É mão na bola ou bola na mão? A recomendação para que os árbitros sejam mais rigorosos com esse tipo de lance está decidindo um número maior de partidas no Campeonato Brasileiro de 2015. O resultado pode ser observado no primeiro turno da competição nacional, encerrado no último domingo (16). Dos 36 pênaltis marcados, 10 tiveram origem em lances de bola na mão. Na mesma fase do torneio de 2014, o número total de penalidades foi igual, mas apenas quatro tiveram a mesma motivação.
 
Em setembro do ano passado, o uruguaio Jorge Larrionda, instrutor da Fifa, deu um curso aos árbitros brasileiros e recomendou mudanças na interpretação da regra, que foram acatadas pela CBF.
 
Em nota, a Fifa informou à reportagem que não houve mudança na regra 12, que trata sobre infrações no jogo de futebol. O texto do livro de regras da entidade diz que será marcado falta ou pênalti quando houver "toque na bola com as mãos deliberadamente". A entidade acrescentou apenas que mudanças estão sendo discutidas na International Board, entidade que define as normas do futebol.
 
Segundo o relato da CBF, Larrionda orientou que nos casos em que o atleta está com os braços abertos na área, ainda que sem a intenção de tocar a bola com a mão, o pênalti deve ser marcado. Mesmo assim, decisões diferentes em lances parecidos continuam acontecendo rodada após rodada. Para o vice-presidente de futebol do São Paulo, Ataíde Gil Guerreiro, falta padrão na avaliação dos árbitros.
 
"Isso é muito ruim para o futebol. Da forma como foram orientados, eles não conseguem aplicar a regra de maneira uniforme", disse à reportagem.
 
O técnico do Atlético, Levir Culpi, também reclamou das decisões dos árbitros, após um toque de mão na bola não ter sido marcado pênalti em partida contra o Grêmio.
 
"Houve uma iniciativa da CBF de passar transmitir para os clubes a nova maneira. Isso criou um problema a mais. Se considerar que a intenção é o que vale, fica muito mais fácil de tomar uma decisão. Agora não. Se você tiver com o braço quebrado, dobrado, sei lá, você leva pênalti, é expulso, vai para o inferno" ironiza o treinador do clube mineiro.
 
Por meio de sua assessoria, a CBF afirmou que apesar dos lances serem complexos, a avaliação da arbitragem nesse tipo de jogada é positiva. O presidente da Comissão de Arbitragem da confederação, Sérgio Corrêa, não foi localizado para comentar. Diferentemente do Brasil, nas principais ligas da Europa, Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França, não houve divulgação das federações de mudança na interpretação da regra sobre pênaltis por casos de mão na bola.
 
Polêmicas
 
Nas últimas três rodadas do Brasileiro, seis pênaltis foram marcados por mão na bola. Um dos mais polêmicos aconteceu no jogo entre Corinthians e Sport, pela 18ª rodada. O gol que deu a vitória ao alvinegro por 4 a 3 saiu após penalidade cometida por Rithely nos minutos finais. Ele tentou cortar um cruzamento dando carrinho, mas estava com o braço erguido e a bola bateu na mão.
 
No último fim de semana, em lance parecido, o zagueiro Kadu, do Atlético-PR, cometeu pênalti contra o Santos. A diferença é que o braço do atleta estava para trás e apoiado no chão. Se as marcações ainda causam polêmica após quase um ano da nova orientação, as infrações que não foram marcadas também dão o que falar. O árbitro Luiz Flávio de Oliveira, que apitou a penalidade corintiana contra o Sport, ignorou lance muito parecido que poderia ter sido dado a favor do alvinegro no clássico contra o Santos, na oitava rodada.
 
No domingo (17), mesmo com a vitória por 4 a 2 sobre o Flamengo, o Palmeiras reclamou de um pênalti não marcado após a bola bater no braço do zagueiro Samir. Em nota oficial, o clube considerou o lance "semelhante a tantos outros em que o pênalti foi assinalado."
 
O São Paulo já esteve em todos os lados da polêmica, com pênaltis marcados contra, a favor, e também infrações ignoradas. Os jogadores reclamaram muito quando o árbitro Leandro Vuaden deu apenas escanteio após a bola bater na mão de Uendel, do Corinthians, na 17ª rodada. O jogador chegou a admitir o toque, mas argumentou que o braço estava junto ao corpo.
 
Enquanto as diferentes interpretações continuam, as equipes tentam se adequar às recomendações oficiais. "Trouxemos um membro da escola de arbitragem para orientar os atletas", disse o vice-presidente do São Paulo.