Até que ponto a relação entre clubes de futebol e torcidas organizadas é viável e necessária? Segundo o senador Zezé Perrella (PDT), ex-presidente do Cruzeiro, é obrigatória a existência harmônica entre as duas partes, pois uma precisa da outra. Ele, inclusive, colocou essa relação em prática nos 11 anos em que presidiu o atual bicampeão brasileiro.

“Amigo” da Máfia Azul, Perrella revela que antes mesmo de ser eleito presidente do clube, em 1994, já mantinha vínculo com a maior torcida organizada do clube, inclusive com ajuda de custos que tirava do próprio bolso.

“Era um valor pequeno, que eu contribuía para ter mais proximidade e melhor diálogo”, conta o ex-cartola. “Nas dificuldades é que você precisa desse pessoal. Quando está bom não precisa”, acrescenta, se referindo aos momentos em que os resultados negativos aconteciam nas quatro linhas.

Sobre a gravação de uma conversa entre um membro da facção e o atual presidente do Cruzeiro, Gilvan de Pinho, que acabou se espalhando pelas redes sociais, Perrella diz que achou a atitude uma descortesia descomunal. “O pessoal da Máfia Azul foi de uma irresponsabilidade tremenda. Era um assunto pessoal”, opina o senador.

De acordo com o clube, parte da torcida está se aproveitando do mau momento vivido pelo time no Brasileirão – 14º colocado – para retaliar a diretoria. Isso porque Gilvan cortou uma série de benefícios das organizadas.

Fim das mordomias

Durante o diálogo com o torcedor, o atual presidente da Raposa disse que não forneceria ingressos, não daria dinheiro e nem pagaria sala para a organizada se instalar, dando a entender que o fato ocorria em outras administrações.

Questionado sobre a declaração do sucessor, Zezé Perrella admitiu que ajudava a organizada na época em que presidia o clube. “Aluguel da Máfia Azul eu paguei para eles durante um tempo, mas nunca com dinheiro do Cruzeiro”, conta o ex-presidente.

Sobre os ingressos cedidos, Perrella explica que eram cortesias enviadas pelos clubes mandantes – cerca de 50 – e repassadas para os torcedores, sem comprometer as finanças do Cruzeiro. Sobre as viagens, o senador diz que pagava do próprio bolso, como forma de ajudar a organizada. “Eu gastava aproximadamente R$ 1.000 com isso. Tirava da minha empresa e era um dinheiro que jamais me fez falta”, conta Perrella.

Com o mandato de senador em vigência até o fim de 2018, o parlamentar não descarta retornar ao Cruzeiro. No entanto, ele diz não ter isso como prioridade.

Ponto a ponto

Quik: “Isso tudo (benefícios para a torcida organizada) foi retirado e não foi conversado. Reúne com a diretoria da Máfia Azul e vamos conversar”

Gilvan: “Vocês têm de ajudar o clube. Não é o clube que tem de ajudar vocês”

Quik: “Temos 600 sócios. Isso não é ajudar? Quanto a gente dá para o clube?”

Gilvan: “Vocês têm 600 sócios porque eu não dei ingressos”

Quik: “Onde o clube está, a Máfia Azul está. A gente vai ao jogo na quarta-feira. A gente vai ao jogo no domingo. Entendeu, Gilvan? Nós temos de rever isso”

Gilvan: “Não vou dar ingresso, não vou dar dinheiro, nem vou pagar sala”

Quik: “Você não pode conversar, não?”

Gilvan: “Posso”

Quik: “Por que não podemos marcar uma reunião?”

Gilvan: “Depois você liga para o Fernando Souza e ele marca com vocês”