1993

De pé: Paulo Roberto Costa, Célio Lúcio, Rogério Lage, Robson, Paulo César Borges e Nonato; agachados: Ademir, Cleison, Edenílson, Éder e Roberto Gaúcho

Confira o capítulo do livro Rei de Copas, publicado em 2009, com o depoimento de Nonato sobre a campanha do Cruzeiro na Copa do Brasil de 1993, conquistada há 23 anos.

COPA DO BRASIL 1993

Por Nonato

O Cruzeiro tinha reconquistado seu prestígio. Depois de terríveis anos 1980, o clube voltava a mostrar sua força e ser respeitado. Mas o bicampeonato da Supercopa ainda era pouco. Faltava uma conquista nacional, pois a única tinha sido em 1966, quando Tostão e companhia, e que companhia, levantaram a Taça Brasil. O interessante é que 1993 começou com clima de ressaca, pois Renato Gaúcho tinha deixado o clube e voltado para o Rio de Janeiro, para jogar no Flamengo.

Outro polêmico atacante, que naqueles tempos já tinha debandado para o meio de campo, chegou à Toca da Raposa carregando uma enorme desconfiança. Era Éder, um dos maiores ídolos da história do rival Atlético, que já tinha marcado vários gols sobe o Cruzeiro justamente naqueles terríveis anos 1980.

Se não bastasse a ligação com o rival, Éder ainda estava em péssima forma física, como revela o lateral Nonato, um dos destaques daquele Cruzeiro: “Ele chegou a 8km por hora, enquanto a gente já corria a 13. Até que ele conseguiu chegar a 11km por hora, foi quando começou a jogar. A gente joga futvôlei juntos e falo que o título mais importante que ele tem foi vestindo a camisa do Cruzeiro. Sem dúvida nenhuma foi um cara que marcou bastante, pelo fato do nome dele e pela ligação com o Atlético”.

Éder começou a ganhar a confiança da torcida no jogo de volta da primeira fase, quando fez um gol na goleada de 5 a 0 sobre a Desportiva (ES). Já a confiança do Cruzeiro foi conquistada na fase seguinte, diante do Náutico, num jogo de volta, disputado no Mineirão, que foi memorável.

“Perdemos lá de 1 a 0 e tínhamos de ganhar aqui por dois gols de diferença. Nessa partida até fiz um gol e nós vencemos por 2 a 0, mas o problema naquele dia é que no primeiro tempo tivemos dois jogadores expulsos (Boiadeiro e Roberto Gaúcho). Na segunda expulsão, nosso presidente na época, o César Masci, invadiu o campo para discutir com o juiz. Mas a lembrança que ficou foi a atitude da torcida. Ela desceu para a geral, fez muita pressão e deu força ao time para segurar o resultado. Esse tipo de vitória, com tanta dificuldade, une muito o grupo. Ficamos fortalecidos. Aquela vitória nos credenciou a buscar o título”, revela Nonato.
 

Expressinho

Na fase seguinte, as quartas de final, o Cruzeiro encarou o São Paulo, de quem não ganhava há quase duas décadas. O time paulista, envolvido também na disputa da Copa Libertadores (naquela época os clubes podiam disputar as duas competições na mesma temporada), estava jogando a Copa do Brasil com o seu Expressinho. Os 2 a 1 na partida de ida, no Morumbi, quebraram o tabu e foram decisivos para a classificação, pois a garotada do tricolor paulista deu muito trabalho no jogo de volta, no Mineirão.

“O time reserva do São Paulo fazia frente a qualquer equipe. Era um grupo muito forte. Mas sem dúvida que foi menos complicado que pegar o time titular deles, que era maravilhoso. No jogo da volta, no Mineirão, quando eles fizeram 2 a 2, fiquei meio receoso. Você fica naquela situação de não poder tomar mais gol, pois se eles fizessem o terceiro a vaga seria deles. Além disso, tinha a preocupação de ser eliminado de uma competição tão importante como a Copa do Brasil, dentro do Mineirão, diante da torcida, para o Expressinho do São Paulo. Para a gente seria um desastre muito grande”, afirma Nonato.

As semifinais contra o Vasco começaram com um jogo de ida muito tumultuado no Mineirão com nova invasão de gramado por dirigente, mas dessa vez Eurico Miranda, do Vasco, que reclamava da posição que seu técnico, Joel Santana, teve de ficar, no meio da torcida cruzeirense, após ser expulso. Mas, na verdade, os vascaínos não tinham muito o que reclamar do paraibano José Clisaldo França, pois ele prejudicou foi o Cruzeiro, anulando dois gols legítimos, um de Roberto Gaúcho e outro Luiz Fernando.

“O jogo foi muito tumultuado. O Edenílson estreou muito bem, marcando dois gols. O ruim é que tomei o terceiro cartão amarelo. Na época em que eu jogava tinha hora que dava vontade de bater no juiz. Principalmente quando a gente sabe que o lance foi legítimo ou quando percebe que o árbitro está fazendo aquilo de propósito. Você precisa de um sangue muito frio. O gol do Luiz Fernando foi um absurdo. E no final do jogo”, revela Nonato.

Para Nonato, ficar de fora da partida de volta das semifinais foi um grande sofrimento. Hoje ele vê a situação de outra forma, pela possibilidade que a suspensão lhe deu. Dois dias antes de encarar o Vasco, no Maracanã, o Cruzeiro enfrentou a Caldense, em Poços de Caldas, pelo Campeonato Mineiro. O técnico Pinheiro optou por um time totalmente reserva. No comando do ataque estreava Ronaldo, um garoto dentuço de apenas 16 anos, que tinha uma ligação muito grande com o lateral cruzeirense.

“Você poder falar que participou da estreia do Ronaldo, o Fenômeno, é um privilégio para poucos. Até brinco com os torcedores, que vêm me perguntar se eu joguei com o Ronaldo. Digo que ele é que jogou comigo, pois naquela época era um moleque, que estava chegando do Rio e se juntando à gente. Mas fico satisfeito de ver um jogador que vi crescer se tornar um nome mundial. Me recordo que nas concentrações me pedia o carro emprestado e ficava dando voltas na rotatória da Toca I. Até que o César Masci deu um Gol para ele”, afirma Nonato.
 

capa

A capa do Hoje em Dia no dia seguinte à final destacou a falha do goleiro Eduardo, do Grêmio, no primeiro gol cruzeirense, marcado por Roberto Gaúcho

A decisão da Copa do Brasil começou com uma novidade. Um acordo entre os clubes acertou a volta do “Juiz de Embaixada”. Na partida de ida, no Olímpico, apitou o mineiro Márcio Rezende de Freitas. A volta, no Mineirão, teve arbitragem do gaúcho Renato Marsiglia.

“Com relação aos árbitros dos dois jogos da final não houve preocupação nenhuma, pois a gente sabia da competência do Márcio e do Renato e estava tranquilo. Acho até que foi uma decisão coerente e certa, pois eram os dois melhores árbitros do país na época”, revela Nonato.

“No dia da partida no Olímpico tinha chovido muito. O campo estava encharcado, pesado. Isso dificultou muito para nossa equipe. Nossa maior preocupação era o Dener, que na época estava jogando muito bem. Conseguimos segurar o empate por 0 a 0 e trazer a decisão para o Mineirão. Era um bom resultado, mas passamos a ter a obrigação de vencer para ser campeão”, recorda Nonato sobre o jogo de ida da final.

O grande problema do Cruzeiro para a partida no Mineirão era a ausência do seu meio de campo titular. Douglas e Luiz Fernando estavam machucados. Boiadeiro tinha sido convocado por Carlos Alberto Parreira, para a Seleção Brasileira, e não foi liberado.

“Esse meio de campo já vinha desde a Supercopa de 1992. Num momento tão importante você perde a sua base, o ponto chave, fica complicado. Mas os jogadores que entraram jogaram bem, tinham muito potencial e experiência, pois o Ademir e o Éder já tinham grande história no futebol. O mais jovem era o Rogério Lage, que marcava mito bem”, lembra Nonato.

Demissão

Apesar do título, o técnico Pinheiro não durou muito na Toca da Raposa. Duas semanas depois da final ele deixou o clube, numa situação que já era prevista pelos jogadores e que, segundo Nonato, até motivou o grupo naquela reta final de Copa do Brasil: “Ficamos muito sentidos com a saída do Pinheiro. Era um treinador muito amigo de nós jogadores. Aquela conquista, dedicamos muito a ele, que sofreu muita pressão. A experiência nossa, o fato do Pinheiro ser um cara muito legal, honesto. Isso fez com que a gente se mobilizasse para ganhar o título. Lógico que fica marcado na sua carreira. Mas naquele momento a gente pensava muito mais em ajudá-lo, pois a gente sabia que ia ficar marcado na história dele. Um cara já vivido, experiente. A gente sabia que mesmo conquistando o título a permanência dele seria difícil. A cobrança era mito grande. Para a torcida, imprensa, nada do que ele fazia estava certo. Mas ele tem o orgulho de poder dizer que é campeão da Copa do Brasil”.

O clube, pelo terceiro ano consecutivo, chegava a uma grande conquista. O Cruzeiro Novo era uma realidade. E Nonato viveu essa história de perto e conta o segredo do ressurgimento cruzeirense: “O clube passou a ter condições de fazer investimentos maiores. O César Masci teve coragem de fazer grandes contratações. Daí em diante, o Cruzeiro passou a crescer, conquistar títulos, se estruturou administrativamente e foi se tornando esta potência que é hoje. Logo depois veio o Zezé Perrella, a Toca II, a Toca I toda para a base. Onde ficavam Tostão, Dirceu Lopes, Joãozinho, Ronaldo, é dos garotos. Aquela década de 90 ficou marcada na história do clube. O clube soube aproveitar a sequência de títulos para se estruturar. Passou os anos 1990 ganhando pelo menos um título a cada ano. Foi a inteligência dos dirigentes, do César, do Zezé, do Alvimar, que fez o Cruzeiro virar essa potência que é hoje”.

Editoria de Arte