As ruas estão demarcadas e as casas, numeradas. Em todos os cantos é possível ver pequenos comércios, como bares e mercearias, além de uma igreja católica e outras oito evangélicas. Uma das ocupações mais antigas de Belo Horizonte, a Dandara possui uma estrutura urbana organizada, mesmo que a área não tenha sido regularizada. Lá, vivem cerca de 8 mil pessoas, um número maior do que a população de aproximadamente metade dos 853 municípios do Estado. 

Criada há oito anos em um terreno do bairro Céu Azul, região da Pampulha, a Dandara é uma das 26 ocupações não regularizadas da capital. Nessas regiões não há serviços públicos como limpeza urbana, transporte e entrega de correspondências, mas os moradores se organizam para que as necessidades sejam supridas por meio de um trabalho coletivo.

Não existe um censo das ocupações da capital, mas pesquisadores estimam que nelas morem 25 mil famílias

Antes que as 1.800 famílias construíssem as casas delas, arquitetos e urbanistas voluntários fizeram a demarcação de ruas e lotes do Dandara. Depois, os moradores foram divididos em nove grupos, organizados por coordenadores. 

“Aqui, cada um ajuda o outro. Ano passado, a Copasa começou a trazer a rede de água para a comunidade. Hoje estou com as chaves das casas de seis vizinhos, esperando pelos técnicos que vão fazer as ligações”, conta Ângela Fagundes Pinto, de 58 anos, uma das coordenadoras da ocupação.

Segundo ela, os líderes são referência para os outros moradores em diversos assuntos. “No início nos chamavam para tudo, até para separar briga de marido e mulher. Era muito comum nos acionarem para ajudar a levar alguém para o hospital, porque o Samu não vinha até aqui. Mas depois que uma pessoa morreu e fizemos uma grande manifestação, o Samu passou a entrar”. 

Para que a convivência seja a melhor possível, todos colaboram. Como não há coleta no Dandara, os moradores são obrigados a levar o lixo para as grandes cestas que ficam nas entradas da ocupação.

Segurança
A organização da comunidade também é importante para a segurança do lugar. “Não pode cocaína e crack. Se aparece alguém com isso, os próprios moradores expulsam. Também não pode bater em mulher. Quem fizer isso é colocado pra fora”, afirma Ângela. 

Comandante da 15ª Companhia do 49º Batalhão da Polícia Militar, o major Claudio Silva afirma que a criminalidade é bem controlada na região. “Há alguns casos de uso de drogas e tráfico, como há em outros bairros. No Dandara não acontecem muitos assaltos, mas sabemos que algumas pessoas assaltam nos bairros vizinhos e fogem para lá. Mas temos uma parceria muito boa com as lideranças e fazemos patrulhamento permanentemente”, afirma. 

Dandara

DEMARCAÇÃO – Placa indica uma das quatro entradas da ocupação do Dandara

Eliana Silva tem água, luz elétrica e creche comunitária

Localizada na Vila Santa Rita, região do Barreiro, a ocupação Eliana Silva é referência na cidade em relação à organização. Tanto que lá moram algumas das lideranças do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB). 

Em cinco anos de ocupação, os moradores já tiveram conquistas importantes. Há um ano a Copasa instalou a rede de água no bairro e a Cemig vem instalando, há três meses, pontos de energia elétrica para os moradores e postes para iluminação pública. 

As casas são menores e mais simples do que as da ocupação Dandara, mas é perceptível uma preocupação maior em investimento de espaços de convívio coletivo. A comunidade de aproximadamente 330 famílias conta com biblioteca, campinho de futebol e horta.

A Prefeitura de BH iniciou o cadastramento das famílias da Dandara e Izidora para a inserção dos moradores no Sistema Único de Saúde (SUS) de forma integral 

Um dos principais diferenciais da Eliana Silva é a creche comunitária, feita em parceria com o Movimento Olga Benário – que construiu uma rede de apoiadores que doam alimentos, mobiliário e materiais de construção para a iniciativa. 

Seis voluntárias trabalham na creche que abriga 25 crianças, das 7h às 19h. Os pais pagam R$ 60 por mês e esse valor ajuda a custear o espaço. O que sobra é rateado entre as voluntárias. 

Rosemary Luzia de Souza, de 49 anos, é líder comunitária. “As crianças almoçam e tomam banho na creche. Estamos agora ampliando o espaço”, conta a ex-comerciante que pagava R$ 600 de aluguel no bairro vizinho antes de se mudar para a Eliana Silva.

Compromisso
No início da ocupação, todas as famílias assinaram um regimento em que se comprometiam a não vender ou alugar a casa construída. “Caso alguém queira se mudar, terá de passar para outra pessoa pelo valor gasto com a construção. Existe uma lista de espera de famílias que querem se mudar para cá”, explica Rosemary. Por enquanto não há comércio na ocupação. A ideia é mostrar ao poder público que a luta da Eliana Silva é por moradia. 

Padeiro começou com um forno pequeno e hoje conta com duas lojas
O padeiro Julio Sergio da Costa, de 44 anos, afirma ter chegado ao Dandara com a roupa do corpo. No início de 2010, comprou um forninho para fazer pães e vender aos vizinhos da janela do quarto. Quando os moradores se reuniam para um protesto, ele fazia várias fornadas para distribuir entre manifestantes. O negócio deu tão certo que em agosto de 2015 abriu uma padaria, contando com o irmão como sócio. “Ele pegou R$ 3.500 de empréstimo no banco e levantamos a estrutura do imóvel com esse dinheiro”, conta Julio, que não deixou de fabricar os produtos no endereço antigo. “Os moradores da parte de baixo do bairro também querem um pão quentinho”. No comércio do Dandara, um negócio em especial chama a atenção: na ocupação existem quatro lojas de materiais de construção.

“Se um movimento acompanha de perto uma ocupação, a possibilidade de uma comunidade perseverar de forma organizada é maior. A luta educa a pessoa, mostra a ela como o mundo é desigual”. Frei Gilvander - Pastoral da terra 

Assembleias quinzenais e mensalidade de R$ 10 entre os moradores 
Os moradores da Eliana Silva gostam de falar sobre quanto se sentem seguros na ocupação. Em cinco anos houve uma morte, um homem que assassinou a companheira. “A polícia faz patrulhas frequentes. Os policiais deixam o carro na rua de cima e entram a pé na comunidade”, conta a motorista Indianara da Conceição, de 38 anos. Para eles, o segredo para que não haja violência no local é o trabalho das lideranças. A cada 15 dias são realizadas assembleias e os moradores pagam R$ 10 por mês para custear investimentos com advogados e manifestações. As festas comunitárias também são importantes para a união. Até mesmo o Natal é feito com uma ceia coletiva. “Não temos igrejas aqui, mas recebemos cultos ecumênicos dos freis da Pastoral da Terra”, conta Rosemary Luzia de Souza, uma das líderes da ocupação. 

Déficit habitacional na capital mineira motiva a criação de comunidades
O déficit habitacional em Belo Horizonte é o principal motivo para que as ocupações irregulares tenham crescido tanto nos últimos dez anos na capital. “Isso é reflexo do modelo de urbanização que tem dificuldade de inclusão das pessoas de menor renda. As áreas de melhor infraestrutura acabam se valorizando e as pessoas de menor renda ficam cada vez mais distantes. Há uma fragilidade nas políticas educacionais. O ‘Minha Casa, Minha Vida’ é muito relevante do ponto de vista quantitativo, mas não deu conta de reverter o desequilíbrio do tecido urbano”, afirma o arquiteto e urbanista Sérgio Myssior. Para ele, o Estado não pode fechar os olhos para as ocupações e precisa desenvolver políticas públicas duradouras para essa demanda, permitindo, inclusive, que a população desses espaços tenha acesso a serviços públicos básicos.