A Europa viveu nas duas últimas semanas a disputa dos jogos de ida das oitavas de final da Liga dos Campeões. Foram oito confrontos entre 16 dos principais clubes do Velho Mundo, com 221 jogadores de 43 países em campo. O que impressiona na conta é que o Brasil teve 32 atletas em ação, perdendo apenas para a atual campeã mundial, a Alemanha (33), que tem quatro times (Bayern de Munique, Borussia Dortmund, Bayer Leverkusen e Schalke 04) na
competição.

Era para ser um cenário animador para a formação de uma Seleção Brasileira, que será convocada pelo técnico Dunga na próxima quinta-feira, às 10h, na sede da CBF, no Rio de Janeiro, para os amistosos contra França, dia 26, e Chile, 29.

Mas no caso, quantidade está longe de ser qualidade. E a análise dos nomes deixa claro que, assim como nos tempos de Felipão, o time canarinho segue sendo Neymar e mais dez..

Nos seus seis primeiros jogos nessa volta à Seleção Brasileira, entre setembro e novembro do ano passado, o técnico Dunga teve um time-base formado por sete jogadores que faziam parte da “Família Scolari” na Copa de 2014, sendo que apenas o goleiro Jefferson era reserva. Os seis de linha (David Luiz, Luiz Gustavo, Fernandinho, Oscar, Willian e Neymar) eram titulares.

Isso acontece pelo fato de a Seleção ter encarado a Copa de 2014 com uma nova geração, já que o Mundial de 2010, na África do Sul, quando Dunga foi técnico, não deixou legado. E os novos, exceto Neymar, não conseguiram convencer. E são praticamente coadjuvantes no competitivo mercado europeu.
Quando assumiu o comando da Seleção pela primeira vez, em 2006, após o fracasso na Copa da Alemanha, Dunga
mudou os jogadores, responsabilizados pela CBF, pela falta de compromisso.

Agora, a culpa foi jogada na comissão técnica de Felipão e Parreira. Mas, tirando Neymar, os remanescentes da Copa não empolgam. Filipe Luís e Oscar, por exemplo, frequentam a reserva no Chelsea, da Inglaterra. E são titulares absolutos de Dunga.

Transferências

Se quem está na Europa não consegue empolgar, as principais apostas de Dunga no ano passado, entre os jogadores do futebol brasileiro, optaram neste início de 2015 por “aventuras” em mercados menores, de baixo nível técnico.

Novo centroavante da Seleção, Diego Tardelli deixou o Atlético para buscar a independência financeira na China, mesmo caminho seguido pelo ex-cruzeirense Ricardo Goulart, que no ano passado ganhou a Bola de Ouro da Placar. O seu companheiro Everton Ribeiro, craque do Brasileirão de 2014 segundo a CBF, foi para os Emirados Árabes. 

Diante do quadro de manutenção do time que fracassou com Felipão, a aposta da CBF para o comando da Seleção precisaria partir por uma mudança de filosofia de trabalho e tática. A grande dúvida é se Dunga tem capacidade para comandar essa renovação. Com base no que ele fez entre 2006 e 2010, é difícil acreditar.

Profissionalização da base estava sendo tocada por coordenador demitido na última sexta-feira

Diante da realidade de uma geração que não honra a tradição do futebol brasileiro, no que se refere à qualidade, e pressionada pelo vexame dos 7 a 1 sofridos para a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo de 2014, a CBF tentou mostrar agilidade e menos de dez dias depois do vexame no Mineirão apresentou o que prometia ser uma revolução.

Gilmar Rinaldi, que até o dia anterior era agente de jogadores, o mais famoso deles o atacante Adriano, o Imperador, virou coordenador de todas as seleções, apesar do conflito ético entre as duas funções.

Categorias de base

Mas o que mostra a falta de conteúdo do projeto apresent[/TEXTO]ado pela CBF em 17 de julho do ano passado, no Rio de Janeiro, é a questão envolvendo as categorias de base, ponto principal de qualquer trabalho de renovação na estrutura do futebol de um país.

Na ocasião, o presidente da CBF, José Maria Marín, garantiu que a tão falada reformulação, uma cobrança da época, já tinha começado na entidade há “um ano e seis meses”.

Ele lembrou que desde a sua chegada à entidade tinha priorizado a profissionalização do trabalho nas categorias de base, dando poderes a Alexandre Gallo, coordenador da área.

E Gallo ganhava ainda mais poder naquele dia, aparecendo como o condutor de um trabalho a longo prazo, que tinha como primeiro desafio a Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro.

“O presidente me perguntou se eu tenho um plano de sequência para o futebol brasileiro e eu apresentei um plano olímpico. O planejamento sistematizado visando o ouro olímpico é muito importante. Hoje, o ciclo olímpico tem quatro idades. A partir do ano que vem, o sub-20 só terá duas, então há um gap (lacuna). Se estes jogadores, que foram campeões no Torneio de Toulon (em 2014), não forem galgados a seus times principais, vamos ter esse
gap. Eles não têm lastro de seleção, pois ficam sem jogar a sub-20 e a principal. A ideia é levá-los para uma Seleção olímpica/principal, fazer o papel inverso. De hoje até a Olimpíada, temos 25 jogos. Nós daremos um lastro para esses atletas”, afirmou Alexandre Gallo.

O projeto ficou pelo caminho. Na última sexta-feira, Gallo perdeu o cargo de coordenador da base.