A dez dias de completar um ano das denúncias do programa Fantástico sobre a gestão Wagner Pires de Sá no Cruzeiro, o Hoje em Dia entrou em contato com o Ministério Público de Minas Gerais para saber como anda a investigação.

Entre as respostas do promotor Daniel de Sá Rodrigues, da 11ª Promotoria de Justiça de Combate ao Crime Organizado, deixa evidente que a legislação limita a ação não só do órgão, mas também da Polícia Civil.

Polícia Civil deixa a sede do Cruzeiro carregando malotes com documentosMinistério Público e Polícia Civil investigam a gestão de Wagner Pires de Sá desde o ano passado e prometem uma posição nos próximos dias

Assim, será fundamental a ação da novo diretoria do Conselho Deliberativo do Cruzeiro, e da sua Comissão de Ética, para que os responsáveis pelas irregularidades paguem por parte do prejuízo dado ao clube, principalmente com a restituição de valores desviados ou gastos de forma irregular.

Confira as respostas de Daniel de Sá Rodrigues, em entrevista feita por meio virtual por causa do isolamento social.

Em 26 de maio do ano passado, o programa Fantástico, da Rede Globo, fez uma série de denúncias contra a diretoria do Cruzeiro. Desde quando o Ministério Público investiga essas denúncias e o que já foi apurado de fato?

O MPMG instaurou PIC para apuração dos fatos no início de junho, a partir do recebimento de denúncia anônima, incluindo os fatos trazidos na reportagem do Fantástico e outros. Além disso, há um inquérito Policial conduzido pela Delegacia Especializada de Fraudes, de BH, que conta com acompanhamento do MPMG. Até mesmo pela natureza dos fatos envolvidos e de algumas informações existentes nos procedimentos, eles são sigilosos, não sendo possível passar informações detalhadas sobre o que já foi apurado.

Pela legislação, os clubes de futebol têm uma série de particularidades que impedem uma ação, por exemplo, do MP, mas já foram encontrados indícios de crimes nas investigações feitas até agora?

Como dito, os procedimentos são sigilosos, mas é possível afirmar que as investigações estão evoluindo e bem avançadas em alguns pontos, sendo certo que o foco, tanto do MPMG como da Polícia Civil, é a busca de provas de fatos que possam caracterizar a prática de crimes. Muitos fatos trazidos na representação, em notícias publicadas e outras fontes, embora possam caracterizar irregularidades estatutárias e, até mesmo, ilícitos civis, fogem ao escopo dessas apurações do MPMG e PCMG.

Com certeza, a pandemia pelo novo coronavírus atrapalha o processo, mas há uma previsão de término da investigação?

Algumas ações, realmente, ficaram prejudicadas pela pandemia, pela impossibilidade ou dificuldade de realização de diligências, como oitivas de pessoas ou envolvidos. Porém, muitas análises estão sendo feitas a partir de material já existente (por exemplo, documentos e informações obtidas em computadores apreendidos) e os resultados tem sido satisfatórios. Não há como prever um término para a investigação, mas trabalha-se com a ideia de uma conclusão parcial das investigações, em relação fatos em que a prova já seja satisfatória, prosseguindo-se em relação a outros fatos. Pela dimensão dos fatos em apuração, a investigação deverá ser fracionada em "fases".

O Conselho Gestor que comanda o clube neste momento auxiliou a investigação? A participação deles foi importante? O clube terá eleições dia 21 de maio. O comprometimento do novo presidente com as investigações é importante no processo? Caso isso não ocorra, ele pode ser dificultado?

O Conselho Gestor se apresentou ao MPMG e à Polícia Civil, assim que assumiu a direção do clube e se comprometeu a auxiliar no que fosse possível. Muitos documentos e informações pendentes foram passados pelo Conselho Gestor, tendo contribuído com as investigações. Como o Cruzeiro foi, ao que consta, vítima de crimes (pelo menos é isso que vem sendo investigado), é importante que a entidade contribua com as investigações, no que lhe for demandado, mas isso ficará a juízo de seu Presidente e demais órgãos da estrutura interna do Clube, com as competências e responsabilidades previstas em seu estatuto e demais normas internas.