Em um intervalo de três dias, o Brasil foi palco de barbáries, episódios de violência e preconceito em dois de seus maiores estádios. No dia 7 deste mês, uma série de agressões envolvendo torcedores de Botafogo e Flamengo ‘sujaram’ o Maracanã. E no último domingo, dia 10, as brigas atingiram outro patamar no Mineirão, no clássico entre Cruzeiro e Atlético, em que houve, inclusive, um ato de injúria racial contra um segurança do Gigante da Pampulha. Diante desse cenário obscuro, sobram perguntas como ‘de quem é culpa?’ e ‘torcida única pode solucionar esse problema?’, dentre outras.

Em entrevista ao Hoje em Dia, o sociólogo Mauricio Murad, que há anos estuda o comportamento das torcidas de futebol e é autor do livro 'A Violência no Futebol: Novas Pesquisas, Novas Ideias, Novas Propostas', acredita que os culpados estão em várias esferas da sociedade e ressalta que, geralmente, os principais episódios que mancham o esporte “ocorrem de forma mais aguda no fim de uma temporada”.

"É uma repetição de uma tendência. O problema da violência no futebol brasileiro, de agressão, morte, mutilação, preconceito, é antigo. Uma das grandes causadoras disso tudo é a impunidade, que estimula delitos. Veja o que aconteceu com Botafogo e Flamengo. A Justiça já soltou aqueles torcedores (que cometeram delitos), mesmo tendo as imagens. Temos uma legislação razoável, que poderia melhorar, claro. Mas o que falta é a aplicação da lei”, salienta Murad.

Mauricio Murad

Ele enfatiza ainda uma questão envolvendo as autoridades que deveriam visar à segurança dentro e fora do estádio. "Temos que trabalhar as variáveis: prevenção e punição. Nas redes sociais, a polícia já teria que monitorar e mapear marcações de brigas de torcedores, até prender. Deveria haver também um envolvimento maior dos clubes, que lavam as mãos. A polícia teria que cobrar uma reciprocidade das torcidas também. Então, basicamente, temos a questão da impunidade e o fato de que a polícia deveria agir mais com a prevenção”, afirma.

Além disso, ele aponta outro sujeito como responsável por esses episódios negativos. "O Estado também tem culpa, pois não estabelece políticas públicas. A maioria das torcidas é pacífica, e o Estado deveria ter políticas públicas nesse sentido”, disse.

Torcida única?

Por fim, Murad não vê como solução uma hipotética decisão de os clássicos comportarem apenas uma torcida.

"Torcida única não adianta, mais de 90% dos conflitos acontecem fora do estádio, de acordo com novas pesquisas. Você ‘mata’ o gado e acaba com o carrapato”, relata. “Muitos setores das torcidas se desviaram, mas são uma minoria. Se o Brasil for fazer algo semelhante em todos os setores, o que vai fazer com o Congresso Nacional e a Justiça? Com torcida tem é que prevenir esses casos, punir os infratores e preservar a maioria”, destaca.