Há décadas, era comum mulheres se casarem novas e logo terem filhos. O trabalho e os estudos ficavam em segundo plano, já que constituir uma família grande era a prioridade. Os anos se passaram, e o quadro, aos poucos, se inverteu. É crescente o número de mulheres que, ao priorizar outros objetivos na vida, deixam a gravidez para depois dos 30 anos.

Dados do estudo “Saúde Brasil”, desenvolvido pelo Ministério da Saúde, mostram que a quantidade de mães balzaquianas subiu quase oito pontos percentuais em dez anos, passando de 22,5% em 2000 para 30,2% em 2012. Em contrapartida, diminuiu o número de mulheres que tiveram filhos abaixo dos 19 anos – de 23,5% para 19,3%.

Em Minas, a situação não é diferente. De acordo com dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES), em 2013, 82.603 crianças nasceram de mães com idades entre 30 e 39 anos – 1.352 a mais do que em 2012 (81.251).

 

Planejamento

Não é difícil encontrar mulheres que se encaixem nessas estatísticas apresentadas pela SES. A fonoaudióloga Mariana Lott, de 33 anos, é uma delas. Grávida de seis meses, ela priorizou a carreira e a vida financeira para depois projetar a vinda de um filho. “Sou profissional liberal, não tenho 13º salário, nem férias. Então meu planejamento tinha que ser maior. Por isso investi na minha clínica primeiro e também no lado pessoal, fazendo viagens”, conta.

Casada há cinco anos, Mariana diz que só agora, já com uma certa estabilidade, o casal optou por aumentar a família. “Valeu a pena esperar esse tempo, e acho que hoje estou no meu momento certo”, destaca.

 

Evolução

Para a psicóloga e terapeuta sexual Cida Lopes, essa busca pela estabilidade é um dos principais motivos para o adiamento da maternidade, já que o mercado de trabalho está cada vez mais exigente, e apenas o curso superior não tem sido suficiente.

Além disso, a forma como a sociedade enxerga a mulher mudou. “Antes, era sinônimo de maternidade. Hoje, ela tem outros projetos, quer construir carreira, viajar e concretizar planos distintos. O filho não entra nessa lista tão de imediato”, explica.

A especialista ainda lembra que o fácil acesso a métodos contraceptivos contribui para um melhor planejamento da vida feminina. “O sexo era visto como algo para procriação, e a pessoa não tinha como evitar uma gravidez. Agora não, a mulher vai engravidar se ela quiser, porque recursos para evitar ela tem. Todos esses fatores acabam mudando uma realidade que hoje não cabe mais”, exemplifica.

 

Opção pelo desenvolvimento da vida acadêmica define planos e gera cobranças da sociedade

A linguista Raquel Abreu-Aoki, de 35 anos, trabalha muito e uma das suas paixões é o estudo. Doutoranda na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e casada há dez anos, a maternidade ainda é uma questão em aberto na vida dela. 

Nesse período, Raquel fez uma pós-graduação e um mestrado, participou de congressos pelo país, viajou diversas vezes em função do trabalho, além de ter escrito diversas publicações e capítulos de livros. Agora, cursando o doutorado, ela deu uma diminuída na rotina. “Houve uma época em que eu viajava a cada 15 dias, e ser mãe nessa situação é complicado, porque eu penso que o filho tem que ser criado pela mãe. Não posso delegar para minha família ou para a escola”, afirma.

A psicóloga Riviane Bravo tem 30 anos e também está dando continuidade à formação profissional. Faltam quatro anos para ela terminar o doutorado, e há a possibilidade de ela ir para fora do país apresentar uma pesquisa que realizou. Filho antes disso? Nem pensar, segundo ela. “Meu objetivo é buscar desenvolvimento na carreira”, resume. 

 

Cobranças

As duas mulheres contam que, vez ou outra, passam por preconceito pela escolha que fizeram.

Riviane diz que a sociedade acredita ser uma regra ter filhos depois de se casar. “Todos ficavam me cobrando quando me casei. Cheguei a escutar que é absurdo, que eu não seria completa, e no início eu me chateava. Hoje, criei uma maturidade. No futuro posso mudar de ideia, mas não é prioridade por agora”, define.

Raquel afirma já ter ouvido diversas vezes que só vai conhecer a felicidade após ser mãe. Mas para ela, o filho deve ser um projeto de vida para completar e não para ser a plenitude da existência. “Temos que tirar o preconceito e os estereótipos porque eles travam o papel social da mulher”, acredita.

Mas a terapeuta sexual Cida Lopes alerta que a escolha deve ser muito bem avaliada, afinal a sociedade mudou, mas o relógio biológico da mulher, que limita as possibilidades de gravidez com o tempo, continua o mesmo.

“Devido a todas as tecnologias da medicina, as pessoas criam outras possibilidades. Mas é importante a mulher pensar realmente no que é melhor e não decidir apenas por uma fase que ela esteja vivendo”, observa. 

 

Obra de escritor francês deu origem à expressão balzaquiana

Na primeira metade do século 19, a publicação do livro “A Mulher de Trinta Anos”, do escritor francês Honoré de Balzac, deu origem à expressão “balzaquiana”. Até hoje, o termo é utilizado para se referir às mulheres que chegam à terceira década de vida.

Na obra, a personagem Júlia d’ Àiglemont foi descrita como uma pessoa mal-casada e infeliz. Aos 30 anos, porém, deu um novo rumo à própria existência.

Apesar de já estar velha, considerando a baixa expectativa de vida daquele século, foi nessa idade que Júlia encontrou o verdadeiro amor, nos braços de Carlos Vandenesse.

A narrativa motivou grande escândalo entre alguns leitores, pelas convenções sociais que vigoravam na época. Fugindo dos padrões franceses do século 19, o autor Honoré de Balzac apresentou uma personagem de 30 anos que não era, necessariamente, uma “coroa”. No texto, ele valorizou a beleza e a experiência de Júlia.

Se por muitos anos as balzaquianas tiveram que conviver com todo o estigma que a expressão trazia, hoje, a situação é bem diferente. Agora, as mulheres de 30 anos são consideradas maduras emocionalmente, sensuais, realistas e vividas – características prezadas nos dias atuais.