Renaldo Lopes da Cruz, ou simplesmente “o baiano que veio do Paraná”; forma pela qual foi imortalizado pelo saudoso narrador Willy Fritz Gonser. Ídolo da torcida do Atlético e principal homem-gol do alvinegro entre 1993 e 1996, o ex-atacante fez 183 jogos com a camisa preta e branca e balançou as redes em 79 oportunidades.

Aos 44 anos e se dedicando exclusivamente ao filho, que trata de um complicado câncer na cabeça, Renaldo usa o tempo livre para interagir com os atleticanos nas redes sociais e relembrar os momentos de glórias pelo Galo.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, o futebolista mais famoso de Cotegipe, cidade do interior da Bahia, relembra toda trajetória pelo Atlético, fala das experiências vividas na Europa e também com as camisas de Corinthians, Paraná e América, revela ter sido procurado pela diretoria do Cruzeiro em 1996, comenta o cenário de salários atrasados no alvinegro mineiro e muito mais.

Você fez 183 jogos pelo Atlético e marcou 79 gols. O que o clube significa para você?

É o time em que eu vivi o melhor momento da minha carreira. Fui artilheiro do Brasil, cheguei na Europa, Seleção Brasileira... É o time de que eu mais tenho carinho.

Em 1995, você fez valer a fama de carrasco do Cruzeiro ao marcar dois gols no clássico da final do Mineiro. Naquele time havia duas figuras que estão no Atlético hoje. Levir e Éder Aleixo...

Quando o Levir chegou, eu não estava jogando. Foi ele que me colocou para jogar e me deu confiança. Ele foi o cara que me deu confiança para eu arrancar no Galo. Já o Éder, nos tornamos amigos íntimos. Eu o considero como meu irmão. Ele é um cara que foi importante na minha carreira. Teve um jogo contra o Cruzeiro que o ataque era eu e o Renato Gaúcho. Estava 0 a 0 e o Éder foi bater uma falta de lado, me pediu para ficar na marca do pênalti; ele cruzou na minha cabeça, eu fiz o gol, e nós ganhamos de 1 a 0. Ele foi um cara que me ensinou pra caramba jogar futebol e posicionamento. Na minha vida ele foi muito importante.

Tive uma proposta do Cruzeiro, mas não deu certo. Na época, a diretoria do Atlético queria me vender para pagar dívidas e salários. Eles estavam no desespero. Na verdade, a coisa deu para trás porque eu quis. Graças a Deus não fui para lá

 


Você foi artilheiro do Brasileirão de 1996. Depois desta marca, acabou vendido para o La Coruña e convocado para a Seleção. Foi o momento mais especial da sua carreira?

Foi o momento mais importante da minha carreira. O Atlético foi o time em que eu mais tive sucesso. Tenho um respeito muito grande por este clube e pela torcida nem se fala. A gente conversa muito pelo Twitter. Pela Seleção fui convocado oito vezes e joguei meio tempo lá na Arena da Baixada. Depois fui para a Europa e não voltei mais.

Por que não ficou tanto tempo na Espanha? Aconteceu algo por lá?

Não fiquei muito tempo lá porque eu tive problemas familiares; os falecimentos da minha mãe e do meu irmão. Eu tive que voltar para o Brasil para me recuperar psicologicamente. Foi muito difícil para mim.

Fica triste por não ter tido uma sequência melhor na Seleção?

Cara, é assim... Na minha época de Seleção, eram muitos jogadores bons e de ponta. Então você não podia dar brecha. Mas eu não tive uma continuação, entraram outros jogadores até em melhor momento que eu e aproveitaram.

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Você, em entrevista à Placar, disse que gastava até 50 mil dólares por mês em roupas...

Sim, sim. Gastava mesmo. Naquela época eu ganhava muito dinheiro e podia esbanjar com essas coisas aí. Mas é coisa de moleque novo, empolgado. Foi tudo aprendizado.

Você acabou emprestado para o Corinthians, antes de retornar para a Espanha, onde defendeu o Las Palmas. Como foi esta experiência no atual campeão brasileiro?

Minha fase no Corinthians foi quando vim para o Brasil para me recuperar dos meus problemas familiares. O Luxemburgo ligou para o Rivaldo para saber como eu estava e ele disse que estava passando por um momento difícil. Ele quis me trazer para o Brasil para me recuperar. Dentro de campo não fui muito bem.

Em 2002 você defendeu o América e em seguida retornou ao Atlético. O que lembra daquele período?

No América eu fui muito bem, tanto que o Atlético me levou de volta. Fiz uma temporada boa no Coelho. Fiquei três meses, fiz bastantes gols e estava na mídia. O Galo viu e me chamou de volta. Mas não foi muito boa até porque não foi por muito tempo. Naqueles seis meses, o Atlético estava passando por um momento difícil.

Você é considerado um dos maiores carrascos do Cruzeiro em todos os tempos. Jogar contra o rival em Minas tinha sabor especial para você?

Claro, pô. Vou te falar a verdade. Eu me preparava para jogar contra o Cruzeiro. É o time que eu gostava de fazer gols. A torcida do Galo sabia que eu ia fazer e eu criava isso dentro de mim. Eu sonhava em fazer gol no Cruzeiro porque era o máximo para mim e também para os torcedores. Quando fazia, a sensação era a mesma de vestir a camisa da Seleção Brasileira.

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Chegou a ser sondado pelo Cruzeiro?

Sim, eu tive a proposta do Cruzeiro, mas não deu certo. Na época, a diretoria do Atlético queria me vender para pagar dívidas e salários. Eles estavam no desespero. Na verdade, a coisa deu para trás porque eu quis. Falei que não queria ir para o Cruzeiro e prometi me garantir dentro de campo. Prometi ser artilheiro do Brasileiro e que seria vendido para a Europa. Foi aí que eu botei a pressão nos diretores, a torcida começou a quebrar a sede, e graças a Deus fiz um ótimo campeonato e não fui para o Cruzeiro.

Tem desejo de trabalhar na base do Atlético, formando centroavantes?

Cara, meu sonho era chegar no Atlético e ensinar os atacantes a fazer gol, de chegar um menino no time de cima e falar “foi o Renaldo que me treinou, que me deu essa força”. Mas eu não me iludo com estas coisas. O Atlético é muito grande, de uma estrutura grande. Não sei se um dia vão pensar em mim. Eu amo a torcida do Galo, é só o que posso te dizer.

‘Cara, meu sonho era chegar no Atlético e ensinar os atacantes a fazer gol, de chegar um menino no time de cima e falar “foi o Renaldo que me treinou e me ajudou”. Mas eu não me iludo com estas coisas. Não sei se um dia vão pensar em mim’



Sua carreira foi marcada pela especialidade na hora de cobrar pênaltis. Hoje, aposentado, pode contar qual era o segredo?

Ah, bicho! Pênalti é técnica e treinamento. Eu treinava bastante. Tinha uma concentração muito grande. Eu aprendi a bater pênalti num dos melhores goleiros do mundo que era o Dida. Ele era meu freguês, pô! (risos) Eu já bati pênalti nele aos 45 minutos do segundo tempo, com mais de 100 mil pessoas no estádio. Quer teste melhor que isso? Eu fui um dos melhores em bola parada do mundo. 

Como foi conviver com o Thiago Neves no início de carreira dele, em 2005? O acompanha no Cruzeiro?

Eu dava muita dura no Thiago Neves. O empresário dele me pediu a ajudar ele. O Thiago tem um carinho muito grande por mim, porque eu dava muita dura para ele melhorar. Ele era muito mascaradinho e cheio de coisinha. Ele ficava com raiva porque me achava ranzinza (risos). Eu ensinava ele e o Maicosuel a jogar; dava muita dura, mas era pro bem deles. Eu queria que o Thiago Neves estivesse no meu Galo e fazendo gol pelo Galo e não pelo Cruzeiro.

Você ficou eternizado na voz de Willy Gonser como o “baiano que veio do Paraná”. Ainda fecha os olhos e ouve as narrações do saudoso gaúcho da Itatiaia?

Poxa! Às vezes eu posto meus vídeos de gols para a torcida do Atlético, não para me mostrar, mas sim para a geração nova que não me conhecia. O Willy foi quem me transformou neste mito que sou para a torcida do Galo. Ele faz parte da minha história. O bordão “o baiano que veio do Paraná” é uma frase que marcou.

O Atlético admitiu que está com salários atrasados. Como era na sua época? Como isso pesa no desempenho do time em campo?

Eu já passei três meses sem receber no Galo. Mas eu recebia mixaria. Os caras hoje recebem 1 milhão, 500 mil. Isso aí faz parte do futebol, pô! O Atlético é um time estruturado e acho que o jogador quando veste esta camisa, ele tem que jogar também por amor. Sei que ele tem os gastos, mas o salário uma hora vai cair na conta. Falta sim mais amor, entrega e vontade no futebol.