Mineira, nascida em Timóteo, no Vale do Aço, 44 anos, e uma história de vida que faz valer a máxima “justiça tarda, mas não falha”. Atleta a partir dos 13 anos, quando corria descalça e se apaixonou pelo esporte nas aulas de educação física, a hoje aposentada Lucimar Moura marcou seu nome na história do atletismo brasileiro.

Recordista sul-americana nas provas de 100m, 200, e 4x100m, a timotense, que atualmente reside em Ipatinga, se tornou a primeira mulher mineira a se tornar medalhista olímpica numa modalidade individual. Este feito, inclusive, curiosamente foi motivo de dor de cabeça para ela durante quase uma década.

Eliminada ainda na fase qualificatória nos Jogos de Athenas, em 2004, Lucimar brilhou na edição seguinte do evento esportivo mais badalado do planeta.  Em Pequim 2008, ela participou do revezamento 4x100m livres ao lado de Rosemar Coelho Neto, Thaissa Presti e Rosangela Santos. Ficando a apenas 0,10 segundos do bronze olímpico, elas voltaram para o Brasil com o honroso quarto lugar.

Contudo, anos depois, descobriu-se que as russas, que haviam levado o ouro, correram após ingerir substâncias proibidas. Com o doping, a medalha de bronze foi finalmente dada às brasileiras.

Quando recebeu a notícia da oficialização do Comitê Olímpico Internacional (COI), Lucimar estava em casa assistindo uma prova de atletismo dos Jogos Rio 2016. Ao lado da filha Anna Júlia, de oito anos, ela chorou, ligou para familiares e amigos, e, finalmente, pôde se sentir medalhista olímpica.

Nesta entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, a ex-atleta conta como recebeu a notícia da medalha em Pequim, fala da frustração por não ter subido ao pódio no Estádio Nacional Ninho de Pássaros, comenta a realidade do atletismo no Brasil, projeta a criação de um projeto social nas escolas e pede ao Governo que não corte a verba destinada aos atletas de alto rendimento.

Você é a primeira mineira a conquistar uma medalha olímpica em modalidades individuais. Algum ressentimento por não conseguir viver o momento no Estádio Olímpico de Pequim, com pódio e cerimônia ou o que pesa é o resultado?

Quando eu entrei para o atletismo, com 13/14 anos, estava passando na televisão a Olimpíada de Seul, em 1988. Foi quando o Joaquim (Cruz) ganhou e saiu correndo com a bandeira do Brasil na mão. Desde pequenininha achei bonito aquilo e comecei a sonhar em ser atleta e também subir no pódio. Meu ressentimento é de não ter subido no pódio dentro do Estádio Ninho de Pássaro. Só isso mesmo.

Foram mais de 20 anos competindo em alto nível, saindo da Usipa para ganhar o mundo. Faltou alguma coisa ou, olhando para trás, a trajetória é motivo de orgulho?
A minha trajetória me dá muito orgulho, até pelo amor que eu tenho pelo atletismo. Passei por todas as dificuldades que todo atleta passa, como falta de patrocínio, de não ter uma pista sintética para treinar, e outras. Passei por todo sacrifício que o atleta precisa passar até para dar valor. 

E a Anna Júlia vai seguir os passos da mãe?

Ela já está com oito anos. Quando falo em correr ela até chora (risos). Por enquanto, ela só faz natação e ginástica. Está até competindo. Como não sei nadar, eu quis que ela aprendesse. Por ela me ver receber a medalha, ela acha que eu só ganhava. Quando falo com ela para correr com outras crianças, ela chora e fala que vai perder porque não é boa. Eu explico para ela que quando era criança também perdia. Não vou ficar forçando; tem que partir dela.

Minas Gerais tem tradição de velocistas desde Esmeralda de Jesus, passando por você, e também no paralímpico, com Ádria e Terezinha Guilhermina. Acredita que teremos novas campeãs em um futuro próximo? Temos projetos de revelação de talentos capazes de identificá-las?

Olha, eu espero que sim. A UFMG tem feito um bom trabalho em Belo Horizonte, desenvolvendo novos atletas. Espero mesmo que saiam grandes talentos de Minas Gerais, não só do atletismo, mas também em outras modalidades.

lucimar moura

Ao longo de sua trajetória no esporte, com participação em Pan-Americanos, Jogos Olímpicos e Mundiais, você acredita que a situação dos atletas brasileiros de elite melhorou ou a luta ainda é ingrata? No último Mundial a Rosângela Santos precisou se tornar motorista de aplicativo nos Estados Unidos para seguir treinando. Não é sacrifício demais?

Depois que a gente para, começa a ver as dificuldades de maneira melhor. Vendo as condições que os atletas tem hoje, podemos dizer que melhorou bastante em relação ao passado. Porém, com esta crise econômica do país, estão acabando com as bolsas e com o incentivo. Os atletas vão passar por dificuldades para conseguir bons resultados.

Como vê a decisão do novo governo federal de acabar com o Ministério do Esporte? E a decisão de clubes tradicionais como Cruzeiro e BM&F (que você defendeu) de suspender ou diminuir o investimento no atletismo?

É triste demais ver isso. É lamentável, pois o esporte só faz o bem para a gente. É qualidade de vida, é quem tira as pessoas das ruas e forma bons seres humanos. Que os outros Ministérios possam olhar para o esporte, para gerar novos atletas e clubes. Tudo o que eu tenho hoje é graças ao esporte; minha casa, ajudei minha família, comprei meu carro, conheci meu marido por causa do esporte...

O que separa o Brasil hoje das potências das provas de velocidade, como Jamaica e Estados Unidos? É só material humano ou a estrutura também pesa?

É o material humano. A Jamaica é o berço da velocidade. No Brasil estamos tendo grandes velocistas, como a Rosângela, a Ana Cláudia, o Derik e outros. A estrutura de treinamentos também é muito boa. Não posso deixar de citar o grande treinador que é o Nakaya (Katsuhico). Ele faz um grande trabalho. O problema mais é a genética. Treinamos duro e isso não podemos deixar de falar. Ralamos bastante. 

Você está montando um projeto social em Ipatinga. Está quase saindo do papel?

Eu já encaminhei todos os papéis para o advogado. Como eu comecei minha vida no esporte dentro da escola, nas aulas de educação física, pensei em fazer um projeto social para mostrar a importância da inserção do esporte neste meio. Graças a Deus, eu corria bem, mas sabia brincar de vôlei, de futebol, basquete, peteca... Naquela época não tínhamos celular, então nos dedicávamos nas aulas de educação física. Quero que, a partir disso, sejam descobertos novos talentos.

lucimar