Luiz Carlos Cirne Lima de Lorenzi. Apesar do extenso nome, esse gaúcho de 46 anos é conhecido nos quatro cantos do país apenas como Lisca Doido. Técnico do Ceará, ele tem a missão de livrar o Vozão do rebaixamento à Série B para concluir, mais uma vez, o trabalho de “bombeiro” no Alvinegro.

Famoso pela personalidade forte e pelo dom de interagir com os torcedores, o treinador apelidado pelos torcedores do Juventude-RS ganhou a simpatia dos adeptos de vários outros clubes e, como objetivo maior na carreira, nutre o sonho de se firmar em um dos doze grandes clubes do país.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, o aprendiz de Abel Braga revela seu lado estudioso, fala de seu diferencial no mercado e diz que espera alçar voos longos na profissão.

Você foi acionado pra livrar vários clubes do rebaixamento. Em alguns, teve êxito. No Inter, porém, não teve nem tempo para tal. Tem medo de que este rótulo de “apagador de incêndio” atrapalhe a sua carreira?

Não tenho medo disso não. Trabalhei por dois anos no Luverdense, e no Náutico também. No Inter tive sete passagens. No Ceará e no Juventude, trabalhei por duas vezes. Então, geralmente, eu volto para os lugares por onde passo. Não tenho esse medo de ser rotulado. As oportunidades aparecem dentro das dificuldades. Isso é corriqueiro dentro do nosso meio. Te devolvo a pergunta: qual treinador não é bombeiro hoje no futebol? A nossa média de permanência é de três meses e 15 dias. Nossa realidade é em cima de situações de urgência.

Tive um namoro com o América no ano passado. Para mim, seria muito legal trabalhar em Minas


Muito se fala que o Lisca é ‘doido’, pelo seu jeito agitado à beira do campo, mas pouco se fala da sua filosofia de trabalho. Isso te incomoda?

Anteriormente me incomodava mais. Mas, agora, vocês da imprensa já estão mostrando um aspecto bem diferente. O público também me conhece há mais tempo e sabe que o ‘doido’ é muito mais de amor pela profissão, de troca de energia com a torcida. Sou doido por aquilo que faço. Sou apaixonado pelo meu trabalho. Eles se identificam com um cara simples, honesto, sincero, que não mede palavras e que não faz nada por interesse.

Qual é a sua principal característica como técnico? É ser mais um motivador ou saber arrumar os times com sua filosofia tática? 
É a minha metodologia de treinamento. Eu sou muito forte nisso, pois faço desde os 17 anos. Leio muito sobre isso, principalmente livros que vêm de fora. Treino já numa sessão de parte física, técnica, tática e mental. Isso agora está chegando no Brasil através de Portugal, de treinar a partir das circunstâncias do jogo e as necessidades específicas da partida. A escola brasileira ainda vem muito da escola militar, da escola do atletismo, onde se treina pouco a especificidade do jogo. A nova geração chega com um novo conceito de treinamentos. Eu já faço há muito tempo, e tive a oportunidade de trabalhar nas Séries A, B, C e D e nos Estaduais, então ganhei conteúdo para desenvolver a minha própria metodologia. 

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Qual o seu diferencial?

Me considero muito forte no dia a dia, sou um melhorador de performance e já revelei muitos jogadores que jogam em todas as partes do mundo. Um dia, poderemos desenvolver isso com mais calma.

A sua identificação com a torcida do Ceará chamou a atenção do país. Tem sido pioneiro, inclusive, ao ir para a galera e puxar o coro... 

Quando vim para cá, em 2015, o clube tinha 98% de chances de ser rebaixado para a Série C. Ninguém acreditava muito. Cheguei, mobilizei o time, e conseguimos mudar o cenário. A torcida apoiou muito, cantou a música, deu respaldo para o time e para o treinador, e a gente foi desenvolvendo um trabalho legal. Agora na volta, as circunstâncias eram parecidas, mas com muito mais tempo e na Série A, onde os adversários são mais fortes. Essa sinergia entre torcedor e treinador ajuda muito também, porque, se apoiam o técnico, incentiva a equipe. 

Qual treinador não é bombeiro hoje no futebol? A nossa média de permanência é de três meses e 15 dias, e a realidade é em 
cima de situações de grande urgência. Não tenho medo algum de ser rotulado


Como encara essa repercussão nos quatro cantos do Brasil? Vários torcedores, inclusive, querem que você comande os respectivos clubes...

É bem legal. Pelo fato de Fortaleza ser um pólo turístico, várias pessoas me param na rua para falar isso. São pessoas de times do Brasil inteiro. Aí de Minas, por exemplo, me falam do “Galo Doido” (risos). O Galo já tem esse personagem, que mexe com a torcida antes do jogo, então é uma coisa muito bacana. Vocês mesmo da imprensa já enxergam esse meu apelido não com uma visão pejorativa, mas como um doido legal, um doido que de doido não tem nada. Sou um cara feliz com o que faço, alegre e espontâneo. Mexer com multidão não é fácil, e esse carisma é difícil de se ter. Fico feliz com esse reconhecimento e vamos crescendo, evoluindo na carreira. Daqui a pouco, se Deus quiser, bater num dos doze (grandes) do país.

Já teve algum convite para trabalhar em Minas?

Tive um namoro com o América no ano passado. Conheci as pessoas e a estrutura do clube. O professor Ricardo (Drubscky) é um dos caras com mais conteúdo no futebol brasileiro. Me identifico muito com a metodologia dele. Sou amigo pessoal do Mano, trabalhamos juntos no Inter. Seria muito legal trabalhar aí. O futebol mineiro é muito forte, tradicional e tem três grandes clubes, com CT’s de nível de primeiro mundo.

Você nasceu em Porto Alegre, e o Rio Grande do Sul tem a fama de formar bons técnicos, levá-los aos principais clubes do país e também à Seleção Brasileira. Acha que pode chegar ao time Canarinho? É um sonho?

Sempre é. Todo profissional tem esse sonho. Não só na equipe principal, mas também nas categorias de base. Sou muito amigo do Tite e sou padrinho do Pedro Lucas, filho do Cleiton Xavier. Mantemos um contato muito grande, de troca de informações, de literatura, mas não é o meu sonho maior. Quero mesmo é treinar um dos doze (grandes) e entrar nesse mercado de uma vez. Quando o treinador chega nesse patamar, é porque está chegando perto do seu objetivo máximo.

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