Ser contratado com a garantia de realizar um jogo (contra o Botafogo) e assinar vínculo de apenas quatro meses foi o desafio aceito pelo goleiro Wilson, reforço de emergência do Atlético. Aos 35 anos, o arqueiro quer deixar legado no clube alvinegro e, dentro ou fora de campo, ficar marcado na memória do torcedor. Para ele, defender o Galo é a realização de um sonho profissional.

Sem o titular Victor, que se recupera de uma tendinite no joelho, Wilson chegou à Cidade do Galo para ser reserva imediato de Cleiton, de 22 anos, que, para ele, é uma joia a ser bem lapidada pelo Atlético. 

Com Michael e Uilson também no estaleiro, o ídolo dos torcedores de Figueirense e Coritiba tem a oportunidade de comprovar sua importância mesmo quando não figurar entre os 11 de Rodrigo Santana. Na semifinal da Sul-Americana, inclusive, ele estará entre os suplentes e, ao que tudo indica, fará o papel de “braço-direito” do substituto do “Santo”.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, Wilson conta como foi o rápido processo que selou sua chegada ao Atlético, fala do pedido do presidente do Coxa para que ele retorne em 2020, conta que a esposa e as duas filhas estão prestes a se mudar para Belo Horizonte, revela o desejo de seguir em Minas e comenta como é ser o quarto goleiro da história do futebol brasileiro que mais vezes balançou a rede. Ao todo, ele marcou 13 tentos. 

Como tem sido a sua adaptação à nova casa?

Felizmente, está sendo bem tranquilo. Foi tudo muito rápido desde a minha chegada até a estreia, mas fui muito bem recebido aqui no clube, por um grupo muito bom de se trabalhar. Estou muito feliz de estar aqui no Galo, de ter esta oportunidade. Enquanto eu estiver aqui, vou tentar fazer meu melhor por esta camisa.
 

Da procura do Atlético ao acerto, como se deu todo o processo?

Quando apareceu o Atlético, foi uma coisa que motivou a vir. Eu já tive outras oportunidades de ir para clubes de primeira divisão, de fora do país, mas nenhuma que me motivou a sair do Coritiba. Sempre falei que para me fazer sair do Coritiba, teria que ser alguma coisa muito boa, que me chamasse atenção. Por tudo que eu vivi no Coxa, pelo carinho do torcedor, mas com o Atlético foi diferente, foi uma coisa que me motivou bastante, tive vontade de vir. Tive que conversar muito com o presidente do Coritiba, que não queria me liberar. No final, acabou dando tudo certo e consegui essa liberação para poder vir para o Atlético.

Você, mesmo na reserva do Muralha, deixou o Coritiba como ídolo. Foi o clube que você mais se identificou na carreira?

No Figueirense eu também tive bastante desta identificação. Eu sou o goleiro que mais vestiu a camisa na história clube, foram 331 jogos. Os torcedores também têm um carinho muito grande por mim. No Coritiba também, lá é diferente. O torcedor tem um carinho enorme por mim.
 

Por que você se tornou ídolo nestes clubes? Qual o diferencial do Wilson?

Acredito que quando o torcedor vê o jogador dentro de campo se dedicando sempre, respeitando a camisa do clube, sendo correto, o torcedor gosta. Ele se identifica com aquele cara que dá o seu máximo, não desiste nunca, independentemente das dificuldades, não se esconde nos momentos mais difíceis. Eu procuro ser um atleta profissional, dedicado, no dia a dia e nos jogos. Por onde passei, felizmente, eu tive esse carinho e reconhecimento do torcedor. Como eu falei quando cheguei aqui, independentemente do tempo de contrato, vou fazer o meu melhor para ter o carinho do torcedor e dos profissionais que trabalham aqui no Atlético.

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Um contrato tão curto e uma saída tão rápida são coisas inéditas na sua carreira? E como foi estrear pelo Atlético de forma tão imediata?

Foi inédito sim. Nunca tinha acontecido isso antes, até por eu não ser um atleta que muda muito de clube. Sempre aonde eu passo, tenho um tempo bom de trabalho. Mas, o Atlético foi atrás de um goleiro experiente por conta de uma necessidade de momento. Acho que minha experiência fez a adaptação ser mais tranquila, fez com que a gente não sinta fazer uma estreia dessa maneira, sem conhecer muitos jogadores. Eu estava bem confiante, tranquilo, acostumado jogar o Brasileirão. Na base da conversa, a gente conseguiu superar as dificuldades. Claro que não foi a estreia que eu queria, com uma vitória, mas acho que pude ter boas ações dentro da partida e pude ajudar nosso grupo.

A família ainda não veio para BH, mas virá ainda. Minha esposa veio no início dessa semana só para ver a escola da minha filha, mas já voltou. No final desta semana ou no início da próxima  já estarão vindo para cá.
 

Acompanhou o desempenho do Cleiton pela Seleção Olímpica? O que tem a dizer sobre ele?

Vi os lances dos últimos dois jogos (Cleiton na Seleção). Está muito bem, seguro, fazendo boas defesas, com personalidade. O Cleiton é um a joia que o Atlético tem, um goleiro que, com certeza, vai dar bons frutos para o clube.
 

O Cleiton, além da segurança com as mãos, mostrou ser um goleiro que sabe jogar com os pés. É um diferencial no futebol moderno?

Hoje em dia faz muita diferença jogar com os pés, faz demais. Vemos os clubes trabalhando muito isso, contratando goleiros por ter essa qualidade de sair jogando com os pés, porque muitos treinadores gostam de sair jogando dessa forma desde a defesa. O goleiro, hoje em dia, faz parte da construção das jogadas. Isso está sendo cada vez mais importante para os goleiros que querem buscar espaço nos clubes.
 

Você tem mais de 10 gols na carreira e é o quarto goleiro da história do futebol brasileiro que mais balançou a rede. Como isso começou? Se orgulha do feito?

É bacana, é um diferencial (marcar gols). É uma coisa que aconteceu naturalmente, sem forçar. Comecei a bater pênaltis em momentos que minha equipe estava perdendo algumas penalidades e, por ter essa qualidade, foi tendo oportunidades. Principalmente agora no Coritiba, que eu me tornei o cobrador oficial de pênaltis, então é bem legal ter esses números. É lógico que essa não é minha prioridade, tenho que preocupar principalmente em defender, que é minha primeira função. Mas sempre que posso colaborar nesse sentido, estou trabalhando para poder ajudar.
 

Quando começou no mundo da bola, quem eram suas referências?

Primeiro o Taffarel, né? Não tem como um goleiro brasileiro não lembrar dele. Em 1994 foi quando eu comecei a jogar futsal, na Copa do Mundo, então eu via o Taffarel. Depois foi o Júlio César, no Flamengo, que foi onde eu cresci, fiz minha base, e tive a oportunidade de no profissional. Tinha eu, Júlio César, Diego, Getúlio Vargas e Lomba. O Júlio foi um cara que me ajudou bastante nessa iniciação, que me espelhei, um cara de uma qualidade formidável e fez por merecer tudo que conquistou na carreira dele.
 

O que você classifica como o mais importante para, aos 35 anos, ser tão maduro?

Cara, desde o meu início eu passei por situações que eu acho que colaboraram muito para esse amadurecimento, essa tranquilidade. Com 10 anos de idade, quando eu comecei a jogar futsal no Rio de Janeiro, foi em uma associação, que era uma espécie de segunda divisão. Já no meio do ano, fui chamado para ir jogar no Fluminense, que já era um clube de Federação. Quando eu cheguei no Fluminense, um clube grande, já tinha um goleiro com mais experiência, mas logo o treinador já me colocou para jogar. O outro goleiro era considerado o melhor do Rio de Janeiro na nossa categoria, e isso conturbou bastante o ambiente, muitos pais se revoltaram com o treinador. Então, com dez anos de idade, ver sair briga com treinador, na arquibancada, e eu saber que era por minha causa, com 10 anos de idade, acho que foi uma coisa que contribuiu bastante para eu amadurecer. Depois, nas categorias de base e no profissional, é lógico que passamos por momentos difíceis, tomamos gols que não são normais de tomar. Tudo isso contribui para o nosso crescimento e maturidade para seguir a carreira.
 

E o rótulo de "vovô", pela idade?

No futebol tratam a gente como mais velho, mais perto de encerrar (a carreira). Mas eu não me sinto assim, estou muito bem, cada ano que passa melhor fisicamente. O meu percentual de gordura atual é menor do que o que eu tinha quando era da base. Então a gente se cuida, trabalha bastante para, hoje em dia, com todo o suporte, suplementação, trabalhos preventivos cada dia se prolongue mais a carreira. Sinto que tenho muita lenha para queimar ainda.
 

Qual seu maior sonho aos 35? 

Cara, um dos maiores sonhos era chegar em um clube da grandeza do Galo, por exemplo. Eu passei por grandes clubes, mas o Galo, pela estrutura que tem, investimento, é mais um sonho que eu estou realizando, além de atuar com grandes jogadores. O sonho que eu tenho hoje em dia é fazer sempre o meu melhor, prolongar minha carreira, dar o melhor para as minhas filhas. Hoje, tenho uma de quatro anos, que acompanha um pouco mais, a Alice, e uma de cinco meses, que é a Laura. Esperar ela crescer um pouco mais par poder acompanhar também um pouco do pai, um pouco da carreira, do que o pai trabalha, para passar tudo isso para elas, que todo esse esforço é muito para elas e para a minha esposa.
 

Como acha que sua família vai se adaptar a Belo Horizonte e a mudança de vida? Principalmente pelo pouco tempo de contrato...

Minha filha de quatro anos eu já preocupei bastante, pela mudança, escola, tudo. Quando eu conversei com ela pela primeira vez, e expliquei “olha filha, você vai ter que sair da escola, parar de ver os amiguinhos e ir para outra escola, outro lugar”, ela se animou. Achei que ela ia ficar triste, mas ela falou “Que legal papai, não tem problema, eu faço novos amiguinhos lá”. Então, ela está muito animada, bem ansiosa para vir para cá. Ela gostou da parte do frio, porque eu falei com ela que aqui não faz tanto frio igual em Curitiba e ela gostou, porque disse que não gosta de usar casaco. Espero que seja bem tranquilo para elas, principalmente na escola, que é delicada para a criança.
 

Apesar de ter assinado por apenas quatro meses com o Atlético, você alimenta a esperança de seguir no clube em 2020?

Se eu disse que não tenho esse pensamento eu estou mentindo, né? É claro que eu venho sim pensando em aproveitar as oportunidades da melhor maneira, fazer o meu melhor, para ser reconhecido e, quem sabe, prorrogar o contrato. Seria muito bacana, mas isso a gente vai conquistando no dia a dia. Sei que vim por uma situação complicada de lesão de goleiros. O Atlético tem grandes jogadores da posição, um ídolo da torcida como o Victor, um cara de Seleção Brasileira como o Cleiton, o Uilson é um campeão olímpico, então o clube está muito bem servido. Mas a gente nunca sabe o dia de amanhã, o que pode acontecer, fazer sempre o meu melhor. Se não der, tenho mais um ano de contrato lá, como eu falei, a conversa com o presidente para me liberar não foi fácil e ele já falou “ano que vem você está de volta”. O próprio torcedor fala que está me esperando ano que vem. Se não acontecer, eu tenho mais um ano de contrato lá e a vida segue.
 

Você se referiu ao Atlético como Galo. Foi seguindo o conselho de alguém?

Já sabia, né? Sou um cara que acompanha muito o futebol, estou sempre assistindo, vendo, olhando, e já tinha esta ideia, sempre vejo todo mundo falando. Sabia que é uma coisa que o torcedor gosta e todos costumam falar. O Atlético é conhecido como Galo mesmo por isso que eu falei, foi uma coisa natural, nada que ninguém tenha me falado para conquistar a torcida.
 

Deixe um recado para a Massa.

Só dizer para o torcedor atleticano que eu estou aqui para fazer o meu melhor. Sou um cara dedicado, profissional, que vou trabalhar firme no dia a dia, nos jogos, para fazer o meu melhor para o Atlético. O cara que o torcedor pode ter certeza que vai fazer o melhor para o grupo, independentemente de estar jogando ou não, vou buscar ajudar da melhor maneira. Que o torcedor venha junto coma gente, principalmente nesse momento decisivo na Copa Sul-Americana para que a gente possa fazer nosso melhor junto com o torcedor e conquiste os nossos objetivos até o final do ano. Um abraço para todos os torcedores atleticanos.

* Com Hugo Lobão

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