Na sala do quarto andar perto da Praça Tiradentes, o velho rádio com a máquina de escrever Remington simbolizam a primeira profissão. A tela do computador aberta em sites judiciários revela a profissão. A chave do carro pendurada numa mini taça da Libertadores é a marca da paixão.

De ex-lateral-direito da URT pra vice-presidência do Atlético, o advogado e professor Lásaro Cândido, “com ‘s’, porque com ‘z’ eu não reconheço” não gosta de revelar a idade. Mas já são dez anos dedicados ao Galo. De processos trabalhistas, Arena MRV ‘popular e redentora’ e contratações, ele fala abertamente desses temas - já reservados para um livro de bastidores do clube - nesta entrevista exclusiva ao Hoje em Dia.

O senhor é de Patos de Minas. Como foi sua trajetória de vida?
Veja bem, Patos de Minas, apesar de estar distante daqui (BH), tem uma característica da região que as pessoas de lá vêm mais pra capital estudar, ao contrário de cidades próximas à região. A minha cidade fica na entrada do Triângulo, o que na verdade é uma reivindicação do Triângulo que Patos deveria fazer parte, mas Patos não concorda. E eu também, sem chance. Então há essa tradição de ir para Belo Horizonte do que para Brasília, São Paulo. Então eu sou produto dessa história.

Estamos falando de escola fundamental ou faculdade?
De segundo grau. Eu sou produto disso. Eu vim para BH... Tenho história com jornalismo e futebol no rádio. Eu trabalhei na Rádio Clube de Patos de Minas. Estou neste livro do Adamar Gomes, que é uma história de pessoas que passaram por lá. Eu escrevi dois artigos, com histórias minhas. Eu tenho um grande envolvimento emocional com rádio. Eu batia avisos com 14 anos. Um camarada chegava lá, e avisava algo, anunciávamos isso, era reclamações, eventos fúnebres e as pessoas pagavam pra isso. A comunicação era assim. Eu dividia essa função com um sujeito que é juiz de direito hoje. 

Estamos falando de que ano, mais ou menos...
Isso é na época de 1978...

Então o senhor é de 1964 (55 anos)
Sou de 1969 (cara de riso)...

1969?
Uma das poucas coisas que não falo é a idade, uma das poucas. Não sei, é coisa da minha mãe. Minha mãe tem 90 anos. Se alguém perguntar a idade... Eu falo que minha idade é 49 anos. Mas veja bem, muito precocemente comecei a mexer com rádio. Já era um trabalho, tinha que ganhar a vida. Comecei a trabalhar aos 14 anos. Lá, eu fiquei de olho na discoteca da rádio, com 110 mil discos. Então tem umas histórias, a "cheque sem fundo"... O cara chegou pra mim pra avisar de um cheque sem fundo. Eu batia na máquina de escrever e tinha uma cordinha que levava o recado pro estúdio. A rádio fica num prédio histórico no centro de Patos, tinha um auditório. Tem as fotos aqui no livro, foto minha jogando no time da Rádio.

O senhor jogou na base da URT também...
Joguei, eu era lateral-direito. Eu era ruim. Só que eu tinha um ótimo preparo físico. Eu era muito dedicado, cheguei a fazer gols importantes em finais, eu era posto em campo nos fins dos jogos. Mas o treinador chegou até mim: 'gosto de você, mas não dá'. Eu chorei, fui até meu pai pra xingar o técnico, que me disse assim: 'seja franco comigo, o treinador está certo ou não?'. Eu falei que estava certo. Então eu encerrei a carreira precocemente, nasceu o envolvimento do rádio, criamos programas, tinha o jornal impresso, eu tinha coluna por lá. Comecei a falar sobre futebol, a mexer no discotecário da rádio, um arquivo enorme. Então eu fui promovido, separei todos os discos por categoria e até pouco tempo eles tinham isso, depois foi vendido. 110 mil discos! De lá, comecei a ver espaços no rádio para novos programas, tinha um horário de 15h30 às 16h que era morto. Depois eu resolvi ir embora, queria fazer direito.

Lásaro Patos de Minas


Como foi essa virada na cabeça do senhor?
Meus irmãos já estavam aqui, eu era o terceiro da linha. Um estudava geologia e engenharia, o outro fazia odontologia. Era natural. Eu demorei, inclusive, vim aos 20 anos. Eu tinha passado num concurso pra previdência em Patos, conciliava com a rádio. Então eu passei no vestibular e vim embora. Entreguei uma carta na previdência de que eu iria embora pra BH, e eles me transferiam ou eu iria embora. Me transferiram. Trabalhei poucos anos e recebi uma oferta de estágio no escritório Ariosvaldo Campos Pires e Oswaldo Machado Advogados Associados, que é um dos maiores do Brasil, era uma oportunidade de luxo. Uma verdadeira escola de advocacia. Todo mundo era professor lá, na Federal, na PUC. E pelo meu desempenho na PUC, o diretor, que era o Oswaldo Machado, me chamou. Mas eu tinha que pedi demissão na previdência. Entreguei a carta, mas ninguém aceitou. "Funcionário público não pede demissão não". Eu fiz outra carta e sai. Eu tinha um projeto lá na frente. Iniciei o estágio no escritório, você passava pelo (direito) criminal, trabalhista, previdenciário, direito público. Tanto que é verdade, seis meses antes de formar, tive um convite para compor um escritório com outros sócios. 13 anos depois, montei o meu próprio escritório.

De que forma o Atlético surge nessa história?
O Atlético ocorreu o seguinte. Num dos meus aniversários, isso tem uns 15 a 18 anos, eles iriam fazer uma festa pra mim na minha casa e queriam levar vídeo de gols do Atlético. E eu fui na Sede, e antes existia a Associação de Amigos do Galo. Me chamaram uma vez pra diretoria, mas não queria mexer. Só ajudava, pagava um dinheiro por mês. Hoje eu sou bastante cético com isso. Há outras formas mais eficientes de ajudar.

Lásaro

 

Mas não depende de quem está na diretoria, de quem vai receber e administrar essa ajuda?
Não... Há como participar sendo associado do clube. E quem tem condições, pode trabalhar de graça pro clube, como é o meu caso. Então aconteceu que eu fui pedir o vídeo de gols. Fui muito bem atendido, mas no improviso total, não tinham os vídeos desses gols. Não tinha google, não tinha youtube. O clube não tinha direito as coisas. Achei muito incômodo. Ai pensei que deveria ter muito erro na minha área, ações sem conhecimento. Fiquei com aquilo na minha cabeça de que um dia ia ajudar o Atlético. Estou em outra festa com Rodolfo (Gropen) e um amigo em comum. O Rodolfo estava há um mês lá, o Alexandre (Kalil) tinha acabado de ser eleito. Ao lado disso também, existia o Zé Roberto, que era diretor do Atlético e tinha sido meu aluno. O Rodolfo disse que eu deveria entrar no clube pra ajudar. Cheguei no clube, encontrei os dois e eles me levaram ao Kalil, que eu não conhecia. O Alexandre, daquele jeito dele, perguntou o que eu poderia fazer. Falei: acho que vocês estão pagando algo errado na previdência. Então, conversa vai, conversa vem, fui nomeado assessor especial da previdência. Então comecei a ajudar. Peguei o que estava sendo feito e descobri um pagamento errado que poderia economizar 40 mil reais por mês. Já achei um tanto de coisa, de cara. Isso foi em 2009. Eu não gosto de participar mais ou menos, e fui trabalhando intensamente. Vi que havia muita demanda, muita coisa a ser aperfeiçoada. Tinha um roll de ações trabalhistas de descontrole total. Então o Alexandre, um dia estávamos almoçando no Santa Fé, me nomeou diretor jurídico no fim de 2010. Falei que não tinha condição. Mas aceitei, com condições. Melhorei o ambiente físico, organização, objetivos a cumprir, melhoria de contratos. Plataformas novas, objetivos...

E como é a conciliação do senhor em relação ao escritório e o Galo?
Eu vou no clube todo dia. É um vício, o futebol é um vício. Algo impressionante. 

Quando conheci o senhor, em 2011, o senhor já me falava que a vontade era de voltar pra arquibancada
Esse é o sonho...

Mas já se passaram nove anos...
Pois é. É algo impressionante. Mas veja bem, o dia todo eu recebo e-mail sobre o Atlético. No telefone (mostra o celular), é sem parar. Aqui, João Paulo, do departamento técnico. O Sérgio (presidente) me mandando mensagem. Nós vamos entrando no clube, muita gente ajudando, realmente é uma dedicação grande. Coincidiu que em 2011, estava separando, passei a dar mais tempo ainda ao Atlético. Então veio as demandas do futebol, passei a viver aquilo lá. Fui várias vezes à noite no CT, no Hotel, porque o Cuca estava com problemas. Vamos ser francos. O Cuca é um sujeito extremamente dedicado e tal. Mas não é fácil de administrar. Então estava nos problemas. O famoso episódio do Ronaldinho, eu estava lá, o Alexandre chegou e eu estava lá. Passei a ajudar juridicamente e também no futebol. Ajudei muito intensamente a partir de 2011, 2012...

Isso já com o Ronaldinho aqui...
Com o Ronaldinho! Tem muitas histórias engraçadas. No dia que o Ronaldinho foi contratado, na noite da definição, o Alexandre me ligou e me falou pra ir no dia posterior meio-dia, no CT. Há um porteiro no escritório que é cruzeirense, mas todo dia ele me pergunta de notícia do Atlético. É um cruzeirense espetacular. Obviamente eu não falo a verdade todas as vezes. Dou dicas, especulações. Dou notícia que são verdadeiras mesmo, mas ele fica na dúvida. Estou saindo daqui 11h e falei pra ele: 'vou te dar uma notícia e só você está sabendo: o Ronaldinho está chegando. Ele riu, falou que era brincadeira. Depois, ele ficou incrédulo quando soube que era verdade. Hoje, eu brinco falando que estamos trazendo fulano, mas é mentira. Essa do Tardelli...

Tardelli

E o Tardelli? É muito difícil trazê-lo?
Sobre o Tardelli. Vi aí um sujeito candidato a presidente do Atlético, os valores dele não paga um salário, um mês do Tardelli. O que ele está praticando no mercado. Ele apresentou uma proposta agora, registrou dia 6 de fevereiro no Conselho, mas nem tinha valor. Mas se tivesse também, chegou tarde, porque temos a concorrente dele, a Bamaq, que já tem contrato assinado. Ele não procurou o Atlético, procurou agora depois que já tinha...

Mas ele (Fabiano) foi no Cruzeiro e no Flamengo antes de ir no Atlético?
Ele não procurou o Atlético. Procurou agora. É difícil acreditar numa pessoa que cujo o lema para presidir o Atlético era "avante Atlético". Pelo amor de Deus! Não dá. E o caso atual está exigindo maior preocupação com o Villa Nova, já que ele é vice-presidente eleito de futebol do Villa. Ele tem que cuidar das questões do Villa. Então que fique bem claro que essa questão de patrocínio dele para pagar Tardelli, é um mês de salário, não tem noção das coisas. Então não há a menor possibilidade.

Então eu posso crer que a vinda do Tardelli também é algo perto da "menor possibilidade"?
É muito difícil. Se ele não abaixar, é quase que impossível. Mas houve conversa, lógico. É um ídolo e poderia ser muito útil ao Atlético. Mas não dá pra fazer loucura. 

Mas dá pra descartar esse assunto?
Não (descartamos). Se ele resolver efetivamente pretender jogar no Atlético, ele jogaria. Agora, pra isso ele tem que, de cara, renunciar essa pretensão salarial de "salário chinês". O Atlético não vai fazer isso, ele teria de reajustar a uma realidade do clube.

Ainda tem a questão do investidor, que o presidente citou...
Essa história de investidor, não existe essa figura. Na verdade é um patrocinador, ou vai emprestar e cobrar, não tem conversa. O Tardelli tem 33 anos, nenhum investidor vai chegar aqui e investir no Tardelli porque a revenda é quase zero. 

O Chará eu já achei de alto risco, pela idade, pelo preço...
Mas ele ainda tem mercado em outros lugares, fora do circuito europeu. Você vê pelas próprias sondagens que ocorrem.

Teve a reunião na segunda-feira com o Bertolucci? Existe previsão de conversa formal?
Não teve. Nós estávamos todos (da diretoria) no Uruguai. A gente sempre conversa com o Tardelli. Ele conhece todo mundo, me conhece, tem meu telefone, eu tenho telefone, o Sérgio tem, o Marques tem. Mas não vamos iludir ninguém não. Salário chinês? Chance zero. Não tem jeito, não tem possibilidade.

Então dependeria só dele?
Nos atuais âmbitos, não existe essa possibilidade. A não ser que o clube resolva fazer uma loucura. 

E o Grêmio está em cima dele. Mercado ele tem.
É o mercado, faz parte. Quem achar que pode pagar isso, que pague. Mas aqui, não tem essa possibilidade. E o elenco do Atlético é bom, tem boas peças. Qualificamos o elenco em relação ao ano passado, sem gastar tanto. Futebol é muito caro. Mas acho que neste ano praticamos uma coisa que sempre defendi com o Sérgio: essa figura do diretor de futebol mudou. Não tem essa figura. Hoje você tem analisa de números, de dados. Tem que verificar consequências financeiras, viabilidade de revenda. 

O Lucas Ottoni, advogado do Atlético, vem fazendo esse papel com o Marques, principalmente na questão de contratos.
Não é só o Lucas. Temos uma equipe de analistas de números, analistas de mercado e a gente (diretores) atuando. Vou te falar uma coisa. Um jogador que nós contratamos, apesar de toda a sofisticação de profissionais que nós temos, fui eu que cheguei no ano passado e falei no Jair. A gente vai aprendendo um pouco, a olhar um jogador. observar o jogador no jogo inteiro. E temos ferramentas de números, históricos. Eu comecei a olhar esse jogador. No fim do ano falei pro Sérgio sobre o Jair. Ele ficou de olhar. Então tabulamos uma discussão, quando ele ingressou com ação e conseguiu a liminar, nós tratamos com o Sport e com ele, concomitantemente. Quando outros clubes chegaram, e foram vários, estávamos adiantados na história.

E o Atlético negociou uma dívida do André na transação...
Com o Sport a gente praticamente negociou uma dívida do Sport com a gente. Parte dela nós abrimos mãos. Era R$ 1,7 milhão. Por outro lado, estabelecemos com o Sport uma série de tratativas futuras, de jogadores que despontarem lá. E não tem mais essa questão de eles pegaram jogar emprestados.

Não? Porque eles estavam loucos com o Dodô.
O Dodô não deu negócio porque não somos obrigados a emprestar jogador pra eles. Do Dodô, queríamos receber. Empréstimo gratuito a gente não ia fazer. Pro Fortaleza, da primeira vez, foi gratuito. Não seria mais, como não foi. Batemos o pé. 

Mas por isso que se arrastou...
Eu acho que é um mundo que os torcedores, a imprensa está no papel dela de falar mesmo, mas é preciso senso crítico. Caberia a nós, ao Sérgio, falar 'não, o atleta vai ficar aqui, só sai com tais condições'. Houve preposições de mercado, mas não deu em nada. Então ele falou que não iria renovar contrato (terminaria em dez/2019). Respondemos que nem empréstimo tem. Ele ficaria aqui. Então as pessoas começam a criticar, mas não entendem. Muitas vezes o clube não pode divulgar detalhadamente as circunstâncias do negócio por questões de privacidade e estratégia. Mas lá na frente há um entendimento.

Foi algo visto também na questão do Elias, de insatisfação...
Ele tem um ano de contrato. É um jogador que está numa prateleira de cima. Uma renovação dessa envolve um custo. Como ele tem um ano de contrato ainda e um salário de prateleira de cima do padrão nosso (mas um salário razoável na comparação de outros clubes), então o Sérgio definiu que iria discutir com ele a partir agora de março, abril, a renovação. Houve uma discussão que ele foi oferecido no mercado...

Lásaro Cândido

Ele disse que se sentiu desrespeitado por ter sido oferecido no mercado, o Inter ter se interessado e o Atlético ter rejeitado depois.
Isso não exisste. Esse tipo de palavreado não funciona com a gente. Pode o pai reclamar. Faz parte do jogo, mas não vamos ceder. Não adianta. Chance zero de o Atlético oferecer. O que existiu foi uma sondagem do Inter. E o Sérgio fez a proposta.

A proposta do Inter não era boa? Envolvia troca de jogadores reservas...
Era fraca. Frágil. Sem chance. Isso não vamos fazer. Se fosse pra não envolver jogador, tinha que pagar tudo que o Atlético pagou (2,5 milhões de euros), isso no mínimo. E ainda era arriscado, porque tínhamos que ver se haveria reposição. O Elias é importante pra gente. Teve a sondagem do Inter, mas não houve segundo passo. Até porque o Inter não está em condições de grande investimento. Capacidade baixa para querer tirar jogador do Atlético. Mais fácil o contrário. O torcedor fica agitado, mas o dirigente tem que ter muita calma, não pode se assustar com pressões, com palpite de empresário. Estou gravando vídeos sobre questões do futebol e do direito, com uma linguagem menos sofisticada. Virei Youtuber, então, outro dia, falei sobre a participação do sócio torcedor, uma questão de reflexão.

Algo que vai se tornar forte com a chegada da Arena MRV.
Esse projeto simplório de que 'pagou tem direito a participação', não é assim. Daqui a pouco vamos criar uma figura de alguém que compra cotas e vira dono do clube. Então falei no último vídeo sobre a criação de outros mecanismos de participação do torcedor, não necessariamente só de sócio. O torcedor que tem tradição, afetividade com o clube, um ex-jogador que nunca deixou o clube..

Mas isso não seria o 'corpo estrutural' do Conselho Deliberativo?
É a ideia de popularizar isso. Precisamos eventualmente trazer a participação desse torcedor. E acho que vai ser a partir da construção de um critério. Por exemplo: quem frequenta todos os jogos do Atlético, 90%, é alguém habilitado a participar de alguma forma dos destinos do clube. Aliás, as pessoas esquecem que no Brasil, clubes de futebol, na maioria, são sociedade civis, ou seja, reunião de pessoas. São 5 mil sócios na Vila Olímpica e Labareda, fora 400 conselheiros. O que devemos é melhorar a participação do torcedor comum. A partir do estádio, você pode fidelizá-lo com cotas pequenas. Quem tem uma cota de 13 reais por mês, tem que ter o mesmo direito de quem paga R$ 500. Se não, elitizamos o clube. E o Atlético é o clube do povo, historicamente. 

O senhor levanta a bandeira de uma área popular na Arena MRV...
Tem que ter um local popular. O tempo que jogamos no Independência, e veio a alteração no Mineirão, que foi bizarro o que aconteceu. O Mineirão foi concebido para excluir os povos. Estádio reformado, quase R$ 700 milhões, sem espaço popular, porque ele é todo igual. E os clubes foram alijados do processo de participação na administração. Os clubes foram excluídos do direito de participar, inacreditável isso. O Atlético conseguiu a participação no Independência porque se aliou à BWA, e o Ministério Público queria questionar. 

E quais as ideias desse espaço 'popular' do estádio?
A grande chance de retomar essa discussão é o Atlético ter um estádio quitado, e que haja um espaço de pelo menos 15 mil populares, mas populares mesmo, sem cadeira, de concreto, mas ofereceremos diguinidade, um local com produtos um pouco mais em conta. Temos que fazer isso tudo para que o torcedor gaste 12, 15 reais no máximo, para poder frequentar o estádio com um plano acessível. Teremos um segmento que o sujeito pode pagar muito e ter o seu camarote, bebidas. Mas no conjunto da obra, ele será um torcedor do clube. 

Mas tal pretensão não pode criar uma cisão na torcida, de acordo com o espaço que eles estão no estádio? Por exemplo: 'lá embaixo fica o povão, a favela e lá em cima é o lugar dos ricos'. 
Não, porque não vamos separar assim. Vamos criar espaços naturais pra quem quiser pagar mais, pra quem quer mais espaço, produtos. O meu filho, por exemplo, adorava ficar na Galoucura. Então vamos oferecer no espaço popular, vai ter condições dignas de estar ali. A ideia é permitir que o povo volte aos estádio. É inacreditável você vê um estádio como o Mineirão, que o custo dele de se jogar uma partida ali é R$ 250 mil, no mínimo. Então você em que ter uma renda lá de R$ 1 milhão para ter o mínimo.

Sobre essa relação entre clube e torcedor, o senhor não enxerga um distanciamento grande entre os clubes de capital - Atlético e Cruzeiro - com o público do interior de Minas?
Acho que isso tudo tem a ver com o estádio. Porque isso cria um mecanismo de o torcedor do interior vir aqui, visitar o estádio, faz um dia, um tour, vai no museu, auditório, lojinha do clube. É a permissão de uma integração maior. 

Mas eu digo assim, a presença do Atlético no interior. É levar a marca, o escudo, nas mãos do torcedor fora da capital.
O Campeonato Mineiro deveria fazer isso. Mas como o formato do campeonato está ficando cada vez mais difícil. Então uma coisa puxa a outra. Os estádios do interior não oferecem condições mínimias, e não têm porque os clubes não jogam, e não jogam porque não tem campo. Sou favorável de ter um calendário do estadual que os clubes menores jogam no ano, e que os clubes maiores entram depois. Porque os campeonatos regionais vão acabar, vai acabar o estadual.

A TV Globo nem está passando alguns jogos...
Daqui a pouco não tem mais interesse a acabou. E não podemos matar os clubes do interior. Mas só criando uma agenda de um campeonato durante todo ano, e não durante os primeiros três meses. E é um processo difícil.

Por falar em TV, ela é a principal fonte de receita do Atlético. Como o senhor enxerga a nova distribuição da cota de TV para o Brasileirão, a partir de 2019?
Os clubes do mesmo porte do Atlético têm que dar um jeito de captar tudo que ele produz no entorno da torcida. Ficar dependendo só de pacote de direitos de transmissão, não vai ter jeito. Esse formato decidido de 40%, 30% e 30%, só as luvas que têm, e estão foras disso aí, quebra completamente isso. E vai ter o Pay-per-view que aumentará a distância, e é um outro critério, que é duro e oneroso. Antigamente, havia uma pesquisa só nas capitais em que tinha os times, depois estendeu para capitais e cidades do interior. Há uma distorção enorme. Clubes como Flamengo e Corinthians criam distância. Mas se fizermos, como o Atlético caminha, para ter o estádio e consiga captar os recursos que o clube produz  com o show, vamos multiplicar por três vezes, para ser bastante conservador, três vezes o que a gente arrecada em bilheteria.

Projeto de estádio próprio do Atlético ainda está na Prefeitura de BH, antes de ser votado na Câmara

É o tal do Match Day...
Pois é. Um jogo no Independência, a gente não ganha nada de estacionamento no entorno, cerveja, churrasquinho. O jogo é nosso, mas não ganhamos nada. Então o que queremos fazer (neste momento, Lásaro pega um bloco e desenha com lápis) é assim: tem o estádio, e essa área. Você entrou aqui e a pipoca, o churrasco, tudo é do Atlético.

E ainda tem a questão de virar um lugar para show e eventos...
Nós já estamos articulando a administração, acertando detalhes com a empresa que produz shows no Brasil e fora, que é a WTorre, que administra o estádio do Palmeiras para shows...

Mas isso não pode criar uma dependência, um desencontro de datas?
Não. Porque o nosso estádio tem uma singularidade. Ele é adaptado para ter show hoje e amanhã ter um jogo normal. Ele é preparado aqui (na arquibancada) para a montagem, desmontagem. Você abre, ele monta o palco, as peças já estão preparadas. De tal forma que não prejudica o jogo. É tudo desmontável. É um cuidado feito para ter shows de 5, 10, 15, 20, 25, 30, 40 mil de público em shows.

Mas o circuito de show em  Minas Gerais é todo voltado ao Mineirão. Existe capacidade da Arena em "roubar" isso?
Totalmente. Vão ser todo aqui.

Mas e a localização no bairro Califórnia, não pode ser um obstáculo?
O acesso é espetacular. E você terá condições de fazer show. Tanto que a WTorre veio e olhou, falou que não quer show pra Mineirão, porque tem que ficar parado 15 dias. Então nós teremos condições de entrar na rota de show do Brasil. Estaremos preparados para isso. Inclusive as alças de proteção para baixar as curtinas foram pensando nisso. Sendo conservador, arrecadamos em torno de R$ 40 milhões entre bilheteria, sócio-torcedor, por ano. Vamos arrecadar R$ 120 milhões, pra ser conservador. Porque tudo será nosso. Por exemplo: tem empresa nos sondando para naming right setoriais, de R$ 10 milhões. Isso sem contar o naming rights do estádio (MRV Engenharia). Um desse investidor ofereceu R$ 10 milhões para este naming right setorial. Vamos arrecadar com churrasco, pipoca, auditório, estacionamento. Podemos fazer, em janeiro por exemplo, torneios internacionais, trazer clubes estrangeiros. Futuramente ter um hotel dentro do complexo, com a ideia de hospedar os clubes adversários. Eles ficam dentro da arena. Ele vem e vai consumir tudo aqui. O projeto nosso é triplicar (a arrecadação via bilheteria/jogos). Então vamos competir e não depender tanto de televisão. Até porque, com o Streaming, a TV vai mudar muito. Moral da história: estamos em tempos em que só uma coisa não podemos abrir mão, que é o torcedor. Esse tem que estar. Sem ele, o clube não anda. O grande futuro do Atlético é ter um estádio próprio de 40 mil, e podendo chegar a 48 mil, porque ele estar preparado para ampliar. E que todos os produtos decorrentes do show, das partidas, sejam alocados aos cofres do clube. Então eu falo com sinceridade: vou comprar de cara a minha cadeira cativa, com validade de 15 anos. Aí eu volto pra arquibancada. Mas até lá, precisamos profissionalizar o Atlético, em todos os âmbitos. E isso já acontece de alguma forma, com regras de governança. Estabelecer limites para o gestor, respeito, regras, obrigações. Responder um grupo de conselheiros. Temos que criar uma plataforma de gestão. E profissionalizar o clube integralmente.

O presidente é a favor de remuneração para o cargo administrativo...
Como que pode... Estou lá há 10 anos, fiquei lá um ano e pouquinho remunerado. O resto todo, de graça. E não sou rico. E acho que ninguém precisa fazer isso. Temos que chegar num ponto em que todos são profissionais, remunerados. E até mesmo a presidência. Você pode ter um presidente estatutário, e um presidente executivo. Acho que vamos chegar lá. O caminho é o estádio e a gestão absolutamente profissional.

Falando em recursos, a venda de jogadores é a segunda maior fonte do Atlético. Como foi feita a questão do Emerson, principalmente nos 12,5% da Ponte?
Primeiro que ela tinha até 28 de fevereiro garantido esses 12,5% para venda, não para empréstimo. Então aquela gritaria que ela arrumou, de que não ia admitir... A gente ia fazer o que? 'Ô Ponte, na próxima vez, se você não quer que a data seja aquela, coloque outra data que a gente negocia'. Não adianta ficar nervoso, dar gritinho depois que assina o contrato. Veja o que aconteceu no caso do Otero: o time lá (Huachipato) queria receber do empréstimo (ao Al Wheda), e depois querendo falar em simulação. Tanto não houve, que o Otero será devolvido.

Mas o Atlético, quando o Grêmio cobrava pelo Victor, não contra-argumentava que ele tinha direito a 50% do repasse por empréstimo do Werley ao Santos?
Mas isso estava em contrato. O do Otero tinha a cláusula em caso de transferência definitiva, está escrito isso. O que não está acertado (empréstimo), não tem direito. Eles (Huachipato) teriam direito a 50% da venda futura do Otero, dos 5 milhões (de euros), algo que não foi feito. Eles (árabes) simplesmente renunciaram ao direito.

Mas os árabes mandaram documento falando que iria exercer a compra, certo?
Eles mandaram o documento dizendo que iriam exercer a opção. Mas o contrato dizia que eles tinham que exercer a opção e pagar até determinada data (31 de dezembro). Chegou a data e eles não pagaram. Então o Atlético comunicou ao time lá (Al Wheda) que encerrou a discussão e o jogador irá retornar ao julho.

Foi algo parecido com o Marcos Rocha e o Palmeiras, que deixou passar a data...
Exato. No caso do Ponte, realmente tinha uma negociação. O Atlético, ciente do 28 de fevereiro que ele teria de repassar um percentual, ele ofereceu ao Barcelona um empréstimo com opção de compra. Então travou-se a dicussão. O Barcelona falou que queria comprar. Diante da pretensão da Ponte, o Atlético chegou e disse que não iria pagar os 12,5%, por causa da possibilidade de empréstimo. Como chegou a decisão de venda, então falamos pro Barcelona incrementar o valor (dos 12 milhões de euros) para ser pagos à Ponte.

Então dos 12.170.000 euros, esses 170 mil euros envolvem um valor pra Ponte...
Já envolvem. Na verdade o Atlético pagou 100 mil euros. Ou pagaria a Ponte, porque ainda envolve premissas. Se ele for efetivamente transferido ao Barcelona, acertamos com a Ponte, que fará jus a um valor de mais ou menos 300 mil euros. Só uma parte o Atlético assumiu.

Só pra esclarecer. O Atlético tinha 62,5% do Emerson. Desta fatia, a Ponte tinha 12,5%, ou era do total?
Não, ela tinha 12,5% do total, em cima dos 12 milhões de euros. Mas houve uma negociação e a Ponte Preta renunciou pra fazer um acordo no contrato. Dissemos: 'considerando que nós vamos emprestá-lo e não vendê-lo, nós podemos fazer uma negociação e transformar isso em venda'. Eles ficaram de acordo, modificou-se o contrato e a Ponte passa a receber, desde cumprida determinada condições, e que da parte do Atlético é de apenas 100 mil euros, fora a parte do Barcelona, que também custeará a parte do mecanismo de solidariedade. Isso envolve estratégia, visão de mercado, tempo, paciência e atuação. Então, é essa questão que o torcedor as vezes não entende, fica nervoso mas que o dirigente tem que ter cabeça fria, calma, para conduzir as coisas. 

Roger Guedes - Atlético

A venda do Róger Guedes pelo Palmeiras teve essas nuances?
O caso do Róger Guedes foi muito parecido. Ao contrário do que as pessoas dizem que a janela (chinesa) estava fechando... O contrato tinha várias questões. Por exemplo: nós obtivemos o empréstimo e o Palmeiras tinha 25%, 75% eram do Criciúma. Mas quem tinha o direito federativo, que é diferente dos econômicos. E as pessoas precisam entender. Nem sempre quem tem a maioria dos econômicos detém o federativo. A Ponte Preta tinha 12,5% até determinada data. São contratos complexos. Voltando ao Róger Guedes, o Palmeiras tinha 25% e os direitos federativos. Quando nós fizemos a aquisição por empréstimo, o Atlético poderia exercer a preferência se o Palmeiras quisesse vender. Então veio a proposta da China e o Atlético ia comprar os 25% do Palmeiras, ficando em definitivo com os direitos federativos. O Palmeiras protestou, falou que o Atlético tinha que cobrir a oferta pelos 100%. Mas o Atlético não queria, não fizemos negócio com o Criciúma, que pra nós, continuaria os 75%. Íamos comprar do Palmeiras para ter o direito federativo. Iriamos exercer a preferência, estavam querendo vender 10 milhões de euros tudo, então iriamos comprar 25% por 2,5 milhões de euros. O Palmeiras ameaçou nos notificar sobre a proposta dos 10 milhões de euros, mas iriamos igualar só dos 25% deles, o que é estratégia jurídica. Então o Palmeiras resolveu negociar conosco. O Atlético tinha só 5% de vitrine dos 25% do Palmeiras, o que dava 130 mil dólares. Em função das vantagens contratuais que a gente tinha, o Palmeiras resolveu nos pagar 2,5 milhões de euros, mais a devolução da comissão do empréstimo. Veio o contrato de venda do Róger Guedes pro Shandong. 5 milhões de euros por empréstimo, depois de algum tempo, 4,5 milhões de euros de venda. O Criciúma só teve os 75% dos 4,5 milhões. Recebemos 2,5 milhões de euros, que é 25, 26% do total. Quando o Criciúma recebeu? 26,5%. Isso não é gracinha, é estratégia contratual, algo que muitas vezes o torcedor não entende.

E no caso do Marcos Rocha, o Palmeiras perdeu o prazo pra comprar ele por 2 milhões de euros e acabou levando por menos...
O Marcos Rocha, por incrível que parece, há um mito. Não houve proposta por ele. Houve sondagens, sondagens... Como ele ficou na reserva, perdeu mercado. O Palmeiras perdeu o prazo de comprar por 2 milhões de dólares na época, e não tinha mais mercado. É um atleta caro pro Atlético, e só tinha um ano de contrato. Como fizemos o negócio: o Sérgio vendeu por 8 milhões de reais, 1,8 milhão de dólares. Mas no lugar do Marcos Rocha veio o Emerson, que a gente vendeu por 12 milhões de euros. Se você somar Róger Guedes, Marcos Rocha e Emerson, o Atlético ganhou mais de 15 milhões. E ainda trouxe o Guga para substituir o Emerson, numa boa jogada do Sérgio. Agora, eu conversei com o Sérgio, e as coisas mudaram muito do primeiro pro segundo ano. Desde que contratamos o Levir, eu passei a participar mais ativamente dos negócios. Até então, o Sérgio tinha o Gallo, com quem eu tinha algumas restrições, e algo que falei pro Sérgio. Eu tinha restrições e as verbalizei privadamente. Quando o Sérgio decidiu que o tempo do Alexandre Gallo tinha chegado ao fim, eu já tinha proposto a participar mais, de forma mais intensa, e a primeira foi na contratação do Levir.

O senhor chegou a ir pra Curitiba se reunir com o Levir, certo? Naquele momento, o Gallo ficou e já era um indício de que tinha perdido força.
Eu fui, com o Sérgio. Já nessa hora, o Sérgio já tinha deliberado que a coisa tinha perdido espaço. Mas futebol é aprendizado. Sérgio tem 20 anos de Atlético, eu tenho 10 anos. Você aprende todos os dias, não há soluções milagrosas. Os clubes, de modo geral, dependem muito da capacidade, da consciência dos dirigentes sobre consequências contratuais, algo que no Atlético melhorou muito. E vamos ser francos, quando eu cheguei, era um caos.

Gilberto Silva

Por falar nisso, queria tocar no ponto das questões trabalhistas...
Eram as coisas mais bizarras. Outro dia vi o Flamengo alardeando que saiu do "ato trabalhista". Nós saímos em 2012, em 2012! Hoje nós temos 23 reclamatórias em curso, não só jogador. Para um clube com mais de 600 funcionários, centenas de jogadores.

O que eu lembro ainda, há Gilberto Silva, Jô, Josué, Richarlyson...
A do Jô já acabou, do Ronaldinho parcelamos e fechamos, Emerson Conceição também está encerrada. Nós temos um baixo número de reclamatória, em relação a outros clubes.

Mas há um problema vindo como avalancha nas novas reclamações que são os direitos de arena.
Isso é mudança que houve na lei em 2011. Era 20% e depois passou para 5%. Em contratos mais antigos, isso já acabou. A do Richarlyson, que era contrato antigo, já passou. Ele até cobrou horas extras que o Gilberto Silva renunciou, e ele (Richarlyson) perdeu.

A questão do Gilberto Silva, das horas extras, marcou na torcida.
Eu não tenho nada contra o Gilberto Silva. Ele renunciou às hora extras. Foi algo inacreditável,. Acho que ele foi muio infeliz fazer as postulações que fez. Ele pretendia, na verdade, receber salários, tudo, até o dia que ele voltasse a jogar futebol. Ele teve um problema de desgaste de joelho, algo natural do jogador, e estava encerrando carreira.

Mas não há um pedido de laudo médico no processo...
Ele alegou que houve um acidente. Cartilagem você não tem acidente, tem desgaste. Que tinha que ser indenizado. Ele pediu, e as pessoas não entendem, salários de todo o período até o dia que voltasse a estar apto ao futebol.

Ele já anunciou a aposentadoria. Ele não queria ser alocado ao clube?
Isso que é algo repugnante. Ele fez uma postulação de ter um ganho ilícito, eu classifico assim. Ele vai voltar à juventude? Ele não estava parando? Como faz uma postulação dessa? Além de fazer pedido de horas extras, que é bizarro, ele fez este pedido, que é o grosso. Então quando foi feito uma perícia, ele sustentava que sofreu acidente, que estava invalido para o futebol e deveria receber salários até o dia em que ele se recuperasse. Mas espera lá, ele não se declarou aposentado ao futebol? Primeiro que o problema dele é congênito.

Isso ficou atestado no laudo médico?
Houve uma perícia favorável ao Atlético. Então ele pediu uma nova, que ficou dúbio. O juiz nomeou um novo perito. Neste terceiro laudo, que é o médico do Cruzeiro (Sérgio Campolina), que chegou a conclusão que o Atlético não provocou nada. Que houve um desgaste natural de um jogador em fase de encerramento de carreira. 

Mas não pode haver conflito por ser um médico do Cruzeiro?
Na época ele não era do Cruzeiro, era do vôlei (Sada Cruzeiro). Mas era pra ser isento mesmo. Quando a juíza falou que seria o Campolina, falamos que não tinha problema algum.

Qual foi o processo trabalhista mais complicado que o senhor pegou?
Teve o caso do Ataliba, que foi um problema complicado. No valor de hoje, seria mais de R$ 40 milhões. O que aconteceu: ele celebrou contrato com o Atlético que foi fixada multa de R$ 10 milhões em caso de rescisão. Três meses antes do término, o Galo fez a rescisão e cobrou os R$ 10 milhões. E ganhou. Mas essa tese chamada de cláusula penal, caiu, porque hoje é interpretado como multa do clube. Ele teria que receber os salários restantes. Quando peguei o caso, era complicado. Tentei uma ação para anular, que é difícil. Conseguimos uma estratégia de levar a fazer um acordo. 

Mas ele topou fazer o acordo?
Depois desta ação rescisória, que algumas pessoas do Atlético diziam que não tinha chance, que teria que pagar. eu falei que tinha chance, que no mínimo íamos questionar na Justiça. Era chance de 0,01%. Mas esse 0,01% acabou funcionando e fizemos um acordo por R$ 5 milhões parcelados. Ele receberia os R$ 40 milhões, se tivesse batido. Mas fizemos a estratégia, questão de sigilo profissional. Deu certo. E foi uma economia pro Atlético de R$ 35 milhões

Algo que nos lembra a ação da WRV... O acordo foi homologado?
Foi. O processo se arrastou há muito tempo. Se fosse aplicar todo o contrato, era mais de R$ 80 milhões. Neste caso o Sérgio conduziu a discussão e fechou em R$ 40 milhões parcelados e estamos pagando. 

No acordo ficou fechado uma questão de espaço publicitário pra WRV, repasse de lucro de venda de jogador...
Isso vai ter ainda. Eles vão poder colocar no CT, etc. Desde que não sejam empresas incompatíveis com nossos patrocinadores. Não é na camisa, é em outros espaços, tem que comunicar até tal data. E quando vender o jogador, tem que repassar, mas da parte líquida. Empréstimo não tem. O Emerson, por exemplo, tem, mas da parte líquida, depois de imposto, pagar parceiros, o que sobrar, abate uma parte da dívida.

Citando a WRV, o advogado é o Carlos Alberto Arges. Ele foi testemunha do Itair Machado numa reunião sobre clássico. O Itair atacou o senhor claramente na coletiva. O senhor, acho, que nem tocou na questão.
Na época, preferi nem ficar polemizando. Porque eu gosto de polemizar num nível um pouco mais alto, em alto nível. Quando o nível é 'a bola é redonda ou quadrada', fica numa natureza difícil de se estabelecer qualquer discussão. Agora, pessoas com pouca compreensão jurídica, dão esses rompantes que no futebol se cria mais espaços. Mas evidentemente, não faço debates em nível rasteiro. Se houvesse acusação que cheirasse acusação criminal, eu adotaria medidas cabíveis. Agora falar que 'a bola é quadrada, redonda', eu fico rindo, porque realmente joguei mal. Eu joguei na base da URT e fui dispensado, e resolvi estudar. Diz que tem gente que jogou na base do Atlético, foi dispensado, e que precisa estudar. Pra ter embate jurídico de alto nível, precisa estudar. Falar que a bola é quadrada ou redonda, é bate-boca, e isso não faço. Gosto muito de polemizar, mas uma polêmica de alto nível. 

Clássico dividido é sem chance?
Pra fazer isso, temos que contar com as partes envolvidas, interesse e respeito do que ficará acordado. Então, se não há isso, não tem jeito. Tem que envolver Minas Arena, FMF, e os clubes. Se uma dessas partes ficar tergiversando sobre cumprimento de contrato, é melhor nem conversar. Quando começamos a conversar agora, o Sérgio estabeleceu um propósito. Se anteder os interesses do Atlético, vamos fazer o clássico dividido. Quando chegou o primeiro clássico, época pra se travar essa discussão, o Cruzeiro disse que não poderia dividir renda, porque o mando é deles.

O Itair argumentou que teria de respeitar o futebol, porque não se pode discutir já contando com os clássicos da fase mata-mata. 
Mas teria clássico no Brasileiro, com mando de campo de cada. Então o Cruzeiro não concordou nesse. Então não tem acordo. Vamos deixar para  o próximo? Vamos, o Sérgio disse isso. Quando chegou na reunião (na FMF), o Cruzeiro começou com os velhos chiliques. Que sempre tem ocorrido nos últimos anos, que não vai fornecer ingresso, aumentar ingresso abusivamente. Ele é obrigado a respeitar as regras. Disseram que só venderia os 10% integrais, e isso não existe. Desde a final da Copa do Brasil, temos esses embates. 

mineirão

Todo clássico no Mineirão, praticamente, acaba com discussão judicial. 
E sempre favorável a quem?

Acho que o Atlético perdeu uma...
Nenhuma! Não perdeu. Uma que nós perdemos a liminar, no fim a medida foi julgada improcedente, porque o Atlético não tinha negado os ingressos, o dinheiro (do Cruzeiro) não tinha chegado. Ao final, o Atlético não teve condenação nenhuma. Desde 2014, o Cruzeiro vem sendo condenado sucessivamente. 

Mas não é uma dor de cabeça desnecessária? O Atlético tem profissionais de alto nível, o Cruzeiro também.
Lá, quem manda, e ele mesmo disse isso, é o Itair. Então vem as coordenadas. Se não houver acordo, cumpra-se contrato e regras. Atuar civilizadamente é cumprir regras. Agora, o que vem sempre ocorrendo, é o Cruzeiro não cumprir regulamento e regras claras. E começa a dar ataques. Vamos ater ao que consta no regulamento e nos contratos, não tem problema. 

E qual seria o papel da FMF neste caso?
Federação? Seria tentar harmonizar os interesses. Mas se não há interesse... A Federação tem que tentar, eventualmente, tentar um acordo. E se não há acordo, não tem jeito. E por ora, considero encerrada as tratativas com o Cruzeiro, porque não tem seguido as regras. Por ora é essa. Se está impedido de amanhã voltar a conversar, não. Mas entendo que, por ora, vamos agir em cumprimento ao contrato.

A Caixa deve ao Atlético?
Estava devendo a última parcela, não sei se quitou. 

Questões do Atlético na Fifa... Existe o Huachipato, Sporting saiu.
Tem vários, tem do Tardelli, Quitou o do Boca. Tem da Udinese ainda. É um risco controlado. Quando chega no fim... O Atlético tenta matar antes, contratamos um advogado, que é o Breno Tanure, que fica por conta desta questões. Ele foi por muito tempo atrás advogado de outros clubes, mas saiu. Ele fica na Fifa. Ele avisa se deve decisão final e não cabe mais recurso, aí o clube tem que pagar. Porque não pode ser punido, porque é perda de pontos, proibição de inscrição de reforço nas janelas. E o Sérgio tem atuado mesmo nisso. Já quitou vários, fez novos acordos, começou a pagar. Fez o acordo com o Boca Juniors, teve com o Dínamo de Kiev, que foi quitado. Com o Spartak Moscou quitado. Ainda tem um pedaço com a Udinese, que fomos pagando. A ação começa na Fifa e depois vai pro TAS. Nesses casos, a gente não concorda com os juros que a Fifa aplica, contestamos e temos ganhado. O Sérgio está sendo eficiente, ele começa a pagar a dívida, diminuindo o problema. Quando tem a decisão final, normalmente é um prazo de 60 dias, e vai lá e quita. A pretensão é finalizar o assunto ainda este ano.

E ainda tem a questão do Junior Barranquilla pelo Chará, que não foi na Fifa ainda.
Isso, não foi. É um processo longo. São três parcelas de 1 milhão de dólares. Uma venceu, outras duas estão pra vencer. Dá pra entrar na Fifa, mas estamos conversando lá pra tentar uma composição, e acho possível. O Sérgio faz questão de efetuar parte do pagamento.

Acho que no ano passado, foi apresentado ao Conselho uma lista destas dívidas 'na Fifa'. Algo em torno de 11 milhões de euros, ainda considerando o Elias...
É algo por aí, não sei exatamente. era em torno de R$ 54 milhões. Então temos que tirar o Elias e colocar o Huachipato, que é pequeno, são 600 mil dólares. Eles cobravam 800 mil e conseguimos anular esta forma de cálculo - 200 mil dólares de juros. 

lasaro


E o outro lado da moeda? O Atlético tem muitas dívidas a receber?
Nós fizemos um ataque a isso. Desde 2010... O São Paulo nos deve sobre o Lucas Pratto, um pedaço. O Corinthians ainda deve um pedaço do Giovanni Augusto. Aí você tem o Sport Recife, outros clubes. Mas veja bem, temos muito cuidado para ingressar com ação com outros clubes. Tentamos negociar. No caso do São Paulo, é um parceiro nosso. Não tem problema nenhum. Ainda deve uma parte da venda do Pratto e ainda uma bonificação pelo título na Libertadores. Porém, o São Paulo é um bom pagador. Os clubes, de um modo geral, aperta aqui, aperta lá. Mas a questão da Fifa, é uma política do Sérgio pra quitar isso e vai dar certo.

Por isso não dá pra trazer Tardelli.
Só seria possível em circunstância em que ele reduzisse o salário compatível ao que é pago aqui. Só nesta hipótese. Temos muito jogador nosso de alto nível. E temos que ter responsabilidade. Se o Atlético tivesse um elenco frágil, o que não tem, temos um elenco muito bom pros padrões do futebol atual. Lógico que se pintar oportunidade, podemos incrementá-lo. Temos peças interessantes e dar espaço pra base também.

O senhor citou o Pratto. A venda dele até hoje gera dúvidas. 
Não vou detalhar porque não houve isso na época. Mas ele foi vendido com estabelecimento de prazos nos quais o São Paulo, necessariamente, teria que pagar 11 milhões e tantos de euros. O São Paulo pagou de cara 50%. E o restante ele teria que adquirir num prazo, o que daria obrigatoriamente 11 milhões de euros, com cumprimento de metas, 60% das partidas, algo que ele fez. Como ele foi vendido antes, o Atlético recebeu uma parcela proporcional dos 50% restantes. E teve a composição do Iago Maidana, que veio primeiro num empréstimo, mas já com a possibilidade de aquisição, algo que aconteceu.

A questão do Maidana gera dúvida. É uma figura controversa por causa do escândalo, do Monte Cristo. Ele é 100% do Atlético?
Ele tem um percentual no São Paulo, o resto é no Atlético. O São Paulo vendeu e reservou um percentual. 

Quando o São Paulo comprou ele, o Monte Cristo não tinha 40%?
Não sei como foi feito essa negociação lá. Mas para o Atlético, não existe pendência. Se desse "x" que o São Paulo mantém, ele tem que repassar pro Monte Cristo, nós não sabemos. A relação nossa com o São Paulo e com o jogador, é essa. São Paulo tem um percentual. Se o Atlético vender ele, tem que repassar uma parte só ao São Paulo. E é um jogador com mercado, passaporte italiano. É um jogador na linha de tiro dos investidores. Volta e meia volta ao mercado.

O Luan também tem mercado no Corinthians?
Ah não! Acabou, jogou já Libertadores. O Corinthians não está na Libertadores, mas tem a Sul-Americana. Acabou, não tem mais, assunto encerrado, assim como Elias no Internacional.