Alta no preço

Combustível caro faz motoristas de aplicativo buscarem outras fontes de renda

Jader Xavier
@ojaderxavier
Publicado em 20/06/2022 às 07:40.
Beré Silva, que afirma ser um dos motoristas de Uber pioneiros em BH, agora trabalha como desenvolvedor de startups (Arquivo Pessoal)

Beré Silva, que afirma ser um dos motoristas de Uber pioneiros em BH, agora trabalha como desenvolvedor de startups (Arquivo Pessoal)

A alta no preço dos combustíveis está entre as principais causas na redução do quadro de motoristas de aplicativo. Segundo a Associação dos Motoristas por Aplicativos de Minas Gerais (Asmopli - MG), houve uma redução de 30% (2.700) dos associados no Estado desde o início do ano. E quem ficou muitas vezes usa o aplicativo esporadicamente, apenas para conseguir uma grana extra para abastecer o carro. Isso estaria gerando uma dificuldade maior dos usuários do serviço para conseguir viagens.

No acumulado dos últimos 12 meses até maio, o IPCA dos combustíveis teve alta de 30,25% em Belo Horizonte e região metropolitana. Para a gasolina, de 29,68%; a do etanol, 28,40%. Até semana passada, o preço médio do litro da gasolina nas bombas dos postos da Grande BH era de R$ 7,44 e o do álcool, R$ 5,17, segundo o último levantamento do Mercado Mineiro. Na sexta-feira (17), a Petrobras anunciou um novo reajuste, desta vez de 5,18% na gasolina.

Segundo a Asmopli, mais de 40% dos condutores de aplicativo usam carros alugados, o que gera um gasto médio semanal de R$ 500. Somando o abastecimento, seria preciso rodar cerca de 12 horas diárias para conseguir uma margem de lucro viável.

“A grande maioria (dos motoristas) deixa de trabalhar no aplicativo por causa dos altos valores (custo). Não está dando para acompanhar o valor dos combustíveis, entre outros insumos do veículo”, afirma o desenvolvedor de startups Beré Silva, de 44 anos.

Ele se apresenta como um dos primeiros motoristas registrados na Uber, em Belo Horizonte, ainda em 2014. Apesar de continuar cadastrado na plataforma, diz que quase nunca liga o aplicativo atualmente, exceto quando precisa abastecer o veículo.

Presidente da Asmopli-MG, Sérgio Nascimento diz que muitos colegas decidiram deixar de ser motoristas por causa do custo. “Às vezes o condutor prefere deixar de trabalhar o dia inteiro, sem conseguir pagar o mínimo das dívidas, para ficar em casa, arrumando um bico ali e outro aqui e sobreviver dessa forma”, conta.

É o caso de Cleyton Oliveira, de 39 anos, que era motorista do aplicativo 99 pop em Belo Horizonte. “Acabei não conseguindo manter o trabalho em BH. Estou em Ilhéus, na Bahia. Trabalho como eletricista agora e viajo sempre pegando serviço”.

Já Rafael Filgueiras, de 29 anos, buscou alternativa no trabalho formal. De 2017 até o início deste ano, ele tinha os aplicativos como a principal renda. Mas não deu conta de continuar. “Vendi meu carro para ficar livre de prestação e seguro. Aluguei um veículo. Mas o combustível disparou, e a locadora aumentou o valor do aluguel em 7,5%, passando de R$ 492,93 para R$ 529,89. Pra mim foi a gota d’água. Desde março trabalho numa concessionária de veículos como vendedor”.

Além disso:

Procurados pelo Hoje em Dia, três dos aplicativos de viagens que atuam em BH não confirmaram redução do quadro de colaboradores, mas também não informaram quantos motoristas estão ativos atualmente. A justificativa dada para a maior dificuldade dos usuários em conseguir viagem é “aumento de demanda” por causa da pandemia, que teria feito as pessoas fugirem do transporte coletivo. 

A Uber afirmou, em nota, que lançou um pacote de medidas “para ajudar a mitigar os custos dos motoristas parceiros com a mais recente alta dos combustíveis”. Garante ter investido R$ 100 milhões em promoções e parcerias, ter aumentando o preço das viagens em 6,5% e ter viabilizado 20% de desconto no abastecimento por meio de parceria com uma rede de postos de combustíveis e o aplicativo Abastece-aí.

A 99 pop informou ter lançado em março um auxílio aos motoristas de R$ 0,10 por quilômetro rodado para cada R$ 1 de aumento do combustível, de acordo com o valor da gasolina medido pela ANP (Agência Nacional de Petróleo). Além disso, o aplicativo diz que os trabalhadores recebem “100% do valor das corridas em períodos e cidades específicas”. A InDrive não respondeu o contato do Hoje em Dia até o fechamento desta matéria.

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