As chuteiras e os meiões deram lugar ao sapato social; o calção e a camisa de futebol, substituídos por terno e gravata. Aos 41 anos, Ruy Bueno Neto, o Ruy Cabeção, deixou de lado as táticas do mundo da bola e se dedica diariamente para concluir o curso de direito, numa tradicional faculdade belo-horizontina.

Aposentado do esporte desde 2015, o ex-lateral de América, Cruzeiro, Botafogo, Grêmio, Fluminense e outros clubes do país sente o mesmo frio na barriga de outrora, quando dava os primeiros passos dentro das quatro linhas.

Hoje, como estagiário e sócio de uma empresa de advocacia, Ruy é visto frequentemente no Fórum da capital, fazendo com orgulho o que muitos estudantes classificam como “serviço de office boys”. Para ele, viver essa rotina é fundamental para ser um profissional qualificado no mercado de trabalho.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, o marido da Karina e pai de Luiza e Sofia relembra os dias de atleta, conta a origem do apelido (dado pela torcida cruzeirense), explica por que o Bom Senso foi extinto, fala dos próximos passos e relembra sondagens do Atlético.

Como você tem encarado o Ruy de terno e gravata?

Eu, na verdade, já não gosto muito de falar de futebol, pois ele me traz um certo desgosto e um certo sofrimento. Não porque eu não sou grato, o futebol me deu tudo na vida, mas é pelas coisas que a gente acompanha do meio. Meu novo momento está sendo difícil, porque parar de fazer aquilo que mais gostei de fazer na vida é complicado. Costumo falar para as pessoas que não existe aposentadoria para jogador de futebol. Ele apenas para. Não temos rendimento após isso e não somos beneficiados como o trabalhador comum, junto ao INSS e ao Governo. Para o atleta parar, é necessário ter uma boa estrutura. Sempre fui um investidor; dos 80% dos meus salários, 20% deixava para sobreviver, e o restante eu investia em construção civil, justamente pensando na aposentadoria. O mais difícil quando se para é administrar a própria casa. Tenho quase 20 anos de casado, tenho duas filhas, e ser obrigado a cortar algumas coisas é difícil. Sempre procurei ajudar dentro do possível alguns familiares mais próximos e tentar cortar isso é complicado.

A nova vida é um desafio?

Depois que eu parei, quase me separei tantas vezes. Essa administração interna é muito difícil. O mais complicado para mim está sendo a vida de um ser humano normal, de pai de família, que teve que adaptar o orçamento a uma nova realidade. No final da minha carreira, eu mais trabalhei do que recebi. Sigo na Justiça. Vivo muito bem, mas graças ao patrimônio que adquiri. Acabei fazendo um mal negócio (um restaurante rural em Sete Lagoas) e quase coloquei em perigo tudo aquilo que guardei. Se não tivesse um patrimônio para desfazer e repor o dinheiro, estaria passando por uma certa dificuldade. Meu desafio é esse equilíbrio financeiro.


Você se tornou uma espécie de “cigano da bola” no final da carreira, defendendo clubes pequenos. Se arrepende?

Eu não tive opção. A partir do momento que levantei a bandeira do Bom Senso, não tive muitas outras alternativas. Mesmo antes de me profissionalizar, eu sempre fui uma ameaça às diretorias, pois era estudado e esclarecido. Meu pai sempre me protegeu muito dos oportunistas do futebol, como alguns empresários e diretores. Foi depois do Fluminense que tomei outro direcionamento; larguei meus empresários e cuidei da minha propaganda, usando a internet. Eu mesmo acertava meus salários. Vi que os mercados de Séries A e B se fecharam para mim. Eu não aceitava mais, pela receita dos clubes, atleta profissional entrar em campo com salários atrasados. Tive grandes salários e terminei minha carreira com salários de R$ 20/25 mil. Para o mercado brasileiro é um bom valor. Eu era contratado por empresários da região, com ajuda da própria prefeitura, em troca de mídia e outros benefícios. 

Por que o Bom Senso acabou?

Acabou porque não apareceram novas frentes. A classe (atletas de futebol) é totalmente desunida. Tínhamos cabeças pensantes que fazia o movimento ser bem estruturado. Paulo André, eu, Willian, Alex, Juan, Gilberto Silva e Cris. Jogadores que aproveitaram tudo o que aproveitaram, mesmo sem ter completado primeiro ou segundo grau. A gente tinha um pessoal por trás com muito conhecimento acadêmico, técnico e legislativo. A única coisa que lamento é que, se eu estivesse em time grande, teria mais espaço para falar. Os meninos eram um pouco mais ponderados, e eu falava o linguajar do povo e dos jogadores.

Você não seria boicotado?

Com certeza, como eu fui. Se eu tivesse em time grande, estaria atuando até hoje.  Tentamos arrumar novos jogadores que levassem a bandeira à frente, mas são tão desunidos que a própria classe de empresários começou a miná-los, os convencendo a não aderir ao movimento. Tinham medo de não conseguir outros contratos com grandes clubes. Os atletas do Bom Senso, aos poucos, estão comendo pelas beiradas. Paulo André é homem-forte no Athletico-PR, assim como o Kelly; temos o Alex, que aos poucos vai achando seu espaço; Edu Gaspar, Gilberto Silva, Cris, Caçapa, eu e outros. Aos poucos vamos chegando. Não existe mais lugar para o "velho futebol" assim como para a "velha política".

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Qual a importância do América na sua vida?

Se eu não tivesse começado no futebol no América, talvez tivesse começado no Alecrim-RS ou no Operário-MT, com todo respeito a ambos, eu não teria me tornado jogador profissional. Desde a década de 1990, o América já tinha uma excelente estrutura para as categorias de base. Não é porque saí do clube na Justiça que não sou grato; era uma relação profissional. Lá me deram estrutura e todas as condições. A mesma estrutura que muitos gigantes começaram a ter há pouco tempo. O Cruzeiro também já tinha isso naquela época. Se não fosse isso, eu teria desistido, assim como vários amigos.

E aquele pênalti no Marques, na final do Mineiro de 1999?

Estávamos com metade do corpo fora e a outra dentro. Aconteceu o choque, mas se fosse na área contrária não seria dado; estávamos sendo campeões naquele momento. O juiz não daria pênalti se fosse contra o Atlético, naquele momento, com certeza. Saí de campo triste, porque era muito novo. Foi um divisor de águas. Tinha medo da reapresentação, mas tive muita sorte que fui abraçado por alguns jogadores e pelo Flávio Lopes. Treino para mim era jogo e jogo para mim era guerra. Com certeza muitos queriam me mandar embora e esses caras me seguraram.

"Eu vi que minha carreira estava acabando quando voltamos do Rio de Janeiro e minha filha (Luiza), chorando, me disse que não queria mais mudar de cidade. Ali eu vi que teria mais problemas do que satisfação. Sabia que não recebiria salários dos clubes que estava acertando, mas eu tinha que assinar aqueles contratos, para me garantir. Mais dias ou menos dias, eu ia conseguir receber...." 


E o apelido “Cabeção”, quando começou?

Tenho uma história bacana. Foi num jogo do Cruzeiro contra o Athletico-PR, no Independência. Ganhamos a partida, no ano de 2002, com o Luxemburgo. Estávamos mal no Campeonato Brasileiro. Três atletas deles foram expulsos. Eu estava num ótimo momento, encapetado. Fui um dos melhores em campo, e a torcida começou a gritar “Ruy Cabeção! Rui Cabeção!”. Acho que tinha uns amigos meus lá na arquibancada que puxaram o coro (risos). Minha mãe e minha esposa não gostavam muito. Pouca gente sabe que não foi no Botafogo que começou esse apelido.

O passe para o gol do Sorín, na final da Sul-Minas de 2002, te fez cair nas graças da China Azul?

Meus pais me prepararam para ser forte. Naquela semana, existia um litígio envolvendo América e Cruzeiro. Eu não treinei para aquele jogo. O Marco Aurélio, naquele jogo de xadrez entre treinadores, me pediu para não treinar, mas afirmou que eu jogaria. Sempre fui próximo ao Sorín. Era a despedida dele, num Dia das Mães. Ainda brinco com ele que até hoje não vi no futebol um lance em que os dois laterais estão dentro da área. Para mim, um jogador criado em BH, numa final de campeonato, “fazer” o gol (criação da jogada) foi um dos maiores orgulhos para meus parentes e para mim.

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Teve sondagem do Atlético?

Tive duas. A primeira na saída do América. Nesse dia, meu pai, cruzeirense, falou com meu tio “Alemão”, atleticano, que eu iria para o Atlético, para homenageá-lo. Ele sempre me levava ao estádio. Mas ele virou e falou que eu iria para o Cruzeiro, porque o clube tinha melhor administração e honrava salários e outros vencimentos. A outra oportunidade foi em 2009, quando saí do Grêmio. Quase acertei, a pedido do Celso Roth, mas acabei indo para o Fluminense.

Qual clube mais te marcou? 

Não posso escolher um, mas, por ser mineiro e receber todo esse carinho mesmo após ter parado, por gratidão, eu sou cruzeirense. Tudo o que eu tenho hoje, coisas materiais, foi a partir do Cruzeiro. O clube me deu o carimbo de jogador de time grande. Mas fico feliz que também sou muito bem tratado por atleticanos e americanos.

E qual o melhor treinador?

O melhor treinador que tive foi o Luxemburgo, em 2003. Tenho um carinho absurdo por ele, tivemos um desentendimento, mas passou. Ele só ficou afastado durante muito tempo do futebol porque é um cara complicado e muito vaidoso. Mas foi o melhor em questão de gestão, treinamento, dia a dia, e tudo. Também adoro o Levir Culpi. Ele tem um lado humano bem aflorado. Se preocupa muito com o final da carreira dos atletas. Seria um ótimo gestor hoje. Tem também o Cuca. O jeito de montar os times dele é aquele jeito moleque; mas é um cara muito desconfiado. Precisa melhorar isso. Outro que me vem à mente é o Renato Gaúcho. Ele um dia chegará à Seleção Brasileira. É carismático, foi um grande jogador, aprontou todas, mas tem os atletas nas mãos. Por fim, apesar de não ter trabalhado com ele, falo do Mano Menezes. Apesar do DNA um pouco diferente do jogo diferente, ele é um cara campeão e gestor de grupo. O torcedor precisar louvar que, neste momento conturbado fora de campo, sem ele o caldo teria entornado.