Aos 16 anos, Fernando Kreling chegou a BH para fazer parte das categorias de base do Sada/Cruzeiro, uma das mais poderosas do Brasil. Apesar da pouca idade, ele já era conhecido no meio do vôlei como grande levantador de sua geração, só que pelo apelido de Cachopa.

As expectativas criadas sobre aquele adolescente estão sendo correspondidas, talvez até de forma mais rápida do que se imaginava. Hoje, com apenas 24 anos, o jogador se tornou uma das lideranças dentro do clube celeste e está próximo de disputar os Jogos Olímpicos de Tóquio pela Seleção Brasileira. 

E a camisa amarela não é nenhuma novidade na vida do gaúcho de Caxias do Sul. Desde o tempo em que defendia a UCS, tradicional equipe do sul do país, as convocações para representar o Brasil eram constantes.

Depois de uma temporada 2017/2018 complicada, Cachopa conseguiu aproveitar as chances que teve na seleção e, com a confiança elevada, é um dos destaques do Cruzeiro nesta edição da Superliga.

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Como foi o início de sua trajetória quando jovem no Rio Grande do Sul? O fato do seu irmão ter jogado vôlei influenciou muito a seguir os passos dele?

Na verdade, meu irmão e eu jogávamos futebol, meu pai tinha uma escolinha em Caxias. Chegou um momento em que meu irmão foi fazer um teste na UCS (Universidade de Caixas do Sul) e gostou do vôlei também, até que ele chegou a jogar alguns anos de Superliga. Nesse meio tempo, eu, que sou oito anos mais novo, acompanhei esse período dele jogando na base e no profissional. Naquele momento, despertou em mim a vontade de praticar vôlei, e passei pelo mesmo processo que ele passou, desde as seletivas, na base na UCS, até aqui. Começou com ele esse caminho, e eu o segui da mesma forma.

Muitas vezes a gente vê que os levantadores eram atacantes na base e tiveram que mudar de posição pelo tamanho ou outros fatores. Por ser a posição do seu irmão, você sempre quis levantar?

Eu queria ser atacante quando comecei a jogar, mas, logo no primeiro treino, meu técnico me colocou para levantar. Já perguntei: ‘não vou atacar?’. Então o treinador me disse que eu seria o levantador, e ficou assim desde o primeiro momento. Acho que não foi por influência do meu irmão e mais por essa insistência que meu treinador teve em não me deixar atacar, mas, sim, levantar direto. Até tive algumas passagens depois como oposto na base, só que esporadicamente. Sempre fui levantador.

Depois de ter grande destaque lá no Sul, você chegou ao Cruzeiro muito jovem, com apenas 16 anos. Como foi essa adaptação dentro e fora das quadras?

Fora da quadra foi a parte mais difícil. Eu já tinha saído de casa para ir para a Seleção Brasileira, então já conhecia alguns lugares e sabia me virar com pessoas diferentes. Mas realmente foi a primeira vez que tive que fazer tudo sozinho, ir para o clube a pé, lavar roupa, lavar louça, cozinhar... Eram coisas que eu tinha de mão beijada na casa da minha família, e foi onde mais me compliquei no começo. Por outro lado, me adaptei muito rapidamente, porque Belo Horizonte é muito bacana, então em uns quatro meses eu já conhecia muitas coisas, como tudo funcionava e o que eu tinha que fazer. A galera do clube também me deu uma força bacana.

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Sendo na base ou como reserva do time principal, você viveu todos esses anos vitoriosos do clube. Imaginava como seria ser titular e um dos líderes dessa equipe?

Quando cheguei, era uma coisa muito distante. Eu era um menino que participava de algumas seleções de base. Quando cheguei aqui, tinha o William, o Vinhedo e o Salim, que eram excelentes levantadores, então eu tinha que melhorar muito e correr atrás para, quem sabe, ser como eles e tentar comandar a equipe. Até acho que as coisas aconteceram rápido demais, porque no fim do primeiro ano eu já estava como segundo levantador da equipe principal, já viajando com eles. Foi muito especial chegar num time que vinha disputando e ganhando tudo e já jogar com os melhores do país. Foi algo acima da realidade que eu esperava.

Logo na sua primeira temporada como titular, o título da Superliga não veio, e você recebeu algumas críticas pelo seu jogo. Enxerga esse período como o mais difícil que você passou, com naturalidade?

Acho que foi natural sim. Estar numa máquina grande dessas na primeira temporada tendo esse primeiro contato, já imaginava que seria bem difícil. Acho que foi ainda mais difícil do que eu esperava, mas isso me fez crescer muito como pessoa e atleta. Dentro da quadra consegui perceber muita coisa, melhorar fraquezas que eu tinha e, fora da quadra, percebi o que era importante ou não. Isso me fez evoluir muito, foi uma temporada difícil, a gente não cumpriu nossos objetivos como uma equipe no ano passado, mas isso me fez crescer. A gente não deixou de levantar alguns troféus, mas acho que a gente poderia ter ido mais longe. 

Mesmo ao final dessa temporada complicada, o Renan (Dal Zotto) confiou em você, te levando para a seleção e te colocando na maioria do tempo como titular.

Para mim foi uma surpresa. Quando saiu a convocação, eu esperava ir para Saquarema, treinar com o pessoal, achava que eles iam juntar os caras, e eu continuaria treinado, mas não viajando e jogando efetivamente. Foi um período fantástico de rodagem para mim, consegui jogar contra os melhores times do mundo, e acho dei um salto na minha carreira. Imaginava isso acontecendo mais para frente, porém como isso aconteceu, aproveitei muito, agregando coisas para minha carreira.

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Acredita que sua história nas categorias de base da seleção ajudou no momento em que foi convocado para o time adulto?

Acho que sim. Para quem chega de fora e vê como as coisas funcionam, acho que pode dar uma assustada. A gente acorda cedo, treina muito, malha muito. A rotina é exaustiva, e como passei pela base desde a seleção infantil, acho que consegui ver como tudo funcionava, o que os caras do profissional viviam também. Na época do Bernardo, ele colocava os caras para treinar 6h, então tinha uma noção de como funcionava e não esperava que fosse diferente de quando eu chegasse lá. O último ano, por todos os campeonatos que a gente disputou, foi uma das temporadas mais desgastantes, por conta de viagem, treino, jogo. Mas como já sabia como poderia ser, acho que foi um pouco mais fácil esse contato. Já estava com isso esquematizado na minha cabeça antes de chegar lá.

Principalmente no voleibol internacional, cada vez mais vemos levantadores altos, que tocam na bola lá em cima. Essa tendência te preocupou em algum momento durante sua trajetória?

Quando era mais novo, eu tinha isso na minha cabeça, principalmente em seletivas da Seleção. Apareciam uns levantadores de 2,5m, e eu falava: ‘ferrou’! Os caras vão me pedir para limpar a quadra. Mas hoje isso não me assusta tanto. Sei que o vôlei mudou bastante, hoje é um esporte muito físico, mas estou tranquilo. Influencia, porém tenho outras qualidades que posso agregar em um jogo.

Estamos a poucos meses dos Jogos Olímpicos, e você está muito bem cotado para compor o elenco que vai para Tóquio. Já tinha pensado que essa oportunidade poderia chegar tão cedo na sua carreira?

Acho que não. Não passava pela minha cabeça. Para falar a verdade, não sabia o momento que eu ia começar a jogar, que eu ia ter uma convocação, o que dirá ir para uma Olimpíada. Ainda não caiu a ficha, e tento nem pensar muito nisso. Acho que tem muita coisa para acontecer ainda até esses Jogos Olímpicos. Espero muito jogar uma Olimpíada, independentemente da idade ou da condição que estiver. Acredito que ainda há muitas etapas antes de Tóquio.

Apesar de ser um líder, você parece um cara bem tranquilo. Como é o Cachopa fora das quadras? Quais são seus hobbies?

Cara, eu jogo muito videogame, vejo bastante filme e série, mas leio pouco, deveria ler mais. É uma coisa que tenho tentado melhorar, me forçado a ler um pouco mais. Sou um cara tranquilo. Quanto mais tempo eu estiver na cama ou no sofá descansando, melhor. Tem muita coisa para fazer aqui na cidade também, e acho que poderia aproveitar mais. Gosto de conhecer restaurantes e parques, mas fico mais em casa. Hoje minha namorada mora longe também, então passo o dia conversando com ela e jogando videogame, me amarro demais nisso no meu tempo livre.

*Sob supervisão de Thiago Prata