Ao longo da disputa da Série B do Campeonato Brasileiro, 606.520 atleticanos foram ao Mineirão ajudar a equipe no retorno para a elite do futebol nacional, o que resultou em uma média de 31.922 pessoas por jogo. No entanto, o torcedor mais ilustre daquela campanha não entra nas estatísticas. Isso porque ele estava dentro de campo, se tornando o artilheiro do time na competição.

Acostumado a frequentar a arquibancada junto com a Massa, o centroavante Marinho viveu, segundo ele próprio, o melhor momento de sua carreira naquele ano

Hoje, à frente de uma escolinha de futebol para crianças na cidade de Vespasiano, o ex-atacante guarda com carinho memórias de sua passagem pelo clube do coração. No momento mais delicado da história do Galo, coube a ele, torcedor alvinegro desde a infância, se tornar o grande símbolo do time que cumpriu o papel de devolver o Atlético à Série A.

Tranquilo em relação à aposentadoria, Marinho ainda tem um sonho dentro do futebol. Marcus Vinícius, filho do centroavante, atualmente defende o Ipatinga, mas se depender do pai, um dia também vestirá a camisa do Atlético.

Marinho

Como está sendo a vida do Marinho atualmente? Foi complicado largar de vez as chuteiras?
Minha aposentadoria foi um processo natural. Na verdade, só tenho que agradecer a Deus por todos os anos em que atuei. Para um atleta do interior, que não teve base, ter conquistado tudo que conquistei, os títulos pessoais e coletivos, e jogado no clube pelo qual sempre torci, já é um privilégio. Hoje, tenho uma escola de futebol, chamada Marinho Gol, com sede em Vespasiano. Ou seja, só deixei de estar dentro de campo; não tem como ficar longe do futebol. Foi um processo tranquilo, sei que tudo tem um início e um fim. Agora estou mexendo mesmo é com as crianças.

Mais de dez anos depois de ter deixado o Atlético, você ainda é muito lembrado pelo torcedor. Mesmo atuando em uma época complicada do clube, você conseguiu atingir o status de ídolo. De que forma enxerga isso?

Cheguei no Atlético em um momento difícil, naquela interrogação após a queda para a Série B. Então, tinha aquela cobrança e uma expectativa. Felizmente, consegui fazer gols e cair nas graças do torcedor. Como digo, sou torcedor também, fanático pelo Atlético. Ter virado um ídolo mesmo num momento difícil foi muito bacana. Carrego isso comigo até hoje.

Você ainda interage bastante com os torcedores nas redes sociais. Acompanha o dia a dia do clube? Sofre como torcedor?

Eu sofro demais com o Galo. E vibro, também. Sou um torcedor fanático mesmo. Sempre vou ao CT e aos jogos, porque antes de ser um atleta profissional, eu ia na arquibancada. Gosto disso, de estar no meio da torcida.

A fase dos centroavantes do Galo não é das melhores desde o ano passado. Como você vê esse momento? Às vezes bate aquela saudade de vestir a camisa 9 e balançar as redes?

É claro que todos eles têm qualidade, mas os atacantes de área do Atlético ainda não conseguiram se firmar aqui como já fizeram em outros clubes. Tenho na minha cabeça que o que eu tinha para viver eu já vivi. Agora, meu filho Marcus Vinícius também é atleta profissional; é centroavante, faz a mesma função que eu fazia. Ele esteve no Tupi no ano passado e agora está no Ipatinga, um clube por onde também atuei e fui campeão mineiro (em 2005). Então, quem sabe não seja eu, mas sim meu filho (jogar um dia no Atlético), já que é um sonho de toda a família, e dele também. Sempre dou as dicas do que vivi no futebol para que ele consiga alcançar os sonhos que tem.

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Qual foi o momento mais marcante daquela campanha do título da Série B do Brasileiro de 2006? Você fez o gol do título, mas também marcou dois gols, sendo um deles um golaço de voleio, na vitória de virada sobre o Coritiba, que confirmou, matematicamente, o acesso à Primeira Divisão. Quando você lembra daquele ano, o que vem à sua cabeça?

Aquele ano de 2006 foi, sem dúvida alguma, o melhor da minha carreira. Joguei na equipe que amo, e as coisas deram certo. O gol de voleio contra o Coritiba foi muito bonito, o gol do título foi importante, mas sem dúvida alguma o mais marcante para mim foi a primeira vez que vesti a camisa do Atlético no Mineirão. Foi em uma derrota na Copa do Brasil (2 a 0 para o Fortaleza), eu entrei nos minutos finais, e aquele foi um sonho sendo realizado. Os gols sempre são muitos importantes, mas você vestir a camisa do clube que ama e entrar no Mineirão é o momento mais marcante.

O início de Série B não foi nada fácil. Na sua visão, qual foi a grande virtude daquela equipe para engrenar? Você acha que a experiência de atletas como você, Roni, Marcinho e vários outros foi fundamental?

Nos primeiros jogos, a equipe não conseguia render, mas chegou o Levir (Culpi) com sua experiência. O grupo também era experiente e tinha alguns jovens que conseguiram ajudar bastante. O Atlético conseguiu fazer daquele grupo, que não era tão caro, uma mescla de juventude com experiência. Por isso as coisas ficaram mais fáceis. No ano inteiro, não tivemos um episódio de briga ou desentendimento, e isso ajudou muito para a gente conseguir conquistar as vitórias.

Depois de ter sido um dos grandes nomes do Atlético em um dos momentos mais difíceis do clube, você conquistou um carinho muito grande do torcedor, mas acabou tendo uma grave lesão em 2007. Como foi aquele momento para você? Acha que a trajetória no Galo poderia ter sido diferente se não se machucasse?

Infelizmente faz parte do futebol. Em 2006, tive aquela boa temporada, marcando gols, mas em 2007 sofria uma lesão séria, que me impossibilitou de atuar em vários jogos, mas são coisas do esporte. Queríamos que não existissem as lesões, mas faz parte. Isso atrapalha vários atletas, e acabou me atrapalhando naquele ano.

Depois da lesão, você teve mais uma passagem pelo Ipatinga. Qual a importância dos vários clubes do interior para sua carreira?

Todas as equipes por onde passei foram muito importantes, até mesmo porque é muito difícil para qualquer jogador chegar a um grande clube sem passar pelos times do interior. Então, sou grato a todos que me abriram as portas. Com toda certeza, sem esses clubes eu não teria conseguido chegar aos grandes.

Agora aposentado, o que você diria para um jovem que vai começar a seguir os passos de jogador? O que fazer para ser tão querido por uma torcida como a do Galo? 

O que eu falo para todos os jovens, inclusive para meu filho, é ser profissional, se cuidar. Nosso maior patrimônio é o corpo, porque dependemos dele para trabalhar. Desejo que eles corram atrás de seus sonhos, porque ser profissional no futebol é prazeroso, muitas vezes rentável. Então, peço a Deus para que cada atleta que tenta seguir esse caminho nesse esporte tão apaixonante consiga realizar seus sonhos.

Marinho