O jeitinho mineiro, a paixão por vários esportes e o discurso de veterana, mesmo aos 24 anos, definem bem quem é Gabi Guimarães, ponteira do Minas e uma das principais atletas do voleibol brasileiro. De volta à cidade em que nasceu, a “pupila” de Bernardinho busca fazer história no time da Rua da Bahia e, num futuro próximo, realizar o grande sonho de atuar na Europa.

Experiente quando o assunto é convocação para a seleção brasileira, Gabi crê que a nova geração será bastante pressionada, principalmente pelos torcedores que se acostumaram com as frequentes conquistas do ciclo passado. Para ela, outras equipes já se renovaram e já desfrutam do ápice; a tupiniquim, por sua vez, ainda inicia tal caminho.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, Gabi relembra os tempos de Mackenzie, clube que a revelou, fala da experiência adquirida nos seis anos em que morou no Rio de Janeiro, diz que Bernardinho e Lavarini têm características bem parecidas e afirma que o Praia Clube segue sendo o principal adversário a ser batido na temporada.

O Minas terminou o turno na segunda colocação, com apenas uma derrota. Até onde esse time pode chegar na Superliga?

A gente tem grandes pretensões desde o início da temporada. Pelo cenário que vinha se desenhando com a equipe montada, tínhamos aspirações para alcançar grandes objetivos. Não temos pensado tão longe, estamos indo passo a passo. Temos visto que nosso caminho tem sido muito difícil; os últimos jogos não foram nada fáceis, apesar de vitórias consecutivas. Sabemos que temos muito a melhorar como time. Apesar de muita gente falar que não temos um banco tão forte, as meninas têm feito uma diferença imensa. Daqui a pouco chegam os campeonatos mais importantes que vão intercalar com a Superliga.

O Praia, atual campeão, segue dando trabalho nesta temporada. É o grande adversário a ser batido? A única derrota delas, inclusive, foi para o Minas.

Sabíamos que o Praia era o grande favorito desde o início e vem mostrando uma evolução muito rápida. Tiveram um começo de temporada não conseguindo se ajustar tão bem, principalmente pela troca de levantadora; isso atrapalha o sistema de qualquer grande time. Mas sabíamos que com a qualidade da Lloyd com o tempo isso mudaria. Tivemos uma vitória importante contra elas, que foi decidido nos detalhes. Essa rixa e rivalidade mineira vai acontecer até o final.

Como você enxerga esta rivalidade, principalmente sendo mineira?

Fico muito feliz. Fui criada aqui e ver Minas Gerais que sempre foi um cenário que revelou importantes atletas, voltar a despontar com grandes equipes é uma satisfação muito grande. Eu não imaginava voltar a jogar na minha terrinha tão cedo, não estava nos planos, mas as coisas aconteceram de uma forma surpreendente. Praia e Minas investiram muito bem; fico triste pelo Mackenzie não ter tido mais oportunidades de investimentos depois do ano que saí, mas espero que também cresça cada vez mais.

Qual o peso do vice-campeonato mundial? Acredita que o respeito que vocês ganharam sobre as adversárias cresceu? 

Não senti, assim como as meninas também não. Temos boas lembranças do mundial, mas como é uma experiência que a maioria já viveu, inclusive com a seleção, sabemos que temos trocar esta chave logo, pois as coisas conquistadas não vão nos trazer objetivos futuros. Esta temporada está muito equilibrada. Muita gente fala que somos favoritas; pelo contrário. Estamos acostumadas com esta pressão e sabemos que não é bem assim.

gabi guimaraes

Qual a importância do Bernardinho na sua carreira? Você se assustou em tê-lo como primeiro grande treinador, pela pouca idade, ou foi isso que te fez crescer?

Foi um momento muito surpreendente. Na verdade, o primeiro contato que tive com o Bernardo foi quando a gente perdeu um jogo para ele. Depois da partida ele conversou com meu pai e disse que ainda não era momento de me levar, mas que me levaria no futuro. Assim que recebi a proposta pensei que não poderia recusá-la de maneira alguma. Sem dúvida nenhuma, estes seis anos que estive no Rio foram o que formaram a Gabi. Meu crescimento e amadurecimento nesta transição de menina para mulher, apesar de ainda ser nova e sem me esquecer do meu início e de quem me ajudou por aqui, foi graças ao Bernardo e às grandes atletas com quem atuei. 

Você também demonstra habilidade com a bola nos pés. Se não fosse atleta de vôlei, poderia figurar entre as principais atletas de futebol do país?

Dizer que daria certo no tênis ou no futebol eu não posso, mas eu gosto muito. Me lembro que quando fiz a transição para o vôlei, eu ainda jogava futebol, e não tinha roupa para treinar. Eu ia de chuteira e aqueles calções largos; todo mundo ainda lembra disso e brinca comigo. Ao invés disso, ao invés de ir com as mãos, eu sempre chutava a bola. A professora ia à loucura comigo. Eu falava que era mais fácil com o pé, porque não precisava cair. Hoje em dia isso me ajuda muito dentro da quadra.

Verdade que seu cachorro se chama Nadal?

Joguei tênis minha vida inteira, desde que conseguia segurar uma raquetinha e bater bola na parede, eu já gostava muito. Meu pai jogava tênis, não profissionalmente, mas sempre disputando campeonatos amadores, e os meus dois irmãos mais velhos também. Sou apaixonada. Meu grande ídolo no esporte em geral é o Roger Federer. Eu acompanho muito e assisto todos os campeonatos de Grand Slam. Há dois anos e meio tivemos a ideia de adotar um cachorrinho e eu me perguntava que nome colocar. Aí eu pensei: ‘coloco Federer ou Nadal?’ Mas Federer não dava, né? É mais difícil de falar (risos). Também gosto muito do Nadal. Ele é uma referência para mim. Mesmo gostando muito do voleibol, eu acompanho muito o tênis, tanto o masculino quanto o feminino.

Quais seus planos de futuro? Pretende seguir no minas ou atuar na Europa mexe com você?

É um sonho que eu tenho muito grande e espero que isso aconteça em algum momento. Claro que agora não tenho pensando nisso, pois meu objetivo é aqui no Minas e espero construir uma história por aqui. Mas tenho sim este sonho desde nova e será um amadurecimento muito grande para mim. As grandes equipes e jogadoras têm atuado lá fora. Eu buscaria um clube que me desse a oportunidade de crescimento. 


Como foi a eliminação no Rio? Crê que no Japão a história poderá ser diferente? Como enxerga o atual ciclo da seleção com o Zé Roberto?

 

O Rio não está mais na cabeça. Não pode já termos superado, mas aquele sentimento amargo já passou. Todas nós tivemos um aprendizado muito grande. Sempre que as coisas dão errado, usamos aquela experiência. Seleções que já se renovaram há algum tempo estão vivendo o ápice a seleção brasileira está buscando ainda esta renovação. Perdeu jogadores por lesão, algumas jogadoras mais novas ainda buscando espaço, e não sabemos quem volta e nem que vai. Temos certeza que teremos que correr muito atrás. A pressão será cada vez maior, principalmente pela geração passada ter sido tão vencedora; os torcedores se desacostumaram a perder. Quero muito estar lá e ajudar a voltar a sermos aquela seleção brasileira respeitada.


Como é trabalhar com o Stefano Lavarini? Notou alguma diferença em relação aos métodos dos treinadores brasileiros?

Eu ficava com aquele receio de, depois de seis anos sendo treinado pelo Bernardo, trabalhar com um técnico italiano. Era uma coisa nova. Mas todo mundo falava muito bem dele. Fiquei apreensiva, óbvio, mas ele me lembra muito o Bernardo; ele é muito estudioso, tem um estilo de treinamento objetivo, e a maneira como conversa, inclusive já fala português melhor do que nós (risos), facilitou tudo. Isso fica muito visível dentro de quadra. Eu, Natália e Bruna nos adaptamos muito bem ao estilo dele. Ele só não é tão explosivo como o Bernardo. Isso tem me ajudado a amadurecer, por não ter mais alguém sempre falando no meu ouvido. Me fez saber quem é a Gabi sem o Bernardo.

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