomia, muita gente conheceu pontos tradicionais da gastronomia mineira por conta do seu trabalho. O quanto você tem noção disso?
Fico muito feliz. Neste ano quero voltar com meu canal de YouTube. Fiz um em 2016, fizemos uma série (na qual Nenel percorreu dez locais tradicionais em BH) com um amigo meu, o Fábio. Fizemos na raça. Neste ano quero pegar o canal, trazer meu trabalho de rede social, onde é tudo muito dinâmico. Tem tempos também que não escrevo no meu blog. Esse projeto com a Federação me deu o impulso de voltar com o canal no YouTube com força total. E mostrar os bares de Belo Horizonte, do Brasil e, quiçá, do mundo, se eu tiver dinheiro e vencer meu medo de avião.

Não sabia desse medo (risos).
Tenho pavor de avião. Para o Rango no Mineiro, eu viajo só de ônibus e carro. Avião eu evito ao máximo. Mas um dia, no futuro, vou ter que viajar de avião, estou tendo que me preparar para isso (risos).

Fiquei surpreso porque você já fez trabalhos para o Baixa Gastronomia em Manaus.
Sim, verdade. Uma cidade maravilhosa. Quem sabe a gente não faz essa série de mostrar a gastronomia de estádios nacionalmente! Fazer no Arruda, no Mangueirão, esses estádios devem ser demais.

Por fim, que sonho você ainda espera concretizar?
Conhecer o máximo de lugares. Tenho um arquivo em casa com lugares do mundo inteiro. Vejo em documentários e pesquiso. Quero conhecer o máximo de tradição e culturas