Todo mundo já sabe a resposta, mas é impossível não formular a pergunta a Belmiro: “Por que você não pisa no escudo do Atlético pintado no chão da Cidade do Galo?”. “Se eu carrego ele no peito, não tem como pisar na instituição que me oferece tudo”, diz o massagista de 68 anos, há mais de cinco décadas no clube.

Considerado uma bandeira dentro do alvinegro, Belmiro Oliveira cimentou uma história de vida que se confunde com a da agremiação. Nesta entrevista ao Hoje em Dia, ele fala a respeito dos causos dentro do Galo, das amizades, das conquistas, das tristezas e do amor incondicional pelas listras preta e branca.

Quando e como você chegou ao Atlético? Como era aquele Belmiro que chegou garoto ao clube se comparado ao Bel de hoje?
Cheguei em setembro de 1968. Eu trabalhava em uma farmácia, queria ser farmacêutico. Ao mesmo tempo fazia enfermagem, e meu professor era o doutor Abdo Arges. Ele me falou que o Atlético estava fazendo a Vila Olímpica e perguntou se eu queria trabalhar aqui, durante o tratamento. Eu queria era jogar bola, mas na minha posição tinham craques como o Lola, então não dava para mim. Mas aceitei trabalhar aqui com o maior prazer porque minha família é atleticana, e sou atleticano. De menino, me transformei num homem dentro do Atlético.

Quando você chegou, esperava que estaria aqui até hoje? E representando tudo que você representa ao Atlético?
Sinceramente, eu não pensava nisso tudo, não. Porque a vida muda, ainda mais no futebol, em que você torce, torce, torce, para dar certo, e muitas vezes dá errado. Teve hora em que pensei que isso não era para mim, mas sempre acreditei. Aí o Atlético veio naquela fase ganhando da Seleção Brasileira, da Iugoslávia, e fiquei ainda mais entusiasmado. E um ano e meio depois fui campeão brasileiro.

Belmiro

Você foi pé quente e se tornou campeão brasileiro pouco tempo depois de ter chegado no clube. O que mais marcou naquela campanha do título de 1971?
Lembro que nós entramos sem ser favoritos. Nosso time era considerado fraco. Do nada, o pessoal fechou, e o Atlético se tornou um time certinho, com o Telê (Santana) colocando alguns meninos novos para jogar. Deu certo, e o Atlético foi campeão brasileiro.

Você trabalhou tanto com o Telê Santana quanto com o Yustrich. Como era a convivência com eles e o que você aprendeu nesse tempo?
Eles me ensinaram muita coisa. O Telê é aquele cara rigoroso, não pode fumar, não pode beber, sempre falando com os outros, e eu o ouvia. O senhor Yustrich já era mais sargentão, mas com um coração bom, um cara que brigava nas quatro linhas, mas fora delas era como a gente mesmo, se preocupava com as famílias, se estava tudo bem. O Telê já era diferente, ele não falava três vezes, eram duas vezes só e tinha que acatar aquilo ali. Hoje eu agradeço muito a Deus e a eles.

Alguns anos depois você presenciou o início da construção daquele grande time de Reinaldo e companhia. Como foi viver as alegrias e os sofrimentos daquela época?
Foram embora Dario e depois o Campos, e então vieram aquelas feras, Reinaldo, Paulo Isidoro, Ângelo, Marinho. Aquilo de 1977 não existe não, como você perde um campeonato invicto? Gostaria que um físico me explicasse. Só o Reinaldo devia ter mais gols que o São Paulo.

Como era o jogador de futebol naquela época comparando com o que você presencia hoje?
Antigamente tinha mais raiz. Se você pegasse, os jogadores tinham dez, 15 anos de Atlético. Eram mineiros mesmo. Hoje é do Brasil inteiro, de fora, bem diferente. São todos meus amigos, mas os outros eram mais chegados na gente. Cerezo, João Leite... Nelinho virou um mineiro apesar de ser de fora. Não tinha celular para lá e para cá também Era todo mundo junto.

Belmiro

Você sente que os jogadores que chegam hoje ao Atlético sabem da sua história e te respeitam por isso?
Sinto, porque às vezes os caras olham e pensam: já vi aquele senhor ali. Aí os que estão aqui há mais tempo falam: esse aí é o dono do Galo, esse tem mais de 50 anos de Atlético. Alguns falam que eram meninos e me viam na televisão. Agora, o Arana chegou e ficou me olhando, o Fábio Santos falou que eu não era bicho, que podia conversar comigo.

Você tem todos os pôsteres de títulos guardados em casa?
Não. Tenho alguns, mas eles (familiares) pegam. Minha mãe pegava, minhas irmãs levavam... Todo mundo tem.

Com tantos anos de clube, você viveu muitos momentos bons, mas também ruins. Como é para o funcionário passar pelas crises financeiras que assolaram o Atlético algumas vezes? Tem a história que o Taffarel chegou a ajudar muita gente em 1995.
Na vida, todo mundo passa dificuldades. O Atlético teve isso de atrasar, mas depois acertou. Essa foi uma época muito difícil que a gente viveu. O Taffarel foi um camarada que perguntava quantos funcionários tinha na Vila Olímpica e dava cesta básica para o pessoal.

Com toda sua história no Atlético, você acredita que vai ter um herdeiro aqui no clube?
Tinha meu neto, ele estava treinando, porém teve um problema no ligamento. Ele não quis mais mexer depois que machucou de novo em outra pelada. Agora, tem o Matheus que está vindo aí, um canhotinho de oito anos. Eu penso em vê-lo jogar. Ainda sonho. O Matheus vai dar alegria para a torcida.

Belmiro

A grande glória para a maioria dos atleticanos veio em 2013. O que te marcou naquele time que conquistou a América?
Aquele time fechou. Todo mundo fechou, e a gente sentiu isso. O Gilberto Silva falou lá em Tijuana: ‘Esse empate aqui cheira a título’. Aí minha fé dobrou, e deu no que deu, fomos campeões.

O que tinha de mais curioso naquele time?
O curioso era a chegada nos aeroportos, aquela avalanche de gente para ver o Ronaldinho, era impressionante. Qualquer lugar eram 300, 400 pessoas em cima dele. E ele naquela humildade, andando, passando ali... Ele não podia parar, se não passavam por cima dele, ia tirando fotos e andando. Aquilo ali me marcou. É claro que o Ronaldo foi duas vezes o melhor do mundo, e nas viagens com o Éder e o Reinado tinha muita gente, mas com o Ronaldinho era brincadeira. 

Você acha que a torcida do Galo ficou diferente depois das conquistas de 2013 e 2014? Está mais exigente?
Não podemos acostumar com as coisas. Depois que se ganha títulos, quando você não ganha é o pior. Antigamente lutava para ganhar alguma coisa, o pessoal já vibrava com sangue nos olhos, faca nos dentes, aquele negócio todo. E ganhou. Então, eles querem que vença o Cruzeiro, o Flamengo, tem que ser campeão sempre. E não é assim. Hoje, todo mundo quer bater o Atlético. O que correm contra o Galo é brincadeira. Antes do Ronaldinho, com o Ronaldinho e depois do Ronaldinho, o Galo é isso mesmo.

Quais são seus grandes amigos dentro do futebol?
Tem muitos, mas vou falar o Toninho (Cerezo), o Reinaldo e o próprio Éder. Esses três são amigos mesmo, de sair e ir à casa um do outro.

Como é para você entrar no estádio e ver seu rosto estampado em uma bandeira na torcida do Atlético? O que isso significa para você e sua família?
Nossa! O primeiro dia em que vi (a bandeira), meus netos foram ao jogo, e eles queriam me ligar para falar que estavam do lado da minha bandeira. E como eu ficava com o telefone dentro do vestiário? E eles choravam vendo minha bandeira. Quando vi, pensei que parecia meu rosto, e quando abriram a bandeira e li meu nome, não acreditei de jeito nenhum. Isso é uma coisa inexplicável, porque normalmente fazem isso a caras como Reinaldo, Éder, Cerezo, Donizete... Quem é o Belmiro? Mas foi uma coisa emocionante, entrei aqui no CT e fui embora para minha casa chorando. Tinha vontade que minha mãe visse, Deus a levou, mas ela viu lá de cima.

Belmiro

Qual o sonho do Belmiro no Galo?
Tenho certeza que vou ser campeão mundial aqui. Sonho em ser campeão mundial. Do Brasileiro eu já fui, Libertadores, Copa do Brasil. Agora sonho com o Mundial.

O que é o Atlético para o Belmiro?
O Atlético é inexplicável, surge das cinzas, do nada, e tudo é Atlético. Tudo o que você faz aqui vira notícia. O Galo é muito grande. Abaixo de Deus é o Atlético, não tem jeito. Para mim é tudo.

E o Belmiro para o Atlético?
Um simples funcionário. Aquele que abraça o Atlético e o tem no coração. Carrego ele no meu peito, tenho muito orgulho de estar trabalhando aqui.

Porque você não pisa naquele escudo pintado no chão aqui da Cidade do Galo?
Se eu carrego ele no peito, não tem como pisar na instituição que me oferece tudo. Acho um desrespeito muito grande eu pisar no escudo do Atlético, porque o carrego aqui (apontando para o broche que está ao lado do escudo de sua camisa).