Pelo calendário de competições oficiais masculinas de 2020, publicado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 3 de outubro do ano passado, os Estaduais deveriam começar apenas no meio desta semana, pois as datas previstas para os mesmos vão de 22 de janeiro a 26 de abril – o Mineiro começa amanhã, dia 21. Mas a bola já rola no Campeonato Carioca desde 22 de dezembro, sendo que a fase preliminar até já acabou, no último dia 11 de janeiro.

Este é apenas um exemplo de como os campeonatos estaduais, apontados por muitos como o problema maior de um calendário irracional, primam pela criatividade e pecam pela padronização.

Usando como base apenas os nove Estaduais que contam com clubes na Série A do Brasileirão (Mineiro, Paulista, Carioca, Gaúcho, Goiano, Paranaense, Baiano, Pernambucano e Cearense), o Hoje em Dia analisou regulamentos e constatou nada menos que nove fórmulas de disputa diferentes.

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Ideal

Essa situação se deve ao fato de que cada federação é soberana para definir o modo de disputa do torneio que organiza. A CBF, no ano passado, até soltou uma circular sugerindo o modelo do Campeonato Carioca, aquele que começou em 22 de dezembro do ano passado, como o que mais agradaria à entidade e à Rede Globo, que detém os direitos de transmissão dos principais Estaduais.

O Campeonato Carioca está longe de ser um primor técnico, pois sua fórmula tem fase preliminar, fase principal, grupo X e grupo Z. Mas o que agrada principalmente à televisão é o fato de o torneio ter duas semifinais e finais de turnos, que são as Taças Guanabara e Rio, e ainda contar com a possibilidade de uma decisão em ida e volta.

Essa final, no entanto, pode não acontecer, pois o regulamento prevê que se um mesmo clube vencer as Taças Guanabara e Rio, este será declarado campeão de forma antecipada.

“O modelo permite muitos jogos entre grandes clubes. E isso, com certeza, provoca mais audiência. Por isso, a CBF mandou um ofício sugerindo, junto com a Globo, que o formato ideal seria o do Carioca. Comercialmente este seria o mais interessante”, revela Leonardo Barbosa, diretor técnico da Federação Mineira de Futebol (FMF).

O interessante é que por muito anos a própria CBF defendeu a tese de que o Campeonato Mineiro era o mais racional entre os Estaduais do Brasil. Com a mesma fórmula de disputa desde 2004, é uma competição que premia sempre a melhor campanha.

Mas a entidade, talvez convencida pela Rede Globo, parece ter mudado de ideia. E prefere o confuso Campeonato Carioca como o “ideal” entre os Estaduais do futebol brasileiro.

Cearense

O privilégio de começar a competição antes da data prevista pela CBF não é uma exclusividade carioca. O Campeonato Cearense está sendo jogado desde 5 de janeiro e no último domingo já foi disputada a 5ª rodada.

Na criatividade, a competição cearense também é forte, pois Fortaleza e Ceará, campeão e vice do ano passado, só entram na disputa na sua segunda fase.

No Goiano, são 12 clubes e 12 jogos na primeira fase. Não acontece um turno único, mas sim um cruzamento entre dois grupos. Isso tudo para que se possa ter mais clássicos envolvendo Goiás, Atlético-GO e Vila Nova-GO.

O Paulista tem quatro grupos de quatro equipes na primeira fase com cada time disputando 12 partidas. Uma agremiação tem como oponentes os clubes dos outros três grupos, mas não encara nenhum de sua própria chave.

Mas o pior não é isso. Nas quartas, os dois classificados de cada grupo se enfrentam, brigando por uma vaga nas semifinais. É disputado um jogo único, na casa da equipe de melhor campanha, que tem isso como vantagem, pois em caso de empate, a decisão será por pênaltis.

Os pênaltis, aliás, parecem seduzir nossos cartolas. Dos quatro principais Estaduais do Brasil, só o Mineiro não tem a possibilidade de ser decidido nos pênaltis, pois a equipe de melhor campanha joga a final por dois empates ou vitória e derrota pela mesma diferença de gols.

No Rio Grande do Sul, em São Paulo e no Rio de Janeiro, o Estadual pode ter seu campeão conhecido na disputa de pênaltis, algo comum em copas, mas que deve ser evitado em campeonatos.

Calendário

País-continente, o Brasil viu sua história futebolística nascer através dos Campeonatos Estaduais. Como as principais competições começaram a ser disputadas no início do século passado, era impossível se pensar, por questão de logística, num torneio nacional por causa das grandes distâncias que teriam de ser percorridas pelos clubes.

Infiltradas no modelo de poder da CBF, as federações ganharam força e hoje são a base de sustentação da entidade maior do futebol nacional. E têm como produto maior, cada uma, justamente a disputa da sua Primeira Divisão.

A força dos Estaduais é tão grande que apenas as nove competições que contam com clubes da Série A do Campeonato Brasileiro totalizam 110 equipes em suas divisões principais.

A título de comparação, as quatro Séries do nacional juntas (A, B, C e D) totalizam 100 clubes.

Para um calendário mais racional, não há dúvida de que a disputa dos Estaduais durante grande parte da temporada, paralelamente às principais competições, como as Copas Libertadores, Sul-Americana e do Brasil e Campeonato Brasileiro, seria melhor.

E isso, segundo o diretor técnico da FMF, Leonardo Barbosa, poderia até valorizar os torneios: “Sem dúvida que, do ponto de vista comercial, isso seria melhor. A competição fica exposta por mais tempo e seu valor de mercado aumentaria”.

Mas o modelo esbarra na quebradeira dos clubes do interior. Se para os grandes a coisa está difícil, para os pequenos a situação é dramática. E um Estadual mais longo significaria contratos maiores com os jogadores.

“Hoje, em Minas Gerais, temos sete dos 12 clubes do Módulo I disputando alguma série do Campeonato Brasileiro. Os outros cinco têm no calendário apenas o Módulo I. E fazem contratos curtos com os jogadores, de três, quatro meses. Justamente para não aumentar a folha. Caso o Estadual aumentasse de período, eles teriam de gastar muito mais. Este é o problema. Por isso, por exemplo, não conseguimos voltar com a disputa da Taça Minas Gerais”, explica Leonardo Barbosa.

Arte Estaduais