Na crença popular, eles escolheram a pior profissão do mundo. Ainda mais num país em que quase 200 milhões de cidadãos se acham no direito de chamá-los de burro. Porém, os técnicos têm o seu dia, e a data especial é comemorada nesta terça-feira. Mesmo que, nos bastidores do futebol pentacampeão, não existam tantos motivos assim para celebrar.

A classe luta por uma relação digna com os empregadores no país: os clubes. Em agosto passado, um movimento criou a Federação Brasileira de Treinadores de Futebol (FBTF). A entidade defenderá os direitos dos profissionais, que, muitas vezes, trabalham sem contrato e por curtos períodos.

“Entendo que o técnico precisa do emprego. Mas aí não assina o vínculo. Joga seis vezes, ganha duas, perde três, empata uma e acaba demitido. Vai reclamar, e o clube manda que procure os seus direitos na Justiça. Isso tem que acabar”, declara Carlos Alberto Parreira, coordenador da Seleção Brasileira, incentivador da FBTF, em 2013.

Vágner Mancini, primeiro vice-presidente da Federação, inclusive, confirmou que a entidade enviou um projeto-lei a Brasília, exigindo a “moralização da atividade” no Brasil, em dezembro. A proposta de maior impacto é a que impõe que um comandante dispensado pelo time receba até o final do contrato. Em contrapartida, ficaria impedido de exercer a função em outra equipe de divisão igual.

Tal cenário já acontece nos grandes centros da Europa. A FBTF espera agora pela avaliação do ministro do Trabalho, Manoel Dias. Depois, se reúne com CBF e clubes para um debate.

Lei 8.650

A Associação Brasileira de Treinadores de Futebol (ABTF) acabou em segundo plano com a lançamento da FBTF. No entanto, também segue na briga por melhores condições da classe. O diretor sócio-cultural da ABTF, Fernando Pires, insiste na atualização da Lei Federal 8.650, que regulamentou a profissão em 1993, no governo do então presidente Itamar Franco.

Pires tratou de aprimorar o texto, com base na experiência como técnico em Portugal. O ex-atleta reivindica o registro dos contratos dos treinadores pela CBF. “Antes de trazer outro profissional, o time necessitará pagar tudo o que deve ao anterior ou fazer um acordo. Não existe moralidade na relação de hoje”, garante. Ele destaca que o clube demite um comandante num dia e, em 24 horas, um novo já sentou no banco de reservas.

Em abril, Pires levou um abaixo-assinado, contendo as questões da Lei 8.650, ao ministro do Esporte, Aldo Rebelo. O documento possui assinatura de cerca de 500 técnicos, entre eles Luiz Felipe Scolari. A ABTF aguarda o posicionamento do governo.  

Rotatividade no Brasileirão impressiona

A crise no banco de reservas do futebol nacional vem de algumas temporadas. Tornou-se notória em novembro de 2012, quando o técnico Mano Menezes foi demitido da Seleção Brasileira, e a CBF correu atrás de um novo “professor”. Não existia um nome sequer que caísse no gosto da maioria dos torcedores, com a esperada Copa do Mundo de 2014 batendo à porta.

Chegou-se a cogitar o espanhol Josep Guardiola, atual treinador do time alemão Bayern de Munique. A entidade, então, apostou na “batida” dupla Luiz Felipe Scolari e Carlos Alberto Parreira, vencedora dos dois últimos títulos mundiais canarinhos. Ambos não mostram serviço há um bom tempo.

A rotatividade dos profissionais nos clubes também impressiona. Foram 24 mudanças de comando na Série A do Campeonato Brasileiro do ano passado. Dos 20 times participantes, 14, ou seja, 70% deles, optaram por trocar o técnico durante a disputa. Na Segundona, os números são mais impressionantes. A Série B registrou 35 demissões, quase uma por rodada.

Vida cigana

Toda essa instabilidade intensificou a “vida cigana” dos treinadores. Não surpreende vê-los colecionar quatro, cinco trabalhos a cada temporada. Alguns se sujeitam a contratos de poucos meses, autênticos “quebra-galhos”. Vale lembrar que, no Brasileirão, Dorival Júnior, após sair do Vasco, aceitou treinar o Fluminense por menos de um mês.

Um fato inusitado chamou a atenção em outubro passado. Pintado foi anunciado novo técnico do São Caetano, que “penava” na rabeira da Série B. O detalhe é que ele havia acertado com o Botafogo-SP para a disputa do Paulistão de 2014.

Pintado era comandante de dois times. Só que o ex-jogador não chegou a sentar no banco do Botafogo, pois aceitou proposta do Cruz Azul e rumou ao México, onde é assistente. Em dez anos de carreira, coleciona quase 30 trabalhos como técnico.

Times mineiros fogem à regra

Nada que se compare à longevidade de Alex Ferguson, que comandou o Manchester United por 26 anos, mas os clubes mineiros vêm fugindo à regra da ciranda em que se transformou a profissão de técnico de futebol. E os resultados dessa mudança de postura são claros. Atlético e Cruzeiro colheram bons frutos na temporada passada.

Enquanto os alvinegros comemoraram o título inédito da Copa Libertadores, os celestes levantaram, pela terceira vez, a taça de campeão brasileiro. Dos três times de Belo Horizonte, apenas o Galo mudou de comandante para 2014. Mesmo assim, porque Cuca recebeu uma proposta irrecusável do futebol chinês, e a diretoria foi obrigada a agir rápido, fechando com Paulo Autuori.

Apesar da saída, o ex-técnico do Atlético pode se considerar um recordista. Esteve à frente da equipe por mais de dois anos, perdendo apenas para Tite, que ficou três no Corinthians.

Cuca chegou em agosto de 2011, com a missão de livrar o alvinegro do segundo rebaixamento à Série B, e se despediu após a disputa do Mundial, em dezembro, no Marrocos, com dois títulos de campeão mineiro e um da Libertadores. Foram 153 jogos, com 80 vitórias, 34 empates e 39 derrotas.

Após o título do Brasileirão, a diretoria do Cruzeiro tratou logo de renovar o contrato do técnico Marcelo Oliveira, que está na segunda temporada no comando do time. Com o mesmo elenco que levantou a taça para trabalhar e cada vez mais adaptado à Toca, o treinador é a aposta da China Azul no retorno da equipe à Copa Libertadores.

O América segue a mesma linha. Tendo como principal objetivo voltar à elite do futebol nacional, a diretoria do Coelho também manteve o técnico Silas no comando.