Ele até já se acostumou e leva tudo no bom humor. Quem vê o armador Tony, do América, passeando por Belo Horizonte, pode até pensar que está diante de um daqueles temidos líderes muçulmanos.

O intervalo de dois anos longe do barbeador deixou o jogador, de fato, com um visual bem diferente.

“O povo me chama o tempo todo nas ruas de Taliban, Mohamed, Bin Laden. Eu acho graça. Esses foram também os primeiros apelidos que ganhei quando cheguei ao América”, conta um dos responsáveis por colocar o Coelho de volta à elite do futebol brasileiro.

Mas o estilo persa de ser, que ele vivenciou de perto durante sete meses quando jogou no Irã, em 2013, está com as horas contadas. Na reapresentação do time nesta quarta (25) à tarde, Tony vai literalmente mudar de cara.

O meia tinha prometido aos companheiros que se a equipe mineira subisse ele faria a barba em pleno CT Lanna Drumond.

“Acho até que vou levar minhas duas filhas pequenas para acompanhar, porque sei que vou ficar tão diferente que estou com medo de elas não me reconhecerem depois”, diz Tony, que nessa terça (24) recebeu o Hoje em Dia em casa, no bairro Ouro Preto, para uma prévia do que acontecerá nesta quarta (25) durante o treino.

Meio sem jeito, ele ensaiou as primeiras “navalhadas”. Custou a fazer espuma. O pincel escorregava o tempo todo. “Não sei o que é fazer isso desde dezembro de 2013. Nem tinha mais barbeador em casa. Vai dar trabalho para tirar isso tudo”, disse Tony.

A barba que ganhou notoriedade na campanha do América rumo à Série A começou a crescer mesmo bem antes do jogador chegar ao time mineiro, em abril deste ano.

“Meu pai sempre foi barbudo”, conta, mostrando, com orgulho, a foto de Antônio Geraldo de Carvalho, 61, que mora em Amaralina, interior de Goiás.

“Aí, quando eu fui jogar no Irã, em 2013, este tipo de barba era muito comum lá. Então eu resolvi deixar. Mas no América acabei deixando crescer ainda mais. Agora este tipo de barba também está muito comum aqui no Brasil.”

Apesar do estilo durão do técnico Givanildo Oliveira, Tony garante que o treinador nunca se importou com o visual diferente. “Ele é muito tranquilo. Não falou nada quando comecei a deixar crescer assim, nem agora que vou tirar”, brinca. Durante o período, Tony usava apenas uma tesoura para acertar os pêlos.

Antes de chegar ao América, o meia estava no XV de Piracicaba. Nascido na capital paulista, o meia já vestiu também a camisa de Botafogo, Ceará, Ponte Preta e Esteghlal Tehran, do Irã.

Agora, Tony acredita que a boa campanha do Coelho na temporada o recolocou novamente no cenário do futebol nacional.

Entrevista

Além de ter um visual muito parecido com o dos muçulmanos, você viveu no Irã. Como foi essa experiência com a cultura deles?

Foi uma experiência diferente. Saí do Brasil bastante apreensivo, mas não tive nenhum problema lá. Minha visão mudou completamente. Eu voltaria a morar lá sem o menor problema. O pessoal naquela região é bastante extremista em questão de religião e política. Morei em Teerã. Eles são muito religiosos, mas esta questão de violência e conflitos está bem tranquila lá atualmente. Agora, do outro lado na Síria, Paquistão, Iraque é mais complicado.

O que mais chamou a atenção nesse período no Irã?

O povo fala muita coisa dos muçulmanos. Mas uma cena me chamou muito a atenção. Uma certa vez, aconteceria uma execução em praça pública. Fiquei curioso com este tipo de situação e cultura, e fui acompanhar. É muito diferente da nossa aqui. Na hora da execução, a mãe da vítima perdoou o acusado, que tinha matado o seu filho em uma briga, e ele acabou livre. Este é o mais claro exemplo de que não podemos generalizar em qualquer situação. Eles sofrem muito este tipo de preconceito. Falo muito com meus amigos de lá e eles têm essa tristeza sim.

Voltando a falar do América, o que foi fundamental para este time conseguir o acesso?

A diretoria teve muita sensibilidade para montar um time com jogadores de qualidade e que não são caros. Muitos atletas ali, como é o meu caso, estão querendo mostrar serviço. Acho que este foi o grande diferencial do América.

Seu contrato vence agora no fim da temporada. Já houve alguma conversa para tratar da renovação?

Ainda não. A gente estava bem focado no acesso. Agora eles devem começar a chamar os jogadores que eles têm interesse que permaneçam para conversar.

Mas o seu pensamento é ficar?

Eu gostaria muito. Tenho propostas de clubes do Brasil e do exterior, mas estou muito adaptado à cidade e ao clube. Minha esposa e minhas filhas gostam muito daqui. Se depender de mim, eu quero continuar, sim.

O que costuma fazer em BH nos momentos de folga?

São raros, mas gosto muito de ir a bons restaurantes com minha esposa. Também adoramos passear com as crianças na Lagoa da Pampulha, no Parque Guanabara; fui outro dia no Topo do Mundo (restaurante) e adorei. A cidade é muito boa.

Como o América trata este jogo de sábado contra o Botafogo, o último da Série B?

Estamos aliviados com o acesso, mas vamos brigar pela segunda posição, que pode até nos dar uma vaga na Copa Sul Americana.