A bola não está rolando por causa da pandemia de coronavírus, mas o futebol mineiro segue agitado, com crises distintas em cada lado, e enfrentando situações que apagam o brilho do esportes, como episódios de homofobia. Na última quarta-feira (20), durante uma transmissão ao vivo no Instagram, representantes da torcida cruzeirense "Marias de Minas" sofreram ofensas e ameaças de morte.

Naquele dia, o grupo comemorava um ano de existência com uma live sobre as eleições no clube (que aconteceriam no dia seguinte) e expectativas para a retomada da temporada, numa conversa mediada pelo jornalista do Hoje em Dia, Guilherme Piu, que também foi agredido com comentários de baixo calão.

Com o apoio de entidades de combate à LGBTIfobia, como a Aliança Nacional LGBTI+, além do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, tanto o jornalista como o "Marias de Minas" farão boletim de ocorrência na delegacia especializada contra a homofobia e entrarão com uma ação contra os criminosos.

"Nunca tínhamos recebido ameaças diretas. Antes só tínhamos ouvido comentários sobre a gente. E a primeira vez aconteceu justamente quando comemorávamos um ano de fundação do grupo", lamenta Yuri Senna, que integra o "Marias de Minas" com mais 70 torcedores do Cruzeiro.

Os comentários criminosos começaram a ser postados com apenas três minutos de live, e foi preciso que os organizadores desativassem a participação para que eles cessassem. A live não está disponível no Instagram do grupo, devido ao encaminhamento que será feito na Justiça para punir os autores.

Um print vem sendo divulgado pelas organizações com as principais ofensas, em que os usuários tiveram os nomes borrados. De acordo com Senna, são seis perfis, quatro deles reais. Um já tinha feito comentário ameaçador em outra oportunidade, publicando a imagem de uma arma com os dizeres: "Estou de olho de vocês!".

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Comentários também são ofensivos ao jornalista Guilherme Piu, que participou da transmissão

 

Senna salienta que esse tipo de agressão "dá medo", mas que, ao mesmo tempo, imprime mais força para lutar pela democratização das torcidas. Desejo que está explícito na nota de repúdio publicada pelo "Marias de Minas": "Não vamos recuar. A luta só deve cessar quando a guerra não mais existir".

Para Guilherme Piu, o futebol é o esporte mais popular do Brasil e todos os torcedores, sem distinção de raça, cor e gênero, têm o direito de manifestar a paixão não só pelo clube do coração, mas também por tudo que move o universo esportivo.

O jornalista considera que o "Marias de Minas" é resultado de "uma luta por espaço e representatividade importante" e que ela se dá "num meio tão homofóbico e machista como o do futebol". E frisa: "Vou lutar junto com eles. Não só pelo que senti na pele, mas por tudo que aprendi e aprendo ao longo do tempo".

O diretor presidente do jornal Hoje em Dia, Luciano Resende, lamentou o ocorrido e presta solidariedade ao coletivo e ao repórter Guilherme Piu. Informou ainda que o departamento jurídico da empresa está à disposição do colaborador e que repudia veementemente qualquer tipo de ameaça ou ação violenta que possa ser desencadeada por uma reportagem, debate ou opinião apresentada por qualquer funcionário, mesmo que não seja diretamente em nosso veículo.

Até o fechamento desta reportagem, o Cruzeiro ainda não havia se manifestado sobre o episódio.