O amor pelo futebol pode transformar a vida de muitas pessoas, mesmo que fora das quatro linhas. Exemplo de sucesso neste quesito, Bruno Carneiro Nunes, o Fred do “Desimpedidos”, ganhou espaço na imprensa esportiva e, entrevistando personagens gigantes do mundo da bola, como o português Cristiano Ronaldo, provou que o canal no YouTube vai muito além do entretenimento. 

Formado pela Universidade Paulista (UNIP), Fred caiu nas graças do público (de diversas faixas etárias) e de craques da atualidade e também do passado. Falcão, eleito o melhor jogador de futsal do mundo em várias oportunidades, é um deles. Nas peladas com famosos (atletas e artistas), o palmeirense se acostumou a roubar a cena.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, o sucessor de Felipe Andreoli no “Desimpedidos” e um dos “pupilos” de Kaká – o ex-meia é um dos fundadores e investidores do canal – conta como foi a chegada, em 2015, fala sobre o apelido, avalia a cena de humor no país, lamenta o patrulhamento dos oportunistas da internet e fala do seu relacionamento com o público mineiro. Voltar ao Estado, inclusive, está nos planos dele, para matar a saudade da “Terra do Uai, Sô” e também para produzir novos conteúdos para o “Desimpedidos”.

Qual a participação e a importância de Kaká na sua trajetória?

O Kaká tem uma importância gigantesca, tanto na minha trajetória quanto na do “Desimpedidos”. Ele foi um dos embaixadores e investidores. Ele concedeu ao “Desimpedidos” o direito de falar que era um canal do Kaká, e isso abriu muitas portas no mundo esportivo. Se não fosse ele, eu não chegaria onde estou chegando e pretendo chegar. Tive a felicidade de virar amigo dele. Em qualquer país do mundo que passe, ele é reconhecido. Numa certa época, o Kaká me ensinou uma coisa que jamais vou esquecer: ele me disse que, quando um fã vem tirar uma foto com a gente, é só mais um, com todo respeito. Mas, para o fã, é um momento único. Vou estar com eles durante 10, 15 segundos, e tenho que tratá-los como se aquele momento fosse mesmo o mais especial da vida e torná-lo inesquecível.

Como avalia a cena atual do humor no país? Encontra alguma restrição? Tem algum receio, principalmente falando sobre futebol?

Cara, não é só o humor que está mudando no país e no mundo. A gente tem que tomar mais cuidado atualmente, pois tinha coisa que eu falava lá no início que hoje não posso falar de forma alguma. É óbvio que a luta pelas minorias e uma série de outras coisas têm que ser impostas, e eu inclusive abraço algumas delas. Mas o que me incomoda é que tem gente que fica esperando uma mínima oportunidade para criar polêmicas numa declaração. Conheço uma série de youtubers que passaram por isso, uma frase tirada do contexto que foi usada contra a pessoa. 

Você chegou ao “Desimpedidos” para substituir o Andreoli. Logo recebeu o apelido de Fred, pela semelhança com o camisa 9 do Cruzeiro. Pegou por que você não gostou? (risos)

Eles falaram que eu parecia com o Fred na minha primeira aparição, antes de ser contratado. Quando cheguei ao “Desimpedidos”, no lugar do Andreoli, não tive muita escolha. Mas sou um cara que, sinceramente, sempre coloquei apelido em todas as pessoas da minha vida. Tenho uma séria dificuldade de decorar nomes, então quando eu esqueço, invento um nome para a pessoa. O feitiço caiu contra o feiticeiro. Acredito que as coisas acontecem quando têm que acontecer. Talvez, se eu fosse o Bruno do “Desimpedidos”, não tivesse dado tão certo quanto o Fred. Acho um nome simpático, curto e com enorme potencial para cair no gosto das pessoas. E, sobre a segunda pergunta, sim, já falei com ele (o atacante) sobre o apelido após o título da Copa do Brasil de 2018, do Cruzeiro, dentro do gramado da Arena Corinthians. Ele foi bem simpático comigo e deu risada porque ele disse que é mais bonito do que eu. 

kaka e fred

Acredita que os canais independentes serão mais fortes que as mídias tradicionais? Sente-se parte desse pioneirismo?

É difícil dizer isso. Acho que tem espaço para todo mundo. A gente jamais imaginava que existiria YouTube ou Netflix há 15, 20 anos, e hoje são plataformas que os públicos infantil, infanto-juvenil, jovem e adulto consomem muito. A profissão youtuber não existia há dez anos, ninguém fazia um canal naquela época com grandes ambições. É difícil projetar que a TV vai morrer daqui a dez anos e que o YouTube vai imperar no mundo midiático. Eu me mantenho muito ligado e quero estar preparado para o que vir a acontecer. 

Das suas grandes entrevistas, a que mais mexeu com você foi com o Cristiano Ronaldo. Consegue traduzir aquele momento em palavras? Acredita que, depois daquele dia, seu nome ganhou mais força ainda no país?

Cara, sem dúvida alguma, o grande momento para os fãs (ou não) do “Desimpedidos”, foi a entrevista com o Cristiano Ronaldo. É óbvio que não aconteceu assim do nada, que eu cheguei no “Desimpedidos” e já fui fazer uma entrevista com ele. Teve um grande trabalho, meu e de toda a equipe, até chegar a essa entrevista. Não vou ser leviano em dizer que não mudou minha vida, porque realmente hoje, se não me engano, o vídeo está com 15 milhões de views, muito acima da audiência que estamos habituados. Muita gente que não conhecia o canal passou a conhecer. Meu nome ganhou uma força muito maior, porque não é algo tão comum um jornalista entrevistar o CR7. Eu me sinto muito honrado por ter conseguido isso, muita gente ali enxergou que não sou apenas um youtuber que faz entretenimento, mas que sou um profissional que sabe como conduzir uma entrevista. Fui com essa pressão, pessoal, querendo alcançar um público maior. E acho que conseguimos com êxito. Muita gente me ajudou a criar aquele roteiro, tentando imaginar as respostas dele. Não foi um divisor de águas na minha carreira, mas algumas oportunidades cresceram, e o trabalho do “Desimpedidos” passou a ser levado mais a sério como um todo.

E aquele “ao vivaço” do Luan (Grêmio) provocando o Thiago Neves. Você procurou o meia do Cruzeiro para uma réplica? Acha que isso faz falta no futebol, devido ao politicamente correto?

Cara, foi totalmente inesperada aquela reação do Luan. Teve gente que me perguntou se a gente tinha combinado antes, mas muito pelo contrário. É difícil eu me envolver em polêmica. Eu queria ser muito mais “marrento”, na linha do Romário, mas prefiro jogar pelo empate, para não correr risco por conta da maldade das pessoas. A gente tinha feito uma campanha para que ele fosse o melhor jogador da Libertadores de 2017. O pessoal do Cruzeiro havia provocado ele. Assim que acabou o jogo, ele me chamou. Achei que ele agradeceria aos fãs por terem votado nele para receber o troféu, mas não foi (risos). Ele mandou um “chupa, Thiago Neves!” e me intimou a postar no Instagram. Falei que colocaria nos stories, mas não, ele insistiu que fosse no feed. Como não é do meu perfil causar tretas, quando tive a oportunidade de encontrar o Thiago, eu peguei e fiz questão de oferecê-lo uma réplica, e ele foi muito inteligente na resposta. Desde que isso seja feito de maneira descontraída, é muito válido e faz falta sim.

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Pelo sucesso do canal, vocês já foram procurados por grandes atletas/agentes oferecendo entrevistas? Se sim, é a maior prova de que a “loucura” deu certo?

Já fomos, sim, procurados por jogadores e agentes, mas não vejo problema nisso. É reconhecimento pelo nosso trabalho. A gente capengava para conseguir entrevistas, mas hoje em dia são os próprios assessores, clubes e jogadores que pedem para gravar vídeo com a gente. Tive a felicidade de virar amigo de grande parte deles, e eles me perguntam quando eu vou dar uma moral e gravar o desafio com eles. Estão invertendo as coisas. Estava voltando de Recife agora, e os jogadores do sub-23 do Sport pediram para tirar foto comigo. Cara, isso é muito louco. Antes era eu quem pedia, e ainda peço para meus grandes ídolos, mas os que estão sendo revelados hoje, já acompanham nosso canal. Nos próximos anos, a chance de estourar um novo ídolo, um novo Neymar, e ele ser fã do “Desimpedidos” é muito grande, e eu estou ansioso para que isso aconteça (risos).

Como você vê a repercussão do seu trabalho em Minas Gerais? Vê alguma das torcidas (Atlético ou Cruzeiro) com maior engajamento? Aliás, é feito algum tipo de estudo sobre esta audiência nos estados?

O carinho que a gente tem do povo mineiro é sensacional. Foi a minha primeira viagem nacional feita pelo “Desimpedidos”; acho que a primeira de todas. Fomos a uma faculdade dar uma palestra e, em cinco meses de canal, já senti um carinho gigantesco e vi que minha vida estava mudando, que estava acontecendo alguma coisa diferente. Eu já trabalhava para que tudo isso acontecesse, mas aconteceu mais rápido daquilo que imaginava. A gente não tem esse parâmetro de qual torcida é maior, se a do Atlético ou a do Cruzeiro, porque sei que a briga aí é grande, mas todas as vezes que a gente esteve com ambas as torcidas, fomos bem tratados e recebidos pelas torcidas e pelos clubes. Estou com saudades daí e espero voltar muito em breve, para sentir o carinho do povo e também para gravar mais conteúdo. 

No jogo do Ronaldinho, no Mineirão, você foi mais ovacionado que muitos ex-atletas de renome. Quais as lembranças daquele dia de atuação no Gigante do Pampulha?

Daquele jogo no Mineirão, eu tenho a camisa guardada até hoje. Tem uma coisa que eu não contei: naquele dia, eu tinha uma camisa reservada com o número 21. O Falcão ia jogar com a 12 no meu time. Ele não pôde ir. No vestiário, eu mandei uma mensagem perguntando a ele se eu poderia usar a dele. Ele respondeu que seria uma honra e uma homenagem para ele. O que é mais louco é que tinha um outro cara relacionado, convidado, que estava com uma camiseta que não tinha o nome dele, e o nome dele era Fred. Dei minha camiseta para ele e usei a do Falcão.

E como foi marcar um gol no Mineirão?

É um dos estádios mais históricos do Brasil. Foi um momento muito especial, que vou levar para o resto da minha vida. Se não me engano, tenho dois ou três quadros na minha casa. Tem até um desenho daquele momento. Fiz um gol e fui comemorar com o Ronaldinho sambando, ideia de um amigo meu (o fotógrafo Pedro Vale). Tenho esta imagem muito viva na memória. Inclusive, estava revendo este gol nestes dias, e queria pedir desculpas ao Rafael Moura (risos). Foi ele que me deu o passe, com o gol aberto, e ao invés de abraçá-lo, eu fui abraçar o Ronaldinho Gaúcho. Fui muito traíra, mas eu estava muito nesta ansiedade de comemorar com o R10.

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E qual seria a seleção "Fred + 10"?

Bom, sobre a minha seleção foi difícil. Mas vamos lá. No gol já começou a treta, porque o goleiro que mais me deu alegrias foi o Marcos sem sombra de dúvidas, também pela representatividade do 12, mas eu iria de Rogério Ceni, porque eu acho que se ele tivesse feito tudo que ele fez pelo São Paulo em um clube europeu, ele seria ovacionado pelo mundo inteiro, porque o cara pegava muito, pegava pênalti, era um baita líder e ainda fez mais de cem gols. Um goleiro fazer cem gols pra mim é algo que nunca mais vai existir parecido, foi algo totalmente fora da curva, então eu iria de Rogério Ceni.

Na lateral direita eu vou de Cafu, por conta da questão do tetra e do penta, que são muito vivas na minha vida e principalmente porque o Cafu foi um cara que sempre me recebeu muito bem pessoalmente. Então difícil não escolher o nosso querido Cafu, o capitão do penta.

Na zaga foi de Sérgio Ramos, que apesar de ser zagueiro, uma posição feita para destruir jogadas, ele consegue construir muitas coisas e ser protagonista, então já me deu muitas alegrias também. Vou colocar também o Cannavaro, que por mais que não tenha um futebol muito vistoso, por conta de ele ter sido o único defensor a ter sido eleito o melhor jogador do mundo, acho algo que tem que ser louvado.

Na lateral esquerda eu queria colocar o Marcelo, mas não vou colocar ele porque eu acho que ele tem que ser meia-atacante, camisa 10, ambidestro, habilidoso, rabisqueiro, então eu vou colocar o Roberto Carlos, porque achei ele um lateral muito decisivo, tanto no Real Madrid, como principalmente na Seleção Brasileira. Toda falta que tinha para ele cobrar era uma expectativa, todo mundo na escola na minha época tentava imitar, fazer a curva dele, mas obviamente ninguém conseguia fazer e também ele acabou virando muito meu amigo pessoalmente.

Na volância vai ser engraçado. Felipe Melo, sem sombra de dúvidas o melhor volante que eu já vi jogar na minha vida. Óbvio que tem um pouco de clubismo, mas se tivesse que escolher um volante para estar do meu lado na pelada, eu queria muito ele, porque acho ele um baita líder, um cara que joga com uma virilidade, se impõe perante aos adversários. Queria que ele fosse capitão do meu time de pelada e do meu time de coração para sempre. Outro volante eu vou colocar o Marcos Assunção, que como batia falta, já temos Rogério Ceni e Roberto Carlos, mas vamos de Marcos Assunção, que era o cara mais decisivo, a gente sabia que ele precisava de duas, três faltas no jogo para guardar pelo menos uma.

Na meia vou colocar eu, obviamente, juntamente com Ronaldinho Gaúcho, porque tem que pensar no pós-jogo também e ele ia cuidar muito bem disso. No ataque vou colocar Cristiano Ronaldo e Romário. Vou deixar o Ronaldo de fora com uma tristeza, porque o Ronaldo fez uma coisa muito louca na minha vida, porque ele fez eu torcer para o Corinthians depois de muito tempo, porque meu pai é corintiano, então era muito legal assistir os jogos do Corinthians junto com o meu pai, mas eu assisti muito mais o Romário jogando e sempre me espelhei muito nele, sempre gostei de fazer gol igual o Romário. O Cristiano Ronaldo é Hors Concours, pra mim um dos maiores jogadores da história em números, desempenho, fundamentos. Esse é o meu time e o técnico vai ser o Felipão: Rogério Ceni; Cafu, Sergio Ramos, Cannavaro e Roberto Carlos; Felipe Melo, Marcos Assunção, Fred e Ronaldinho Gaúcho; Cristiano Ronaldo e Romário.

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