A Série A começa neste sábado (9). E Cruzeiro e Atlético, assim como já tinha acontecido no ano passado, iniciam suas participações na competição cumprindo penas de perda de mando de campo impostas pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). Os rivais mineiros não são exceção, pois os números mostram que a violência está aumentando nos estádios brasileiros nos últimos três anos.

Numa análise das últimas dez edições do Brasileiro, em 2005 aconteceu o auge das punições, com 23 jogos sendo disputados com portões fechados ou a 100 quilômetros da cidade do clube mandante. O número caiu a partir de 2006, mas experimenta um crescimento considerável de 2012 em diante, até chegar a 18 partidas no ano passado.

“Esse levantamento está mostrando o efeito pedagógico da pena. Ela não é só para punir, mas também para educar. Nos anos posteriores às punições mais rigorosas, a infração diminui. No decorrer do tempo, vai caindo no esquecimento e o torcedor volta a ter ações violentas dentro do estádio”, analisa Roberto Vasconcelos, desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais e que foi auditor do STJD até 2013.

Para Vasconcelos, a saída é se trabalhar com tolerância zero para que a violência possa diminuir.

“Defendo um tratamento rigoroso. A CBF deveria realizar convênio com as policias militares de todo o Brasil para que no final das partidas todas as ocorrências sejam anexadas à súmula, permitindo que aconteça um julgamento administrativo também por essas ocorrências, quando cabível. É um sistema de tolerância zero. A partir daí, exatamente por causa da função pedagógica da pena, a tendência será por redução”, afirma.

O ex-auditor do STJD defende, ainda, mais rigor com os torcedores violentos. “Uma punição mais séria ao baderneiro seria também uma maneira de se coibir a violência. Aquilo do torcedor se apresentar na delegacia ou afixar o nome dele na porta do estádio chega a ser ridículo. São necessárias punições mais rigorosas”.

“Já defendi na tribuna do STJD o direito regressivo do clube contra, não se pode tratar como torcedores, mas bandidos. É preciso se agilizar a cobrança pelas agremiações do prejuízo provocado pela violência” Roberto Vasconcelos - Desembargador do TJ/MG e ex-auditor do STJD


Com nove punições em apenas quatro anos, Cruzeiro defende rigor maior com baderneiros

Num momento em que os grandes clubes brasileiros apostam nos sócios para aumentar a receita, a perda de mando de campo aparece como um problema ainda maior.

Para Marcone Barbosa, diretor de marketing do Cruzeiro, segundo clube que mais pagou punições na Série A nas últimas dez edições do torneio, é preciso se punir com mais rigor os torcedores causadores de violência nos estádios.

“A raiz do problema é a educação, mas a solução passa por punição. Estão punindo o clube, mas precisam punir é o motivador do problema, o torcedor que tem mau comportamento. O impedimento de ir aos jogos quase ninguém cumpre. É para inglês ver. A punição precisa ser mais severa, inclusive financeira, individualizada”, garante o dirigente.

Prejuízo

Domingo, o Cruzeiro inicia sua caminhada na Série A “recebendo” o Corinthians na Arena Pantanal, em Cuiabá, a 1,5 mil quilômetros de Belo Horizonte.

O clube cumpre punição pelos incidentes no clássico contra o Atlético, no returno da Série A do ano passado. A situação vai gerar um duplo prejuízo, pois o Cruzeiro perde arrecadação, e os 16 mil sócios que pagam mensalidades para ter entrada garantida nos jogos do clube ficam prejudicados.

“ Nos clássicos pelo Brasileiro, no Mineirão, a bilheteria dificilmente é inferior a R$ 1,5 milhão, com o clube faturando 60 a 70% desse valor. As punições interferem também no sócio que tem acesso garantido aos jogos. Ele não perde o direito, mas é punido junto com o clube”.

Desde 2011, o Cruzeiro sempre foi punido pelo STJD por incidentes em clássicos contra o Atlético. Para Marcone, a sensação de impunidade provoca até um fogo amigo por parte de organizadas insatisfeitas com a postura da diretoria do clube.

“Nos últimos anos, a maior parte dos nossos problemas foram frutos de ações das organizadas. Quando existe a sensação de que o clube que é punido, muitas vezes, o torcedor da organizada provoca o fogo amigo. E o Cruzeiro já foi vítima disso, pelo menos, em duas oportunidades”, revela o diretor.