Os gols marcados ao longo da carreira fizeram com que a vida do atacante Pedro Rocha mudasse completamente. Em seu auge, ganhou da torcida do Grêmio o apelido de “Rei do Mineirão”, pelas grandes atuações do Tricolor contra o Atlético, em 2015 e 16. Hoje, pelo Cruzeiro, ele quer manter a alcunha.

Após passagem sem tantas oportunidades na Rússia, Pedro Rocha, que sonha em vestir a “Amarelinha”, espera recuperar o prestígio que outrora o transformou em estátua e até em prato de moqueca.

Em entrevista ao Hoje em Dia, o atacante abriu o coração, falou da chegada à Raposa, da vida fora do país e dos canecos que alcançou e dos que ainda pretende levantar.

Você chegou ao Cruzeiro e, já no aeroporto, recebeu o carinho da torcida. Qual sua primeira impressão em Minas Gerais?

Desde que cheguei, fiquei impressionado com a recepção que tive. Desci no aeroporto e vi a torcida cantando, não esperava tanta gente. Fiquei muito feliz, porque todo jogador gosta desse carinho. Estar em um ambiente leve e agradável facilita muito o trabalho. Fui muito bem recebido pelos jogadores e por todos os funcionários. Isso dá uma motivação maior para fazer meu melhor. É assim que eu gosto de trabalhar.

Após o auge no Grêmio, você foi vendido ao Spartak Moscou, mas não teve tanto brilho por lá. Por quê?

Acredito que faltaram mais oportunidades. Quando fui para a Rússia, tive poucas chances de jogar, de mostrar meu futebol. Eu vinha jogando muito bem no Brasil antes de ir para lá, mas quando cheguei, vi que não era como imaginava. O técnico já tinha suas preferências, tinha um jogador na minha posição que era muito bom. Esse atleta até saiu depois, houve mudança de treinador, mas, mesmo assim, eu segui sem oportunidades. É difícil falar o motivo de eu não ter jogado mais, mas aprendi com essa experiência que tive lá. Ainda sou atleta do Spartak, pois estou emprestado. Só que agora meu objetivo é só o Cruzeiro.

Será que a diferença cultural, a gastronomia e o clima influenciaram na sua adaptação na Rússia?

É difícil viver lá. Faz bastante frio. Quando chega a época de baixa temperatura é muito complicado, principalmente para jogar e treinar. Estranhei bastante a comida. A culinária de lá é diferente, a comida tradicional deles é uma sopa de beterraba, misturada com um pouco de carne, alguma coisa assim. É bem diferente daquilo que somos acostumados no Brasil. Eu gosto muito de moqueca capixaba, mas a comida de lá é completamente diferente.

Pedro Rocha Cruzeiro

Como que faz para pedir essa sopa de beterrabas nos restaurantes, ensina para nós? Você aprendeu bem o idioma russo?

O nome é borsch. Fale isso, e todos saberão o que é. O russo é bastante difícil, mas achei que seria muito mais complicado aprender. Como a gente tinha um tradutor no clube, ele sempre traduzia as coisas para mim. Eu ouvia em russo, traduzia e assimilava bem. Eu tinha também um motorista, porque dirigir lá é complicado. Não sabia ler as placas. Ele já tinha trabalhado com outros brasileiros, e eu aprendia muito com ele no dia a dia. Ele falava algumas palavras em português, a gente se virava um pouco em russo também ou em inglês. Nesse um ano e meio que fiquei lá aprendi muitas palavras, conseguia me comunicar um pouco. Tem os pontos negativos, né? Mas há o lado positivo também. Como a segurança, por exemplo. Você pode estar na rua a hora que quiser, não é assaltado. No geral, de positivo, penso que seja isso mesmo. É bem mais tranquilo.

O brasileiro é receptivo. E o russo? O povo é frio no tratamento também?

Os russos são frios sim, mas a partir do momento que você convive com eles, você os conhece mais. Quando cheguei, minha primeira impressão foi essa, de um povo muito frio. É diferente do brasileiro, que recebe todo mundo com risada e brincadeiras. Mas depois que os conheci, minha convivência melhorou, principalmente com os companheiros do clube. Acredito que seja o jeito do russo mesmo, coisa cultural.

Como é a concentração para os jogos na Rússia? E quem eram seus parceiros na Europa?

No Brasil, a concentração é em grupo ou em dupla, mas na Rússia eu concentrava sozinho. Meus parceiros mesmo eram os brasileiros, o Fernando, ex-Grêmio, e o Luiz Adriano, ex-Internacional. Neste ano chegou o Airton, e fazíamos a panelinha brasuca; ficávamos entre nós mesmo. Sempre que dava, fazíamos churrasco fora do período de treinos, geralmente na minha casa.

Você é natural de Vitória, no Espírito Santo. Os mineiros têm uma ligação muito forte com o litoral capixaba e, principalmente, com a moqueca que você gosta bastante. Você já comeu a moqueca feita em Minas Gerais?

Em BH, eu ainda não comi a moqueca. Estou esperando minha mãe chegar para fazer. Gosto bastante de moqueca, é um prato tradicional nosso lá no Espírito Santo. Em Porto Alegre, em parceria com o restaurante de um amigo nosso, fizemos uma moqueca PR32.

E você virou nome de prato em um restaurante em Porto Alegre, quando atuava pelo Grêmio: PR 32, o Pedro Rocha 32, que é um número tradicional que você usa no futebol brasileiro – foi assim no Grêmio e no Cruzeiro. Me conta um pouco dessa história. A moqueca era boa mesmo? E por que o número.

O 32 veio quando subi para o time profissional do Grêmio. Tinha alguns números disponíveis, e acabei escolhendo essa numeração. Depois não quis trocar, escolhi ficar com o 32 mesmo. Foi me dando sorte. E tive a ideia com meu pai, meu empresário, de fazer uma marca minha. E pegou! Foi dando super certo, até chegar na moqueca. Minha assessoria fora de campo é em cima dessa marca. Depois que passei a usar o número, tudo que eu olhava era 32 aqui, 32 lá. Em parceria com nosso amigo, fiz esse prato. Quem quiser fazer parceria em Minas, também, pode me convidar. Os restaurantes que quiserem parceria, podem me convidar.

Mas na Rússia você não conseguiu usar o número 32. Por quê?

Quando cheguei à Rússia, meu primeiro pedido foi usar o número 32. O diretor lá brincou, falou em russo, e aí traduziram para nós. Ele disse: ‘olha, o 32 é o goleiro, que está aqui há muito tempo, ele é o capitão. Te sugiro a aprender a falar russo e pedir diretamente para ele’. Aí eu pensei, deixa isso para lá, ficou difícil. E escolhi o 99, um número que eu gosto também. Meu ídolo no futebol sempre foi o Ronaldo, que usou esse número na época do Milan. Tinha essa numeração disponível no Spartak Moscou, e por isso eu o escolhi. Ronaldo Fenômeno, que começou aqui no Cruzeiro, é meu ídolo principal, sempre me espelhei nele, que foi um craque.

Você tem uma história bonita no Grêmio. Virou, inclusive, estátua em Porto Alegre. Já pensou ganhar uma estátua aqui no Cruzeiro também?

Sempre passam essas coisas na cabeça. A estátua foi um presente da minha família para mim. A gente que é jogador e sempre sonhou com isso desde criança, pensa nesses momentos legais. O momento da final da Copa do Brasil, em que pude fazer dois gols em cima do Atlético, gerou uma comemoração que meu pai decidiu eternizar em estátua. Minha família sempre acreditou em mim. Não é só uma estátua, vai além disso. Me dediquei bastante para chegar onde cheguei, e fazer dois gols em cima do Atlético em uma final foi essencial para mim. História bem bonita.

Pedro Rocha Grêmio

E, por isso, você ganhou a alcunha de “Rei do Mineirão”. Fazer gol no Gigante da Pampulha mexe com você?

A torcida do Grêmio carinhosamente me deu esse apelido de’ Rei do Mineirão’. E me sinto em casa jogando no Mineirão. Estou doido para fazer logo um gol no estádio, agora pelo Cruzeiro.

O Cruzeiro tem o Fred, o ‘Rei dos Stories’, e tem você, o ‘Rei do Mineirão’. Tem comemoração especial vindo aí?

Vamos trabalhar junto com o ‘Rei dos Stories’ e pensar numa comemoração bem legal para o primeiro gol com a camisa do Cruzeiro no Mineirão.

Qual seu grande sonho no futebol?

Meu grande sonho é um dia chegar à Seleção Brasileira. É o ápice de todo jogador. Todo mundo pensa em representar seu país, e comigo não é diferente.

O que falta para você realizar esse sonho?

Acredito que, primeiramente, preciso fazer um bom trabalho no Cruzeiro, com gols, títulos e ajudando meus companheiros. Assim, posso ter meu nome lembrado pelo Tite.

O Mano Menezes pode te ajudar nesse caminho. É um treinador experiente e que já esteve na Seleção. Você considera o comandante cruzeirense um dos grandes técnicos do futebol brasileiro?

Sempre o vi como um grande treinador. Fico feliz de trabalhar com um grande técnico como ele.