Mais de duas décadas como atleta profissional e 14 clubes no currículo. Em Minas, onde atuou por Atlético e América entre o fim dos anos 90 e o início dos 2000, era apenas o Paulo César, um lateral-direito “meia boca”, como o próprio se define.

No Criciúma, em 2002, se transformou em Paulo Baier, para não ser confundido com um xará de equipe; uma versão melhorada que se tornaria figura folclórica no futebol brasileiro.

Neste Papo em Dia, o segundo maior artilheiro do Brasileirão de pontos corridos, com 106 gols anotados, relembra as passagens pelas equipes mineiras e fala sobre os primeiros passos na carreira de treinador, entre outros temas.

Aos 43 anos, você vive a sua segunda experiência como treinador. Estudou para tal? Fez cursos?

Na realidade, eu fiz alguns cursos aqui no Rio Grande do Sul, alguns estágios também, e agora estou me preparando para ser técnico. Já tive a oportunidade de treinar o Toledo, do Paraná. Fizemos uma campanha muito boa, e agora surgiu a proposta do Próspera, que é lá de Criciúma. É um time que está na Terceira Divisão, ressurgindo.

Torci para o Fred ser vendido depois da Copa de 2014, mas não deu certo (risos). O importante é que eu deixei um legado”

Qual é o ‘estilão’ do professor Paulo Baier?

O início é sempre assim. Convivi 20 e poucos anos dentro do vestiário de futebol e sei mais ou menos o que os jogadores pensam e gostam, então consigo controlar bem isso. Também já fui capitão nos clubes em que passei, então essa liderança é natural. Consigo fazer meus grupos serem fechados, e a rapaziada pega firme.

Esta vivência no vestiário é um diferencial para um treinador da chamada ‘nova safra’?

Hoje é fundamental. Na realidade, hoje você tem que ser mais um gestor de pessoas do que um técnico, porque sabemos que lidar com pessoas não é fácil. Cada jogador tem uma personalidade. Uns gostam mais de cobrança, outros pedem um pouco mais de carinho, e assim a gente consegue levar o grupo. Acho que consigo fazer bem isso. Espero estar a cada dia aprendendo mais e evoluindo.

Você atuou como jogador profissional durante 23 anos. Dos vários clubes em que passou, qual mais marcou a sua vida?

Cara, posso dizer uma coisa de cada clube que passei. Antigamente, quando eu ainda era só o Paulo César, joguei no América, no Galo, por duas oportunidades, e fiquei muito feliz por isso. Joguei também em Vasco e Botafogo, e depois me tornei o Paulo Baier, quando voltei ao Criciúma e já tinha um outro Paulo César por lá. Gostei muito de jogar no Palmeiras, no Goiás, onde tenho uma identificação muito grande, assim como no Criciúma, clube pelo qual fui campeão da Série B, marcando três gols na final. E, logicamente, não esquecendo o Atlético-PR, onde fiquei cinco anos e tenho uma referência muito grande. Esses clubes que citei foram fundamentais na minha vida.

Paulo Baier

Ex-lateral e meia foi comandado por Tite em 2006, no Palmeiras

 

Apesar de não ser atacante, você é o segundo jogador que mais marcou gols no Campeonato Brasileiro por pontos corridos, ficando atrás apenas do Fred. Foram 106 no total. Consegue explicar esse fenômeno?

Me sinto orgulhoso porque fiquei durante oito anos como o artilheiro dos pontos corridos, mesmo com tanta gente boa no país. Eu, que iniciei como ala, como lateral. Então fico muito feliz por ter alcançado essa marca com tantas dificuldades. Em 2004, inclusive, fui o artilheiro do Brasileirão, com 15 gols. Jogando como meia, tudo ficou mais fácil, por estar mais perto do gol.

E nunca pensou em atuar lá na frente? Teria feito muitos outros?

Eu torci para o Fred ser vendido depois da Copa (de 2014). Queria que ele fosse para o Barcelona, para o PSG, mas não deu certo (risos). Mas está em boas mãos. O importante é que deixei um legado e uma história. Se eu fosse atacante, ainda estaria na frente, e o Fred ia demorar para me alcançar. Brincadeira. Mas é questão de característica e posição. Ele é um goleador nato e merece ter esse destaque.

Sempre falo que o Paulo César era ‘meia boca’ e o Paulo Baier já deu uma melhorada. Faltou a oportunidade de um contrato mais longo no Galo"

Pelo América, você foi campeão da Copa Sul-Minas e também do Campeonato Mineiro. O que lembra da sua passagem pelo Coelho?

Foi uma passagem ótima. Naquela época, o América já tinha uma estrutura boa. Imagina agora, que ela é bem melhor. Sempre acompanho. Fico feliz pela situação em que o clube está e torço para que permaneça na Primeira Divisão.

No Atlético, em 1998 e em 2001, você era ainda o Paulo César. Você fez 43 jogos e marcou três gols. Como foi sua experiência no alvinegro? A estrutura e o próprio clube eram bem diferentes do que são hoje, não é?

Minha experiência foi ótima também no Atlético. Sempre falo que o Paulo César era “meia boca” e o Paulo Baier já deu uma melhorada. Meus contratos naquela época eram muito curtos, de seis meses, no máximo. Você precisa conhecer o clube, e era difícil esta situação. Depois é que você pega experiência, analisa e pede um contrato mais longo. Faltou essa oportunidade no Galo. Mas jogar no Atlético é uma referência para qualquer jogador. Torço muito para que consiga uma vaga na Libertadores e tenho um carinho muito grande pelo Galo.

Paulo Baier

No Atlético-PR, Paulo Baier foi ídolo da torcida e anotou 50 gols

 

Como você encara as brincadeiras, já que muitos te chamam de “vovô” e de “imortal”, entre outros apelidos? Você acabou se tornando um personagem folclórico do futebol brasileiro...

Cara, dentro de um padrão de respeito, não há problema algum. Vejo o pessoal do Desimpedidos (canal do Youtube) e outras pessoas brincando, e penso ‘cada vez que falarem meu nome, mais famoso eu fico (risos)’. Podem fazer brincadeiras, sem problemas.

Acha que faltou a Seleção Brasileira para coroar sua carreira?

Faltou. Fui convocado pelo (Carlos Alberto) Parreira na época em que estava no Goiás, mas só como suplente em caso de alguém machucar. Trabalhei para isso (estar na Seleção), mas infelizmente não aconteceu. Faz parte do futebol, e não tenho arrependimento algum. Em todos os clubes que passei, eu dei o meu melhor.

E um título da Série A? Também te faz falta?

Tive a oportunidade, pelo Goiás, de chegar em terceiro lugar no Brasileiro (2005), sob o comando do Geninho, que é uma referência para mim como técnico. Faltou pouquinho. Pelo Atlético-PR, também ficamos no quase, tanto na Libertadores quanto também na Copa do Brasil. Faltaram detalhes, mas isso faz parte. Sempre queremos ganhar, mas às vezes não acontece.

Por que você não atuou no exterior? Chegou a ter propostas?

Não joguei, mas em 1999 tive uma passagem de três meses pelo Newcastle, da Inglaterra. E também estive no Venezia, da Itália. Mas naquela época só podiam jogar cinco estrangeiros, e eu fui como sexto. Não deu certo, e tive que voltar.

Qual o seu maior sonho como treinador? Espera figurar num grande clube do país nos próximos anos?

É fazer bons trabalhos no dia a dia, começar devagarzinho. Quero ainda chegar em um time grande, mas meu processo é aos poucos. Comecei no Toledo, estou no Próspera, e daqui a pouco aparecem outras oportunidades. Não adianta dar um passo maior que a perna.