Se você perguntar no Minas Tênis por Carlos Alberto Villar Castanheira, é bem provável que a maioria não saiba de quem se trata, embora faça parte da história do clube há quase quatro décadas. Mas se o procurado for o Cebola, dificilmente haverá dúvidas. Afinal, poucos profissionais do vôlei têm uma trajetória tão impressionante.

Como jogador, ele integrou o esquadrão tricampeão brasileiro (1984/85/86) do Fiat/Minas, ao lado de Pelé, Helder, Elberto, Cacau e Zé Eduardo. Aos 24 anos e com o curso de Educação Física encaminhado, apostou na carreira de treinador e, depois do começo como auxiliar do sul-coreano Young Wan-Sohn, fez história levando as meninas do L’Acqua di Fiori – uma equipe que revelou Leila, Hilma, Ana Flávia, Ana Paula e Márcia Fu – ao título da Liga Nacional em 1992/1993.

Pouco tempo depois, ele passaria a comandar o time masculino, fiel à tradição de revelar talentos. Em 1999, fez uma geração de jogadores de grande potencial – André Nascimento, Douglas Cordeiro, Renato Felizardo, Henrique, Ezinho, o levantador Rafa e o líbero Serginho –, voltar ao topo do pódio, dando início a um período de hegemonia que se estenderia até 2002 (o segundo tricampeonato do MTC), com a preciosa colaboração de jogadores como Giba, Maurício, Dante, Douglas Chiarotti, André Heller, Anderson (formado no Minas, e de volta à equipe) e o capitão Carlão. Houve ainda passagens bem-sucedidas pelo Banespa e pelo Bento Gonçalves. Pelo time gaúcho, mesmo com orçamento modesto, venceu a Copa Mercosul, foi quinto na Superliga e ajudou a revelar um levantador que iria para a Argentina antes de estourar em casa: o “mago” William Arjona.

Hoje, aos 56 anos, Cebola vive o que considera a oportunidade de fechar o ciclo. Como diretor de vôlei masculino do clube da Rua da Bahia, é responsável por toda a programação de treinos, viagens e logística da equipe adulta que disputa a Superliga. 

Quando perguntado sobre a possibilidade de voltar a treinar, mostra o atual comandante do time, Nery Tambeiro, e diz que encontrou “o substituto perfeito”. Em entrevista ao Hoje em Dia, ele falou da nova fase, da trajetória dentro e ao lado das quadras e das perspectivas para o vôlei brasileiro.

Quatro títulos da Superliga, experiências em Minas, São Paulo e Rio Grande do Sul. O que te levou a encerrar a carreira de treinador?
São etapas numa carreira. Comecei como atleta, atuei em todas as posições, já que tinha de mostrar versatilidade, parei com 24 anos e, como já estudava, passei a ser assistente-técnico e treinador. Primeiro na base, depois nos times adultos, vieram as conquistas, os novos desafios, acredito que dei minha contribuição. E assim como houve pessoas que me incentivaram a seguir e buscar mais, quero agora ajudar os outros a fazer acontecer. E, quem sabe, fazer nascer no Minas a geração que vai brilhar em 2024, 2028.

Qual dos três papeis deu mais dor de cabeça: jogador, treinador ou dirigente?
Eles são completamente diferentes dentro de um contexto. Como jogador, você está ali ao lado de outras pessoas para fazer a coisa dar certo, tem que cumprir a orientação do técnico, absover as informações e procurar fazer algo a mais. Como treinador os papeis se invertem, porque você é que tem que convencer os jogadores de que seu modo de trabalhar é o correto. Eu montei um sistema de jogo baseado na velocidade que acabou levando aos bons resultados, mas não foi fácil fazer feras como Maurício ou Giba assimilarem. Se você pede a um menino do juvenil para bater a cabeça na parede ele faz isso, mas um jogador consagrado tem suas convicções, e eles vestiram a camisa, trazendo os mais novos junto. Agora como diretor eu enxergo além do que fazia no banco: tenho que me preocupar com a estrutura dentro e fora da quadra, dar assistência, cuidar da parte médica e tudo mais que envolve o dia a dia do time.

“Assim como houve pessoas que me incentivaram a seguir e buscar mais, quero agora ajudar os outros a fazer acontecer”

De todos os títulos nacionais e internacionais, algum teve sabor especial? 
Todos têm sua importância, sua dificuldade. Mesmo o quinto lugar na Superliga com o Bento tem um peso enorme diante do orçamento limitado que tínhamos, foi um diferencial. Lógico que aquele que veio primeiro (o feminino, com a L’Acqua/Minas) marcou bastante. Fomos campeões nacionais, sul-americanos e vice no Mundial, e a base do grupo conquistaria o primeiro bronze brasileiro olímpico (Atlanta-1996).

Você atuava na época dos sets de 15 pontos com vantagem (agora são 25), com tie-break, desafio e a adoção do líbero. Há algum aspecto daquele vôlei de que sente falta ou era esse o caminho?
Tudo isso fez muito bem ao esporte. O público não tinha mais prazer em acompanhar os jogos, que se arrastavam, hoje é até difícil lembrar de como era. O uso da tecnologia traz uma forma a mais de envolver o torcedor, criar suspense. E a adoção do líbero foi fundamental para podermos aproveitar atletas que, de outro modo, não teriam chances. É o caso do Serginho (hoje no Cruzeiro), que havia sido dispensado como levantador, teve a oportunidade de abraçar a nova posição e se tornou um dos melhores do mundo.

A geração campeã olímpica no Rio foi chamada pelo técnico Bernardinho de ‘operária’, sem um talento fora do comum, mas com um conjunto muito forte. É um caminho para o vôlei brasileiro?
Ninguém treina mais do que o jogador brasileiro, ou consegue mostrar a mesma versatilidade. Mas olhando o que ocorre em outros países, há motivos para preocupação, já que o biotipo dos atletas da base não é favorável. Os ponteiros são baixos e sempre obrigados a se superar para conseguir títulos, mas dificilmente isso se mantém ao longo de um ciclo inteiro. Os rivais, mais altos, estão ganhando essa capacidade de surpreender, não são mais aqueles jogadores duros, sem recursos, previsíveis.
 

Cebola

“Estamos vivendo um momento complicado, em que perdemos a hegemonia continental no Sub-19 e Sub-21 para a Argentina”

O que é mais importante numa equipe atual: um levantador versátil, capaz de surpreender a marcação adversária ou um oposto capaz de colocar muitas bolas no chão do outro lado da quadra?
É uma questão de equilíbrio de forças na quadra. De nada adianta achar que basta mandar a bola para o alto que os atacantes se encarregam de definir. Do mesmo modo, um levantador talentoso precisa que os demais jogadores se adaptem a seu tempo de bola, à sua velocidade. Como vem mostrando o Cruzeiro, a supremacia é de quem conta com os dois.

“Ninguém treina mais do que o jogador brasileiro, ou consegue mostrar a mesma versatilidade. Mas olhando o que ocorre em outros países, há motivos para preocupação, já que o biotipo dos atletas da base não é favorável”

Como você encara o trabalho de base nos principais clubes e as perspectivas para os próximos anos. Vamos continuar formando talento em quantidade e dominando desde as categorias menores ou está mais difícil?
Estamos vivendo um momento complicado, em que perdemos a hegemonia continental no Sub-19 e Sub-21 para a Argentina, que hoje tem uma base mais forte. Isso tem que servir de alerta. Não existe competitividade no país, joga-se pouco e as competições são fracas. Infelizmente clubes formadores, como o Minas, são cada vez mais raros.

Qual é a sensação de ver um jogador ou jogadora que começou a trabalhar com você em idade de juvenil estourar e se tornar campeão olímpico? Exemplos não faltam...
Mais do que ajudar, acho que não atrapalhei, o que já foi pra mim um grande sucesso. É muito bom poder contribuir com o sonho dos atletas que começam meninos e buscam a realização pessoal e profissional. A minha medalha olímpica é o agradecimento que recebo deles e, felizmente, trabalhei apenas em clubes com estrutura e preocupação em revelar talentos.