Uma gigante de 1,65m e enorme importância para o voleibol mundial. Atleta única, referência da posição que parece ter sido criada especialmente para ela.

Quatro anos depois de ter encerrado a brilhante trajetória na seleção brasileira, a líbero Fabi Alvim anunciou a aposentadoria definitiva em abril, aos 38. Se despediu sem ressentimentos, dentro de quadra, fazendo o que mais amava. Para variar, disputando título.

Curtindo a nova fase na Cidade Maravilhosa, a bicampeã olímpica conversou com o Hoje em Dia sobre os mais de 20 anos de carreira, o esporte ao qual se dedica agora, os próximos passos e muito mais.

Você superou a baixa estatura para se consolidar como uma das maiores jogadoras do mundo. Tem a dimensão do seu ‘tamanho’ para o vôlei?

Acho que tenho essa altura desde os 12, 13 anos, então não era tão pequenininha assim na época não, só acabei ficando pelo meio do caminho (risos). Comecei a jogar no subúrbio do Rio, em Irajá, onde nasci e fui criada, também como forma de não fazer coisa errada, porque gostava muito de ficar na rua. Aquela geração de Barcelona (ouro masculino em 1992) meio que me inspirou, sabe? Ia ser difícil me convencer, porque eu sou persistente, mas é óbvio que seria praticamente impossível me tornar atleta profissional se não tivessem criado o líbero (em 1996). Posso dizer sem medo de errar que essa foi a grande oportunidade da minha vida. De fato até hoje não sei quem inventou a posição, mas sou eternamente grata. Um dia ainda vou encontrar essa pessoa para agradecer em nome de todos os baixinhos.

O ouro em Pequim é especial porque ele veio para dizer ‘nós mulheres também podemos, sim’. E eu brinco que nem Woody Allen seria capaz de escrever uma história tão maluca quanto aquela dos Jogos de Londres"

Antes dos dois ouros olímpicos (2008 e 2012), você passou pela experiência do corte nos Jogos de Atenas. Como reagiu e de onde tirou forças para não desistir ali?

Foi um golpe bastante duro. Confesso que eu pude conhecer um pouco do fundo do poço, até uma certa depressão, enfim... Mas foi um momento muito importante para mim também, porque eu disse que não ia querer sentir aquele gostinho novamente. Prometi que eu ia me dedicar mais. Depois de sofrer o corte, só pensava em treinar, treinar, treinar e me preparar para poder estar lá. Mas eu acompanhei de perto a dor daquele time, me sentia parte daquela seleção, porque treinei com elas até cinco, seis meses antes. E a nossa geração também sofreu as consequências daquela derrota.

Você declarou que o seu ‘casamento’ com a seleção brasileira te rendeu duas ‘filhas’. O amor é de mãe mesmo, igual pelas duas medalhas?

É difícil ter uma predileta. A primeira envolveu essa questão após a derrota em Atenas. Fomos criticadas, diziam que na hora do ‘vamo ver’ as mulheres não conseguiam. O ouro em Pequim é especial porque ele veio para dizer ‘nós também podemos, sim’. E faço questão de sempre lembrar das gerações precursoras, que passaram por todo o processo de transformar o nosso voleibol feminino em algo grande, para que então a gente pudesse conseguir essa medalha. E quatro anos depois, eu brinco que nem Woody Allen seria capaz de escrever uma história tão maluca como aquela dos Jogos de Londres. Eu diria que são filhas com personalidades diferentes, mas o amor é grandioso pelas duas.

Fabi Alvim vôlei

Líbero conquistou os Jogos Olímpicos de Pequim-2008 e Londres-2012

 

Sua despedida da seleção acontece em 2014, apenas dois anos antes de uma Olimpíada na sua cidade. Esse fator dificultou a decisão?

Depois de Londres eu já vinha pensando, e é claro que isso pesou muito, porque além de brasileira sou carioca e apaixonada pela minha cidade. Imaginei e vivi esse sonho de sediar uma Olimpíada desde a escolha da candidatura. Tinha esse desejo de jogar, obviamente, mas meu corpo começou a dar sinal. Acho importante termos esse timing e entendermos os nossos limites. É uma dedicação muito grande, você precisa estar ali de corpo, cabeça e alma. E a seleção já vinha com jogadoras muito capacitadas, que só precisavam de uma oportunidade. Tudo isso contribuiu para que eu tomasse essa decisão difícil de forma bastante tranquila.

A mineira Camila Brait seria uma sucessora natural. Te surpreendeu o corte em 2016 e a decisão dela de também se aposentar da seleção?

A Camilinha Brait, sem dúvidas, foi um dos fatores responsáveis pela minha decisão de deixar a seleção, porque eu sentia que ela estava muito preparada. E ela jogou muito bem o Mundial de 2014, foi uma das melhores da competição. Mas a minha saída trouxe também uma oportunidade para a Léia, que cresceu absurdamente e disputou a vaga até o fim. Deve ter sido muito difícil para o Zé Roberto. Confesso que continuo na torcida para a Camilinha rever, porque ela é supertalentosa e teria um grande futuro na seleção. Mas respeito as decisões, é o que a gente pode fazer.

Além de brasileira sou carioca e apaixonada pela minha cidade. Vivi o sonho de sediar uma Olimpíada desde a escolha da candidatura. Mas meu corpo começou a dar sinal"

Como foi trabalhar com dois ícones como Bernardinho e Zé Roberto por tanto tempo?

Tive alguns privilégios na vida, e um deles foi conviver por tanto tempo com dois dos maiores treinadores do mundo. E aí não falo só do vôlei, mas de todos os esportes. Foram praticamente dez anos com um no clube e o outro na seleção. Então foi um privilégio, tanto como jogadora, na minha evolução como atleta, quanto no meu desenvolvimento como ser humano. Fica até difícil encontrar palavras. Talvez a maior delas que eu sinta agora seja ‘gratidão’. O Bernardo foi um grande amigo, um cara que também sempre esteve presente nos momentos de conquistas pessoais. E o Zé, a gente dividiu o palco olímpico por duas oportunidades, dois momentos inesquecíveis. É motivo de gratidão e orgulho poder dizer que pude trabalhar com esses dois grandes campeões.

Como foi a experiência como comentarista de televisão? Conseguiu desfrutar da Rio-2016 como torcedora também? Pretende seguir esse caminho ou já tem planos de ir para Tóquio apenas como turista?

É uma tarefa muito difícil ficar do lado de cá, e não menos importante. Foi uma experiência muito bacana, porque de certa forma estive dentro da Olimpíada, e pude também assistir aos amigos de outros esportes, algo que você não consegue enquanto atleta. Agora como ex-jogadora, já depois da aposentadoria do clube, fui convidada a fazer parte do time de comentaristas da Globo. É uma responsabilidade enorme, mas vou seguir tentando aprender mais no dia a dia e me dedicar para cumprir bem esse papel.

Fabi Alvim vôlei

Decacampeã nacional, Fabi se despediu com o vice da Superliga 2017/8

 

Em entrevista ao UOL, você disse que estava tomando gosto pelas corridas e, antes mesmo de se aposentar, já estava completando algumas provas. Uma maratona já está nos planos?

Estou aqui fazendo gelo nas pernas, porque terminei minha segunda meia-maratona no último domingo. Foram 21 quilômetros bem doloridos, e estou até hoje com problemas musculares para me recuperar. Realmente tomei gosto pelas corridas, é algo que me encantou. Antes de parar de jogar, eu já sabia que precisaria continuar com a minha cabeça em algum esporte, porque sempre quis manter os treinos e uma rotina saudável. Acho que me encontrei na corrida há dois anos e estou muito feliz, apesar do sofrimento. O fato de ter sido atleta profissional não me dá nenhuma vantagem em relação a ninguém.

Estar aos 38 anos disputando finais tão importantes já me deixou feliz. E sei reconhecer quando meus adversários (Minas e Praia) foram superiores. Não fiquei chateada com os mineiros, não (risos)"

Como líbero, você se tornou uma grande passadora e defensora, o que seria perfeito para o vôlei de praia. Nunca pensou em jogar na areia?

E se eu contar que já catei bola de algumas grandes jogadoras quando era adolescente? Sempre fui apaixonada por vôlei de praia, e aqui no Rio de Janeiro é muito comum a gente bater aquela famosa ‘pelada’. Nas minhas férias escolares, eu ficava vendo as duplas e catando bola nos treinos da Adriana Behar e da Shelda, ou da Sandra e da Jaqueline, então pude acompanhar de pertinho atletas de quem sempre fui fã. Até pensei em algum momento nessa ideia, sim. Mas depois que conheci bem o vôlei de praia vi que, baixinha mesmo, só a Shelda para fazer tudo aquilo. Ela era realmente genial. Ficaria difícil para mim, então por isso nem me arrisquei.

Neste ano, teremos os dois times mineiros no Mundial de Clubes. Entre Praia e Minas, qual chega em vantagem? É possível pensar em título?

Eu tive o privilégio de disputar o Mundial e representar o país pelo meu clube (Sesc Rio). É um campeonato bastante duro, porque algumas equipes são verdadeiras seleções internacionais. O Eczacibasi e o atual campeão Vakif (Turquia), por exemplo, são times que há tempos investem muito dinheiro nessas competições. Mas, pelo que eu tenho visto, esse talvez seja um ano em que a gente tenha dentro do Brasil grandes chances de brigar de igual para igual. Tanto Minas quanto Praia se reforçaram bem, trouxeram jogadoras de seleção e podem pensar em título, sim, sem dúvida. Vamos estar bem representados.

Coincidentemente, você se aposentou perdendo as duas últimas possibilidades de título para os clubes daqui (Minas no Sul-Americano e Praia na Superliga). Ficou com algum ressentimento dos mineiros (risos)?

Eu sou carioca, mas minha família toda é mineira, então tenho um carinho especial por Minas Gerais. Queria ter vencido, claro, ainda mais porque eu não havia revelado, mas já sabia que esse seria o meu último ano. Mas, muito além de título, a chance de estar aos 38 anos disputando finais de competições tão importantes já me deixou feliz. E perdemos para equipes que foram melhores. Tenho respeito pelos meus adversários e sei reconhecer quando foram superiores. São dois clubes que vêm fazendo um trabalho incrível há alguns anos, cedendo atletas para a seleção e, o mais importante, com longevidade nos projetos. Então merecem os parabéns. Não fiquei chateada com os mineiros, não (risos).

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