Mineiro de Lavras, Cláudio Caçapa, de 38 anos, ganhou o respeito das torcidas de Atlético, Cruzeiro e Lyon-FRA. Encerrou a carreira em 2012 e se preparou para virar técnico. Assumiu o comando da Seleção Brasileira Sub-15 em novembro de 2013 e, ao lado do amigo Alexandre Gallo, coordenador das categorias de base da Seleção e técnico do Sub-20, tem a missão de renovar o futebol nacional. Em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, Caçapa falou sobre os efeitos do 7 a 1 para o futebol nacional, a impossibilidade de se copiar o futebol alemão e do desafio de formar novos talentos.
 
Como se preparou para ser treinador?
Fiz vários cursos, focando muito na parte teórica. Depois, fui para o trabalho de campo. Fiz cursos na CBF, fiz um estágio no Lyon. Me preparei bem. Mas ainda estou me preparando. Preciso aprender muito ainda.
 
Você e o Gallo, coordenador das categorias de base, têm uma amizade de longa data... Nossa amizade é muito boa. Perdemos o contato quando saímos do Atlético, no início da década de 2000, mas sempre tentamos trocar algumas ideias. Quando fui para o Avaí, ele era o treinador, e as conversas foram retomadas. Depois, surgiu esse convite para treinar a Seleção Brasileira Sub-15. 
 
Falando da Seleção, como será a preparação para o Sul-Americano Sub-15, que será realizado na Colômbia?
Antes do Sul-Americano, que será disputado no segundo semestre, teremos três torneios. O primeiro é o Torneio de Montaigu, que acontece de 1 a 8 de abril, na França. Pouco depois teremos o Delle Nazioni, que será disputado na Itália, de 20 a 28 de abril. Por fim, em agosto, teremos a Copa México de Nações. E acredito que esses três torneios serão pesados, já pensando no Sul-Americano, no qual teremos rivais como a Argentina, a Colômbia, o México e os EUA, que cresceram na formação de atletas.
 
Mas como é o trabalho na categoria. Há a cobrança por resultados? O que é mais importante: ganhar títulos ou formar atletas?
Se te falar que não existe cobrança, estarei mentindo. Existe e sempre vai existir. Afinal, somos o Brasil. Mas nossa prioridade será o Sul-Americano. Até porque na França e na Itália os torneios serão disputados por atletas nascidos até 1999, e vou com um grupo de atletas nascidos em 2000. Quero dar bagagem a eles.
 
Um ano de diferença é tão relevante assim nas categorias de base?
Esse um ano de distância no Sub-15 é impactante. Imagine: é um menino de 14 anos enfrentando um de 15. A força é outra. A velocidade é outra. A diferença já é menor quando um de 17 enfrenta um de 18.
 
A Seleção Sub-15 foi eliminada pelo Flamengo nas quartas de final da BH Cup, em dezembro passado. A que se deve essa queda precoce e como você trabalhou o psicológico dos seus atletas?
Entra justamente no que te disse. Enfrentei Flamengo e Atlético com jogadores de 15, estourando para 16 anos. E eu cheguei a jogar uma partida com um atleta que ainda tinha 13. Claro que não é desculpa, mas temos que separar as coisas. Nosso objetivo primordial na BH Cup era mostrar que são capazes de enfrentar atletas mais velhos, que podem jogar com quem tem um ano de diferença. E eles viram isso. Claro que quando uma seleção joga contra o clube surge uma “obrigação” de vencer. Mas temos que ver que o clube trabalha o ano inteiro, enquanto tive quatro dias para prepará-los.
 
No grupo que disputou a BH Cup, havia apenas um jogador de clube mineiro, no caso o volante Marco Antônio, do Cruzeiro. Por que está tão baixa a representatividade de Minas na Sub-15? 
No caso da BH Cup foi apenas coincidência e momento. Na primeira convocação que fiz, levei três do Atlético e um do Cruzeiro. Às vezes, temos que observar que determinado jogador não está disponível naquele momento.
 
Como se dá a comunicação entre você e os técnicos de base dos clubes? Você faz visitas periódicas?
Na Sub-15, além de conversar com os treinadores e ir pessoalmente aos jogos, tenho um observador, o Eduardo Oliveira. Ele me comunica sobre um torneio ou um jogador e debatemos.
 
Após quase seis meses, qual é a leitura que você faz dos 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil na Copa 2014, no Mineirão? Muitos entendem que o resultado deve ser visto como um divisor de águas para o futebol brasileiro, que deve se reinventar. O que podemos aprender com os alemães?
Muito se fala do modelo alemão. Da forma como se reinventaram após a Eurocopa de 2004, mas temos que ter a percepção de que a Alemanha é um país pequeno. Eles conseguem monitorar com mais facilidade o trabalho que vem sendo feito na base. Não por acaso, a maioria desses atletas passou pelas categorias de base. Cerca de 80%, 90% chegaram a atuar. E, no Brasil, a grande maioria não passou pela base. Um ou outro disputou Sul-Americano e Mundial. E isso pesa. Por isso, acho que o Brasil não pode copiar a Alemanha. Temos é de nos espelhar em alguns pontos. Como o toque de bola, a movimentação com e sem a bola, e pegar como base o trabalho tático em campo reduzido.
 
Mas o futebol brasileiro está realmente muito atrás do alemão?
Taticamente, sim. Tecnicamente, não. Eu vou te dizer que temos o melhor talento do mundo, a matéria-prima. Aqui vamos encontrar o maior número de atletas de alto nível técnico. Temos que nos espelhar neles nessa organização tática. Também observar toda a organização e trabalho para treinamentos e jogos, que, aí sim, temos de crescer muito, se comparado a eles.
 
Como está sendo feito esse processo de renascimento do futebol brasileiro?
Por ver essa lacuna, o (Alexandre) Gallo está tentando uma aproximação maior com os clubes. De julho para cá, tivemos quatro ou cinco encontros técnicos com diretores e técnicos da base. O Gallo quer trazer para perto todos os coordenadores e treinadores. Assim, conseguiremos dar uma nova cara para a formação de atletas de qualidade no país.
 
Como vem funcionando, efetivamente, a integração entre as seleções de base? Há a busca por um padrão, pela consolidação de uma escola?
Estamos tentando criar um padrão para todas. Não só para a parte técnica, mas na parte física.
 
E como deve ser a escola brasileira de futebol, tática e tecnicamente?
Nós, tecnicamente, somos muito bons. O grande diferencial seria trabalhar a parte física, que ainda estamos longe do ideal na base. Antigamente, os técnicos não faziam muitos treinamentos táticos na base. Hoje, esse trabalho é fundamental. 
 
Você cita a parte técnica, mas é muito comum observarmos jogadores profissionais sem fundamentos básicos em suas posições. Há um trabalho específico para aprimorar esses fundamentos?
Esse trabalho quem faz são os clubes. Claro que ressaltamos a importância de que eles estimulem os trabalhos voltados para os fundamentos técnicos, mas depende essencialmente deles. Não temos tempo para fazer isso com um garoto quando ele chega à Seleção. Trabalhamos a parte tática.
 
Os clubes reclamam da legislação atual, que pune o clube que aloja os atletas com menos de 14 anos, afirmando que se trata de um vínculo empregatício. Segundo eles, isso vem fazendo com que os jogadores da base percam uma etapa fundamental no processo de desenvolvimento. A queixa procede?
Essa legislação é muito prejudicial para a formação de atletas no país. Quanto mais novo o atleta ingressa no processo de desenvolvimento, mais condições ele terá de se destacar no futuro. E, no Brasil, perdemos dois anos nesse processo de formação. Para se ter uma ideia, na Europa o atleta pode ingressar nos alojamentos do clube a partir dos 12 anos. E vou ser sincero: a grande maioria desses atletas teria uma vida bem melhor no clube. É lógico que teria o aconchego da casa, conta muito. Porém, se pensarmos na alimentação, descanso e desenvolvimento, não temos como comparar.
 
Há algum movimento para mudar a legislação?
Tem um movimento para tentar mudar. O Alexandre Gallo teve uma reunião em Brasília. Querem acrescentar alguma coisa na Lei Pelé. Se reclama que o Brasil não revela mais como antigamente, mas hoje não podemos trabalhar mais esse atleta como outrora. Além da carga de treinos ser menor, jogamos menos campeonatos. No final disso tudo, quem você acha que estará mais preparado? Diz-se que as categorias de base dos clubes brasileiros e da Seleção priorizam atletas de maior estatura em detrimento da qualidade técnica... Alguns clubes têm isso, não vou negar. Mas vou ser sincero: jamais deixaria de ter um bom atleta somente por sua estatura. Quero o atleta em excelência. Tamanho não quer dizer nada. Tivemos grandes jogadores com baixa estatura. Um dos grandes exemplos é o Luizinho. Se jogasse hoje, iria deitar e rolar. Ele, o Gamarra...
 
O Alexandre Gallo está obcecado com o inédito ouro olímpico no Rio de Janeiro, em 2016. Essa conquista serviria para recuperar a reputação do futebol nacional?
Esse ouro olímpico servirá para coroar o país do futebol. É a única conquista que não temos. Temos tudo para conseguir isso. Muito pelo treinador, que é um grande conhecedor e conseguiu transmitir aos atletas o que quer.
 
Sobre esse perfil, o Alexandre Gallo chegou a punir alguns atletas por não apresentarem um comportamento que ele deseja. Essa postura é compartilhada?
Nós procuramos o atleta em excelência. Não falamos do jogador de bola. Queremos um jogador profissional a partir do momento que entrou para o treinamento. Queremos que ele aprenda a cada dia. Queremos um atleta com postura. Teve atleta da Sub-17 que ficou mais de um ano sem ser convocado, mesmo tecnicamente superior. Temos que evoluir. Não podemos fazer o que fizemos no passado. Hoje, os 11 precisam ter o mesmo nível psicológico.
 
Essa sequência no trabalho também se dá de Gallo para Dunga?
Cada um tem seu perfil, claro. Porém, se analisar, o que o Gallo falou é o que o Dunga tem tentado fazer. A Seleção quer englobar tudo. Queremos fazer um trabalho em conjunto. Quando um atleta subir da Sub-15 para a Sub-17 será o mesmo processo. A postura cobrada será a mesma. Queremos um atleta com o foco maior em jogar futebol e nos representando para o mundo inteiro.
 
Boa parte do público e da imprensa esperava por mudanças mais radicais na Seleção principal após a Copa 2014. O nome de Dunga foi visto como um retrocesso por muitos. Como vê isso?
Se formos analisar, qualquer treinador que chegasse não agradaria. Qualquer um. Fosse Guardiola ou Mourinho, alguns não veriam com bons olhos um treinador estrangeiro. Se fosse outro nome, poderia ser taxado de “retranqueiro”. O importante de ter o Dunga é que ele veio para comprovar que o trabalho dele feito no passado foi bom e poderia ter dado bons resultados.
 
A que você atribui o sucesso do futebol mineiro nos dois últimos anos?
Eu acho que se dá por organização. Entenderam que o time precisa ser mesclado com medalhões e jovens. O ano de 2014 foi fantástico. Dificilmente teremos um ano para o futebol mineiro como foi 2014. Dificilmente isso volta a acontecer. Mas tenho a certeza de que, mesmo que caiam um pouco, brigarão pelos primeiros lugares. Quero parabenizar os presidentes e comissão técnica. 
 
Atlético e Cruzeiro já podem ser considerados favoritos ao título da Libertadores e do Brasileiro?
Com certeza. Claro que futebol muda de um ano para o outro, às vezes até de um mês para o outro. Mas os dois mantiveram a base. Nenhum deles perdeu um titular absoluto. Estão muito fortes.
 
Por fim, você pretende seguir na Seleção ou aceitaria assumir o comando de um time de ponta no país ou no exterior?
Hoje, estou bem focado e satisfeito na Seleção. Gosto demais daqui e quero aprender o máximo possível na Seleção. Por isso, não me vejo em clubes nos próximos anos. Ainda quero aprender no dia a dia com o Caio Júnior, com o Gallo e com o Dunga. Depois, quem sabe...