Tensão mundial

Entenda o conflito entre Rússia e Ucrânia e qual o impacto disso para o mundo, inclusive o Brasil

Raquel Gontijo e João Paulo Oliveira
portal@hojeemdia.com.br
22/02/2022 às 20:20.
Atualizado em 24/02/2022 às 10:20
 (Alexei Druzhinin/Kremlin/Divulgacao The White House)

(Alexei Druzhinin/Kremlin/Divulgacao The White House)

Há semanas, os olhos do mundo se voltam para o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, no leste da Europa, que estão à beira de um embate militar. E, nesta terça-feira (22), o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou novas sanções contra a Rússia, em resposta às ações do líder Vladimir Putin. E deixou clara a intenção de ampliar as punições caso a situação piore.  

A relação diplomática entre os dois países que faziam parte da extinta União Soviética está estremecida desde 2014, quando os russos anexaram ao próprio território a península da Crimeia, no Sudeste da Ucrânia. 

A exigência do presidente russo agora é que o Ocidente garanta que a Ucrânia não se torne membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), uma aliança internacional militar que reúne cerca de 30 países.

Mas, para entender o receio de Putin à inclusão da Ucrânia na OTAN é preciso relembrar o contexto político da época em que a organização surgiu, no período pós-Guerra Fria, e dos principais objetivos da entidade.

E o que o Brasil tem a ver com isso? 

Mesmo situado geograficamente a centenas de milhares de quilômetros da Rússia e da Ucrânia, é preciso compreender que o mundo opera em uma economia globalizada e que o Brasil também sofre impactos políticos e econômicos.

Para explicar tudo isso, o Hoje em Dia conversou com o professor de Direito Internacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Lucas Carlos Lima. 

O começo

A OTAN surgiu em 1949, no período pós-Segunda Guerra Mundial e durante a Guerra Fria, um período de tensão geopolítica entre a União Soviética e os Estados Unidos, que só terminou com a dissolução dos soviéticos em 1991.

Na incerteza de um novo conflito militar mundial, a OTAN surge como um mecanismo de defesa e segurança para os países membros frente a agressões externas. O principal objetivo da organização era inibir o avanço do bloco socialista, composto pela União Soviética e seus aliados, para o continente europeu.

“Pode-se dizer que a OTAN é o início de tudo, é a desculpa oficial de Moscou”, explica o professor Lucas. Historicamente, a Rússia sempre quis garantir que a expansão da OTAN fosse freada. Isso porque, além dos motivos econômicos, a OTAN é uma aliança que utiliza de recursos militares para defesa dos países membros.

“A Rússia não se sente confortável com a expansão da OTAN. Se a Ucrânia se tornar membro da organização, vira uma questão preocupante para os russos, porque os ucranianos estariam protegidos pleo Artigo 5 do Tratado, que prevê o ataque ao país da Otan é considerado um ataque a todos os membros da organização, que devem assistir o país atacado."

Segundo reportagem da emissora britânica BBC, Putin também argumenta que se a Ucrânia entrar na OTAN, a aliança pode tentar recapturar a Crimeia, território anexado à Rússia em 2014.

Independência de Donetsk e Lugansk

Apesar da dissolução da União Soviética, diversos governos locais socialistas sobreviveram na Europa oriental, incluindo a Ucrânia. Entre outros motivos, é em nome destes povos que o presidente russo justifica a invasão ao território Ucraniano. Além de ser uma ex-república soviética, o país tem laços sociais e culturais com a Rússia, e o idioma russo é amplamente falado por ucranianos.

A crise atual envolve a região de Donbass, situada ao leste da Ucrânia, na fronteira com a Rússia. Nessa região, existem duas repúblicas populares, consideradas pró-Rússia: Donetsk e Lugansk. Nessa segunda-feira (21), Putin assinou um decreto que reconhece a “independência” das duas regiões por parte do governo russo. 

A Rússia alega que quer manter a paz dos seus povos e utiliza a anexação e expansão do território ucraniano como argumento jurídico. “No princípio do Direito Internacional, Putin está usando o conceito de Autodeterminação dos Povos - algo que ele já utilizou para a anexação da Crimeia, em 2014. Mas que não implica, necessariamente, um direto à secessão ou independência de um Estado”, explica o professor. 

Quando as tensões entre Rússia e Ucrânia começaram a aumentar no início deste ano, muitos separatistas que vivem em Donetsk e Lugansk fugiram para o território russo. Agora, após o reconhecimento oficial dessas repúblicas por Putin, a imprensa internacional estima que cerca de 150 mil soldados russos tenham sido deslocados para a fronteira com a Ucrânia.

Ainda assim, o presidente russo chamou a manobra de “manutenção da paz”, de acordo com a emissora estatal britânica BBC. Ele afirma que não quer uma guerra e que está disposto a negociar.

O problema é que as ações recentes da Rússia, em especial o reconhecimento da independência das duas repúblicas autoproclamadas e o encerramento dos dois acordos de paz de 2014 e 2015 com a Ucrânia, assinados em Minsk, na Bielorrússia, estão inviabilizando qualquer negociação com o governo ucraniano, diz a reportagem.

Acessso ao Mar Negro

Mesmo alegando a proteção das repúblicas e dos povos russos, há também um forte interesse econômico de Putin, segundo o professor Lucas Carlos Lima. Ele explica que, com as regiões, uma vez declaradas independentes, “do ponto de vista estratégico e geográfico, a Rússia terá um corredor de acesso até a região da Crimeia e um corredor direto para o Mar Negro”, esclarece o acadêmico.

Para a Rússia, que possui outros pontos de acesso ao oceano, os portos do Mar Negro são importantes para o escoamento da produção nacional, sobretudo de navios petroleiros. A intensidade de navios mercantes cruzando suas águas, fazem do Mar Negro uma das vias marítimas mais movimentadas do mundo.

Consequências econômicas

Nesta terça-feira, de acordo com a BBC, o premiê do Reino Unido, Boris Johnson, anunciou sanções contra cinco bancos e três bilionários da Rússia, com o objetivo de atingir a economia e o governo russos. 

Também nesta terça, Joe Biden anunciou a proibição de novos investimentos, comércio e financiamento por americanos nas regiões separatistas. As sanções econômicas de Biden atingem duas instituições financeiras russas e impedem negociação de novos papéis da dívida pública russa no mercado.

Outro ponto chave em negociação para impedir a invasão de Putin, segundo a emissora britânica, é a abertura do gasoduto multibilionário Nord Stream 2, um projeto de 1,2 mil km que vai do oeste da Rússia ao nordeste da Alemanha sob o mar Báltico.

O primeiro-ministro alemão, Olaf Scholz, anunciou também nesta terça a interrupção do processo de certificação do gasoduto. A infraestrutura está concluída, mas empresa estatal russa dona do gasoduto, ainda aguarda aprovação do órgão regulador da Alemanha para abrir as torneiras.

Ao Hoje em Dia, Lucas Lima explicou que a ameaça da Rússia ao território ucraniano vai além de repercussões econômicas. Para o professor, há implicações sociais. “Os países europeus terão mais inseguranças nas fronteiras e, provavelmente, vai ter uma onda de refugiados da Ucrânia e de países vizinhos”, alertou.

Consequências para o Brasil

No Brasil, a crise vai respingar na política externa e na economia. Apesar de não declarar apoio aos ex-soviéticos, Lima explica que a recente visita de Bolsonaro à Rússia e o encontro com Putin levantou uma desconfiança dos americanos. 

Nesta semana, diversas bolsas de valores dos Estados Unidos e da Europa registraram queda. “Vendo o Brasil em uma situação econômica fragilizada, é provável que uma crise mundial piore o cenário interno no Brasil”, esclarece o professor.

Existe solução?

Apesar de as autoridades mundiais vislumbrarem cada vez mais o risco da invasão russa na Ucrânia, os EUA e os países ocidentais já deixaram claro que não pretendem socorrer os ucranianos com tropas, conforme informou reportagem da BBC.

No pronunciamento desta terça-feira, o presidente americano Joe Biden afirmou não ter nenhuma intenção de lutar contra a Rússia e descartou a possibilidade de envio de tropas americanas na Ucrânia.

Para ele, o confronto entre soldados americanos e soldados russos, significaria uma "nova guerra mundial". Os dois países detêm poderoso arsenal nuclear, o que os manteve em uma tensão militar por décadas no século passado, na Guerra Fria.

Segundo o professor Lucas Lira, a Organização das Nações Unidas (ONU) está no auge das conversas diplomáticas, tentando evitar um conflito maior entre os países e fazendo pressão sobre o governo russo.

No entanto, os ucranianos já estão se preparando para um possível combate.

A rede britânica BBC alertou também que a Rússia detém a segunda maior potência militar e arsenal nuclear do mundo. 

Fato é que um contingente de 150 mil soldados russos está posicionado a poucos quilômetros da fronteira com a Ucrânia. O que vai acontecer em seguida, na visão dos especialistas, pode colocar em perigo toda a estrutura de segurança da Europa e do mundo.

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