No dia 20 de novembro de 1991, a torcida do Cruzeiro explodia de alegria. Com 3 a 0 em cima do River Plate, da Argentina, a Raposa faturava o seu primeiro título da Supercopa dos Campeões da Libertadores. Há quase 30 anos saíram dos pés do ponta-direita Mário Tilico dois gols importantíssimos na história, também naquele momento, de reconstrução do clube, após uma década de 1980 de penúria e falta de conquistas imponentes. 

cruzeiro tilico

Mário Tilico, um dos heróis daquela conquista épica, após derrota por 2 a 0 em Buenos Aires, é o entrevistado da semana do Papo em Dia.

Como é que começou sua história no Cruzeiro? 
Minha chegada ao Cruzeiro foi logo após o título brasileiro de 1991, que conquistei com o São Paulo em junho daquele ano. Na época, o Ênio Andrade pediu minha contratação no Cruzeiro, ele tinha a preferência de jogar com um atleta rápido, pelo lado do campo, e enxergou em mim essa peça. Houve um acordo entre Cruzeiro e São Paulo, aceitei ir para Belo Horizonte, e aconteceu esse acerto.

Em 1991, você foi campeão da Supercopa após aquela final memorável contra o River Plate. Foi um dos grandes momentos da sua carreira?
Realmente foi um dos momentos mais importantes da minha carreira. Tive oportunidade de jogar em grandes clubes, ganhar títulos importantes, como Campeonato Brasileiro, Paulista, Supercopa e Copa do Brasil. Enfim, o título da Supercopa foi marcante por ter sido um dos mais importantes na minha carreira.

O Boiadeiro certa vez comentou que o jogo contra o River Plate foi uma guerra na Argentina. Conta um pouco dos bastidores daquele jogo.
Jogo contra o River Plate foi muito difícil, pegado. A gente não conseguiu desenvolver o que gostaríamos individualmente, queríamos até render mais, só que era o River. Final contra equipe argentina sempre tem aquele clima de guerra e rivalidade. A gente costuma dizer que são dois campeonatos, um à parte quando joga com argentino ainda mais em final. Mas não teve nada de violência, foi só aquela pressão grande por jogar na Argentina contra um grande clube, de grande torcida. Pelo menos não tivemos ninguém expulso e aguardamos para resolver depois no Mineirão.

Você ganhou um status diferente após aquele título de Supercopa? Mais moral, fama, valorização? 
Sim, mudou o patamar. Todo jogador tem a necessidade de ganhar títulos. O jogador só é valorizado com vitórias e títulos. Aprendi isso dentro do futebol, vivo isso, aprendi com grandes treinadores. Foi assim comigo na Supercopa da Libertadores, Brasileiro, Copa do Brasil. Todos os títulos valorizam demais, temos que estar sempre em busca disso, fui muito valorizado por esse título no Cruzeiro.

O técnico Ênio Andrade pediu sua contratação, e você veio emprestado pelo São Paulo. Por que não continuou no clube em 1992?
O Ênio Andrade pediu minha contratação pelo sistema de jogo que ele adotava. Terminamos campeões dessa forma, com um ponta esquerda e outro pela direita e um jogador centralizado, que na época era o Charles. Cheguei ao clube por meio do pedido do treinador, emprestado pelo São Paulo para a disputa importante da Supercopa e do Mineiro. Naquele ano, o Estadual era invertido, no segundo semestre, e o Brasileiro era no primeiro. Fizemos a campanha maravilhosa do título, e o Cruzeiro se mostrou interessado na compra, mas na época o valor que o São Paulo pediu o clube não tinha condição de investir para me adquirir. Isso foi o que me disseram na época, que saiu no jornal. O Cruzeiro até fez uma proposta, mas que não foi aceita, aí retornei ao São Paulo.

Em 1994, você retornou, mas a passagem não foi tão boa quanto a anterior. Houve até luta contra o rebaixamento.
Retornei em uma situação totalmente diferente. Até tínhamos um grupo forte, mas isso acontece no futebol, ter grupo qualificado, unido, mas não dar liga. A campanha não foi muito boa, houve essa situação próxima do rebaixamento, mas nos salvamos. Coisas que acontecem.

O Cruzeiro vive uma reconstrução. Nos anos 1990 também houve um momento de ressurgimento. Você vê um paralelo nisso?
O Cruzeiro sempre foi grande, só que na minha época o clube não era a potência financeira que é hoje. Pode estar passando um momento difícil, mas o Cruzeiro financeiramente tinha, até pouco tempo, um poder aquisitivo completamente diferente da geração de 1990/1991/ 1992. Acho que veio mudando isso a partir de 1994,1995. O Cruzeiro cresceu muito, sempre foi grande, um clube com poder aquisitivo muito bom. É um momento difícil que está passando, mas que daqui a pouco vai mudar. O Cruzeiro é muito grande para ficar muito tempo nessa situação, tem uma torcida imensa, que realmente carrega o clube. Então, eu acredito que em um curto espaço de tempo essa situação toda vai voltar ao normal.

Você fez parte de um esquadrão no São Paulo. Qual sua definição para aquele time?
Realmente o São Paulo é um clube diferenciado, pelo menos nos anos que passei ali. Joguei lá cerca de quatro anos e, realmente, é uma potência. Graças a Deus, tive a sorte de jogar em um esquadrão, um grupo muito forte com jogadores de qualidade.

Como foi se relacionar com o Telê Santana?
Meu relacionamento com o Telê Santana foi um dos melhores. Uma vez saiu (na imprensa) uma situação de discordar uma situação do Telê, mas isso são coisas que acontecem entre profissionais, entre homens, mas nunca faltei com o respeito. Todo atleta que passou pelas mãos do Telê vão agradecer o tempo que tiveram com ele. O Telê não era apenas treinador, era amigo, pai, psicólogo, nos ajudava de todas as formas. Eu já tive grandes treinadores, mas realmente igual ao Telê, nunca tive. 

Você saiu do Náutico para o São Paulo em uma transferência milionária para a época, certo?
O Náutico me comprou do Vasco em 1987. Fui artilheiro do Náutico, fiquei um ano e meio por lá. Em 1988, o São Paulo fez a maior negociação dentro do futebol brasileiro em termos de cifras. Não tinha essa globalização de hoje, mas houve comentários muito grandes por parte da imprensa. Eu não era tão conhecido. Houve uma cobrança muito grande também. O Zico tinha sido vendido para o Japão, se não me engano, ou Udinese. E eu fui mais caro que o Zico (risos). Houve esse impacto. Foi muito dinheiro que o São Paulo investiu num jogador do Nordeste, Foi uma coisa diferenciada, acho que única naquela época. Graças a Deus consegui contornar a situação toda, fazendo o melhor e dando o retorno ao São Paulo do investimento que foi feito.

De jogador você se enveredou pela carreira de treinador. Como tem sido essa experiência?
Me preparei para parar de jogar futebol, não tenho dificuldade alguma em conviver sem jogar futebol. Mas quem trabalha nesse meio continua com essa ligação. Trabalhei muitos anos como auxiliar técnico, depois assumi como treinador, há alguns anos trabalho como treinador. Existe uma diferença muito grande de ser jogador e treinador. Não é o fato de eu ter sido jogador de futebol que estaria completamente preparado para ser técnico. Me sinto preparado, já venho trabalhando e gostando muito.

No Vasco você viu o início do Romário. Já dava pra saber que ele de fato seria um craque?
Meu início foi todo no Vasco: escolinha, infantil, juvenil, júnior e profissional. Minha safra foi ao lado do Romário. Iniciamos juntos, desde a escolinha e fomos subindo. Nossa safra tinha eu, Romário, Régis, Lira, Mazinho, uma safra muito boa. O Romário desde a escolinha já demonstrava o jogador que era, no sentido de que era diferenciado. Foi lapidando dentro das categorias de base. Era artilheiro já, fazia gol muito facilmente, como vimos ele fazendo. Tive o privilégio de jogar com esse monstro, um grande jogador, que ficou para a história, um ídolo nacional. Não tenho tanto contato com ele hoje, porque depois que chegamos ao profissional, segui meu caminho, cada um foi para um lado. Hoje nos encontramos muito pouco, mas nossa amizade ficou.