Transformar o principal palco do futebol mineiro numa arena multiuso, referência no país e também na América Latina, era desafio impensável em outrora. Porém, após a reforma do Gigante da Pampulha para a Copa do Mundo de 2014, essa missão foi alcançada com êxito. Funcionária “02” do Mineirão, Ludmila Ximenes viveu tudo de perto e, uma das protagonistas nesse processo, hoje colhe os frutos do trabalho.

Gerente de comunicação e de relações institucionais, a belo-horizontina de 32 anos afirma que 9,5 milhões de pessoas já passaram pelo estádio de 2013 para cá, seja em eventos esportivos ou em shows e outras atrações.

Os problemas operacionais, como a falta d’água no primeiro grande evento – o jogo entre Cruzeiro e Atlético, em 3 de fevereiro de 2013 – se tornaram combustível para a equipe. Segundo Ludmila, inclusive, não há no país uma equipe de trabalho mais preparada para gerir arenas.

Com a Copa América, o Gigante encerra um ciclo importante, após ter recebido jogos das Eliminatórias, da Copa das Confederações, da Copa do Mundo e da Olimpíada. Além disso, foi palco de quatro das últimas cinco finais da Copa do Brasil e da decisão da Libertadores de 2013.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, Ludmila faz um balanço desses seis anos do “Novo Mineirão”, revela o empenho em receber a final única da Copa Libertadores em 2020, comenta a estratégia adotada na Copa América e muito mais.

Você trabalha no Mineirão desde 2013. De lá para cá, como tem encarado esse desafio “gigante”?

Olha, estou à frente da comunicação do Mineirão há sete anos. Sou a funcionária mais antiga do Novo Mineirão; meu número de matrícula é o “02”. O “01” era o antigo presidente. O estádio me fez profissional. Passei por momentos aqui que fizeram minha carreira. Aprendi muito. Peguei o Mineirão completamente novo, reformado e sem nenhuma referência no Brasil. Ninguém sabia como era operar uma arena padrão Fifa. A imprensa tinha uma relação muito diferente. Foi um desafio muito grande por ser mulher e não ser do esporte. Abrimos o estádio com muitos problemas operacionais. Quando olho para trás e vejo o que a gente construiu, não só reaproximando do torcedor, mas de fazer ser um negócio que funciona e que seja um contrato de referência nacional, me dá um orgulho muito grande. Muitas pessoas passaram por aqui e fizeram parte disso.

Lembra do primeiro contrato fechado?

O primeiro foi o clássico Cruzeiro x Atlético. Não sabíamos que seria inaugurado com um clássico, pois nenhuma das outras arenas fez isso. Foi uma escolha do Governo. Uma loucura! Todo mundo conhecendo o Mineirão ao mesmo tempo, junto com a torcida. Faltou água no dia. Aos poucos fomos superando tais problemas e começamos a trabalhar a marca. Hoje temos uma equipe operacional extremamente qualificada e que já passou por tudo. Os profissionais daqui têm uma experiência que ninguém das outras arenas tem. Só em 2018 foram 250 eventos, com 37 partidas de futebol.

O estádio é escolhido ou tem que se apresentar para receber os grandes jogos de seleções?

Nada é sorte, é um grande trabalho. O Brasil x Argentina (Eliminatórias para a Copa de 2018), a gente ficou muito feliz de receber. Foi um trabalho que fizemos muito próximos da Federação Mineira. Fui com o Castellar muitas vezes à CBF apresentar o Mineirão; na época ele ainda era presidente da FMF. Fomos apresentar um modelo de negócio, mostrando que aqui era viável, bem localizado... São vários pontos. O Castellar abriu infinitas portas dentro da CBF. Ele tem um mérito gigantesco nisso. Tecnicamente a gente deu conta.

E a final única da Libertadores?

Nós ainda sonhamos com a final única da Libertadores. Estive com o presidente da Conmebol e disse que a gente ainda sonhava com essa partida. A Copa América também é uma conversa nos bastidores. Tínhamos condições de lutar por muitos jogos, mas fizemos a escolha por lutar por um jogo de relevância, que é a semifinal. Nesta primeira fase, vimos a Seleção Brasileira passando por várias arenas sem passar por BH. Queremos um jogo do tamanho do Mineirão, do jeito que os mineiros merecem. O estádio está preparado para isso, e temos público para isso. Nesta fase inicial recebemos duas cabeças-de-chave (Argentina e Uruguai) e também o Paraguai, que é uma grande seleção. É um trabalho gigantesco nos bastidores. É muito difícil se destacar tendo a concorrência do eixo Rio-São Paulo.

Ludmilla
HOMENS FORTES – Ludmila ao lado de Alejandro Domínguez (Conmebol) e Thiago Januzzi (COL)

Por que não conseguimos ter a final da Libertadores deste ano em BH? Santiago acabou sendo a sede escolhida.

Olha, acho que foi por conta da Copa América ser aqui no Brasil. Fomos recebidos pelo próprio Alejandro (Domínguez) no Paraguai. Deixamos um livro com ele e mostramos o Mineirão. Na época, a própria Conmebol soltou a notícia no site sobre nossa visita. Deram luz à nossa vontade. Não creio que tenha sido uma decisão técnica.

Com a construção da Esplanada, podemos dizer que o Mineirão hoje “são dois”?

São dois, são dez, são 20 (risos). A equipe se desdobra para utilizar todo esse complexo. Nosso grande diferencial é a Esplanada. As outras arenas precisam expulsar os times para realizar grandes eventos. A gente trata o gramado como sagrado. Eventos aqui dentro são de grande relevância, e que a gente tenha certeza de que não irá prejudicar o campo. Quando prejudica, são artistas de relevância internacional, como o Paul McCartney. Nossa relação com a CBF nos permite organizar nosso calendário com mais harmonia. Equilibrar a agenda é fundamental para não prejudicar o futebol, pois ele sempre será nossa prioridade. Aproveitamos os espaços. Tem jogos de menor expressão em que a gente faz dois ou três outros eventos sem o torcedor perceber. Nenhuma outra arena consegue ter tanta versatilidade.

Ludmilla

ETERNIZADO – Há pouco mais de um mês, Ronaldinho Gaúcho eternizou sua história em BH ao colocar os pés em placa que estará exposta no Museu do Mineirão

Como gerir momentos de crise, principalmente com clubes de futebol?

Olha, fazendo o certo. Nem sempre o certo é tão bem visto pela torcida ou pelos clubes; mas não abrimos mão disso, nem estando sangrando perante à imprensa. Do ponto de vista contratual, o Mineirão é muito “caxias”. Prezamos pelos compromissos firmados no papel. Nosso compromisso com o Governo é manter o estádio sustentável.

Atlético e Cruzeiro, juntos, utilizando Independência e Mineirão, ganhariam mais dinheiro do que ganham hoje?

É difícil falar em resultados. Vai depender do plano de negócio de cada arena para isso. Seria leviano da minha parte dizer que jogos de pequeno porte deveriam acontecer somente no Independência. O que posso afirmar é que o Mineirão também consegue recebê-los, porque temos condições de abrir o estádio de forma modular. Mas é possível sim compatibilizar as duas arenas; basta sentar na mesma mesa e conversar. Estamos sempre à disposição. O Mineirão é um dos mais baratos do Brasil para um clube fazer um jogo. O único segredo é saber dimensionar a expectativa de público.

O Mineirão também abraça muitas causas sociais. Como surgem essas ideias?

É uma responsabilidade imensa gerir o Mineirão, porque ele é um gigante. Fazer negócios e trazer eventos é nossa obrigação. Porém, isso aqui é um difusor de tantas possibilidades e ideias, que podem inspirar tantas pessoas a fazer o bem, que a gente coloca na nossa rotina de trabalho pensar isso. O Mineirão é signatário do Pacto Global da ONU. Temos uma equipe, principalmente na comunicação, que não deixa de lado causas tão nobres. Temos uma preocupação enorme de sempre abordar a igualdade de gêneros, por exemplo. Também conseguimos pegar o amargor do 7 a 1 (Alemanha x Brasil) e transformá-lo num projeto bom para os brasileiros – uma das redes foi leiloada na Alemanha com a verba repassada a projetos socais brasileiros. Não fazemos essas coisas para virar notícia.

Na Copa América, o Mineirão levou 20 venezuelanos refugiados em BH para acompanhar a seleção. Como foi esse dia para vocês?

O Rivelle (assessor de imprensa) foi quem pensou esse projeto. Eu fiquei muito emocionada. Quando saí, falei para ele que minha voz estava trêmula. É emocionante ver o que essa turma estava passando e saber que a gente pôde proporcionar um dia para se sentirem mais perto de casa. Foi um privilégio estar ali e representar o povo mineiro que tem recebido tão bem essas pessoas, apesar delas conviverem com uma série de preconceitos. Por coincidência, era o Dia Mundial do Refugiado.