Há pouco mais de dois meses, o Atlético já era uma constelação de grandes jogadores, como Hulk, Arana, Nacho e tantos outros. Mas ficava sempre a sensação de que uma lacuna ainda precisava ser preenchida na defesa para tornar a equipe mais competitiva. Utilizando uma expressão de 2013, o time carecia de uma “cereja do bolo”. Sem a mesma badalação de outros reforços, Nathan Silva se tornaria o encarregado de dar uma nova cara ao sistema defensivo alvinegro.

Formado nas categorias de base do Galo, ele vinha sendo um dos destaques do Atlético-GO, antes de ser recrutado por Cuca e se transformar num gigante da última fronteira que o clube tanto necessitava. Tanto é que com a ajuda do beque, o Atlético detém a retaguarda menos vazada da Série A e não sofre gol há seis partidas na Libertadores.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, o zagueiro fala do ótimo momento vivido na equipe mineira, de sua trajetória nas categorias de base, da experiência adquirida em outros clubes, da importância da família em sua vida e dos sonhos nutridos com a camisa do Galo, uma paixão desde o berço.

Você vinha muito bem no Atlético-GO, ajudando o time a se tornar, até então, a defesa menos vazada do Brasileirão. E no início de julho foi feito o anúncio de seu retorno ao Atlético, que passou a ter a melhor defesa do campeonato. Você foi pego de surpresa àquela época sobre o interesse do Galo?
Foi um processo muito rápido. Eu estava defendendo o Atlético-GO, estava indo bem, e aí veio a ligação de que queriam meu retorno ao Atlético. Fiquei muito feliz. Sempre tive esperança de retornar para o Galo, para a casa que me formou como atleta e como homem. Saí do Atlético formado, atuei por Ponte Preta, Atlético-GO e Coritiba, e fiquei muito feliz com meu retorno. E este regresso está sendo muito importante para mim, o trabalho está sendo muito bom. O time tem tido um equilíbrio nas partidas, e espero que possamos fazer um grande segundo turno do Brasileiro e coroar a temporada com muitos títulos.

E sua reestreia pelo Atlético foi contra o Flamengo, num dos jogos mais equilibrados e difíceis do Brasileirão e que terminou com vitória do Galo. Como foi aquele primeiro momento, ainda mais num esquema de três zagueiros, e que foi o começo para a conquista da titularidade?
Não esperava jogar tão rapidamente. Claro que eu estava preparado até para o jogo contra o Cuiabá (N.R.: partida anterior, vencida pelo Galo, por 1 a 0, na Arena Pantanal). E aí veio a estreia num clássico contra o Flamengo. E pude fazer uma grande partida. Ganhei então essa sequência para disputar tantos outros grandes jogos. <CW-15>Mas aquele dia contra o Flamengo foi um divisor de águas. Eu estava muito preparado, pois vinha atuando em grandes confrontos pelo Atlético-GO, além de já tido a chance de disputar jogos internacionais e conseguido uma bagagem boa e uma experiência. Cheguei muito preparado ao Atlético. Com a confiança do Cuca e dos meus companheiros, pude desenvolver bem meu trabalho naquela estreia.

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A reestreia de Nathan Silva no Atlético foi na vitória sobre o Flamengo, no Mineirão

É inegável que o time todo é responsável pelos números positivos da defesa do Galo, a menos vazada do Brasileiro e que não sofre gol há seis jogos na Libertadores. Dentro disso, você tem seu mérito. O que você diria que mais acrescentou à equipe?
Eu acho que tem que se exaltar mesmo o mérito de todos. Todo mundo está fazendo um grande trabalho, desempenhando sua função tática e cumprindo bem o que é passado pelo professor. Desde os nossos atacantes até nosso goleiro, está todo mundo de parabéns. Espero que todos mantenham essa dedicação para continuarmos a fazer grandes jogos. E eu darei minha parcela de contribuição.

Traçando um paralelo com o time campeão da Libertadores de 2013, o atual elenco também possui grandes atletas e foi sendo construído ao longo dos anos. E assim como faltava uma peça no ataque em 2013, que foi o Tardelli, chamado de “cereja do bolo”, muitos diziam que faltava uma peça na defesa do Galo em 2021 e que o jogador que preencheu essa lacuna foi você, tido por alguns torcedores como “a cereja do bolo” em meio a tantos nomes de expressão como Nacho, Hulk e Arana.Como é receber esse carinho da torcida e ganhar essa confiança?
Fico muito feliz pelo carinho que a torcida está tendo por mim. Mas cheguei muito com os pés no chão para fazer meu trabalho, respeitando meus companheiros que também são de alto nível. Precisamos continuar a trabalhar e a ajudar a equipe da melhor forma possível. E eu procuro fazer minha parte, seja dentro ou fora de campo, sempre concentrado nas partidas. Espero contribuir sempre para que o Atlético possa continuar ganhando e em busca dos títulos.

Até porque, como você disse em algumas entrevistas coletivas, o trabalho vem sendo bem-feito, porém, é com títulos que se crava um lugar na história do clube, por isso é preciso ter pés no chão.
Com certeza. É fundamental continuar com os pés no chão e ter humildade. Somos um grupo muito trabalhador, que quer vencer e deixar seu nome na história do clube. Temos grandes jogadores, como Hulk, Nacho, Réver e tantos outros. Há atletas muito experientes e que viveram momentos assim no futebol. Então, é continuar brigando e ajudando com a camisa do Atlético.

Em 13 duelos desde seu retorno, são nove vitórias e quatro empates. E no meio desse retrospecto, há o triunfo por 2 a 1 sobre o Juventude, no dia 8 de agosto, quando você marcou seu primeiro gol pelo elenco profissional do Galo. Um gol que rendeu um post no seu Instagram com a homenagem: “Pai, esse gol foi pra você”.
Um momento marcante para mim e minha família. Minha família tem me acompanhado sempre; a família é toda atleticana, está sempre presente e torcendo. Ainda mais agora, com meu retorno ao Atlético, estão todos muito felizes. E contentes também por eu ter feito esse gol para meu pai. Foi numa virada do Atlético, acaba que pela atmosfera, não deu nem tempo de comemorar, somente abraçar os companheiros (risos). Foi muito importante para mim, minha família e meus amigos.

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Desde seu retorno ao Galo, Nathan Silva soma nove vitórias e quatro empates

Aliás, como são as resenhas com a família? Tem sempre aqueles que dão mais conselhos? Rola até uma cobrança? (risos)
Meu irmão (N.R.: Werley, que jogou no Atlético em 2007 e 2008 e de 2008 a 2012) tem sido fundamental nessa parte. Ele vem conversando comigo para eu manter os pés no chão, manter a cabeça no lugar, com muito foco e trabalho. Espero continuar assim para continuar ajudando o Atlético. Ele tem feito esse papel. Mas a família tem me cobrado também para fazer uns golzinhos (risos).

Falando em família, sempre quando é possível, numa folga ou outra, você passa um tempo em Oliveira, sua cidade natal. Qual o significado de Oliveira para você?
Representa muita coisa, é onde nasci e vivi até uma certa idade. Tenho um carinho enorme pela cidade onde moram meus pais, tios, primos e amigos. O pessoal de lá tem me acompanhado bastante, ainda mais depois do meu retorno ao clube. É uma cidade que está torcendo muito por mim, assim como torceu para meu irmão quando ele estava no Atlético. Sempre dá para passar um tempo com minha família e meus amigos, o que é muito importante.

E como é o Nathan Silva fora de campo? Quais seus hobbies?
Gosto de um churrasco ou de visitar restaurantes com minha família e conhecer lugares históricos. Gosto muito de sair para jantar com meus pais e minha família. Apesar de estarem longe, quero sempre que estejam perto.

Muita gente não se lembra dos seus primeiros jogos pelo Galo em 2017. Como foram aqueles primeiros passos no profissional? Inclusive, você é campeão mineiro daquele ano.
Sim, tive até uma participação numa partida do Mineiro daquele ano (contra a Caldense). Eu vinha de um trabalho bem-feito nas categorias de base do Atlético e também estive na Seleção Sub-20. Estava fazendo um trabalho muito bom e pude conquistar títulos na base, como a Copa do Brasil Sub-17 e Sub-20 e o Mineiro Sub-20. Aí subi para o profissional em 2017, já com alguma bagagem.

Depois, você passou por clubes como Ponte Preta, Atlético-GO e Coritiba. Algo semelhante ocorreu com outros atletas revelados pelo Galo, como Marcos Rocha e Bernard, que ganharam experiência em outros times antes de regressar ao Atlético para se tornarem destaques. E, assim como o Marcos Rocha, você voltou ao Atlético a pedido do Cuca. Como foi a experiência por esses clubes?
Uma experiência muito boa. Quando cheguei à Ponte, pude jogar um Paulista e disputar um troféu do interior. Aquilo foi me dando bagagem e casca. Depois, passei pelo Atlético-GO, e conseguimos (em 2019) o acesso à Série A. No ano passado, fui para o Coritiba e tive a chance de disputar uma Série A. Fui crescendo como atleta e pessoa. Quando voltei ao Atlético-GO, continuei trabalhando, novamente disputando uma Primeira Divisão. E agora no Galo, estou realizando um sonho.

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Contra o Juventude, veio o primeiro gol do zagueirão com a camisa do Galo

O que o Cuca mais conversa com você? Ele é mesmo um paizão como dizem?
Sem dúvida. Ele foi fundamental na minha volta, assim como o Rodrigo Caetano (diretor de futebol do Atlético). O Cuca dá toda a tranquilidade para a gente desenvolver um bom futebol. Agradeço sempre pela confiança no meu trabalho, e espero que possamos conquistar títulos juntos.

Você chegou ao Atlético em 2010, 2011, certo?
Isso, foi em 2010 na verdade.

Então lá se vão mais de dez anos desde sua chegada. Na época, você tinha de 13 para 14 anos e iniciou no time sub-14. O quanto isso tudo representa para você, essa vida no Atlético?
Representa muito para mim. Era um sonho de criança vir para o Atlético, me tornar profissional aqui. Sempre tive o sonho de vestir a camisa do Galo. No decorrer dos anos, pude desenvolver meu trabalho na base com muita dedicação, muito empenho e muito foco. Pude ganhar títulos e sentir a sensação de conviver com a torcida. Trabalhei muito para chegar a este momento. Pude vivenciar aquele clima de Libertadores no CT em 2013, e hoje estou numa semifinal de Libertadores. Isso tudo para mim é um sonho. Espero que possamos conquistar essa Libertadores e deixar nossos nomes na história do clube.

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Em 2015, Nathan Silva chegou a treinar com o time profissional alvinegro. Dois anos depois, disputou suas primeiras partidas pelo elenco principal do Atlético

Você já jogou pela Seleção Sub-20, e já tem gente endossando o coro para você atuar na Principal. Vendo tanta gente do Atlético sendo convocada, acredita que sua hora está chegando?
Espero que chegue essa oportunidade algum dia, seria um privilégio para mim representar uma nação. Estou fazendo meu trabalho no Atlético, buscando crescer. Quem sabe um dia não tenha essa oportunidade! É o sonho de todo jogador.

O que não faltam são professores para você no Galo tanto na busca por títulos quanto por um lugar na Seleção, como Réver e Alonso.
Me espelho muito nesses grandes jogadores. É um privilégio jogar ao lado do Réver, do Igor Rabello e do Alonso, de poder contribuir com eles. São atletas renomados. O Réver já foi da Seleção, o Alonso vem vivendo um grande momento na seleção do Paraguai... Espero que um dia eu tenha uma oportunidade também. Sempre com os pés no chão e trabalhando.

Falando de propostas e sondagens, quando elas aparecem, são uma forma de reconhecimento pelo seu futebol, certo?
Fico bastante tranquilo com relação a isso, sempre focado para fazer meu trabalho. Estou focado no Atlético. E a partir do momento que chegar uma proposta, a gente senta e conversa. Mas teria que ser o melhor para os dois, clube e jogador. No entanto, meu foco hoje é no Atlético.

Muito obrigado pela entrevista, Nathan. O espaço é seu para deixar uma mensagem para a Massa.
Muito obrigado pelo convite, foi um prazer falar com você. E que a Massa possa nos apoiar bastante, estar ao nosso lado, como sempre está, e fazendo festa no estádio. E, assim, que possamos conquistar muitos títulos.