“As pessoas nunca me deixam esquecer que sou negro. Você tem o tempo todo provar que é muito bom”. A afirmação do secretário municipal de Segurança e Prevenção de Belo Horizonte, Genilson Zeferino, evidencia que o racismo independe de classe social ou sucesso profissional. A intolerância e o preconceito de parte da sociedade perseguem quem supera as diversas barreiras encontradas ao longo da vida por conta da cor da pele. Indicativo de que a luta pela igualdade racial é constante, obrigando quase a um estado de vigília. 

Assim como Zeferino, outros profissionais bem-sucedidos sofrem com o racismo institucionalizado. Casos da doutora em Educação Vitória Régia Izaú, a médica e cantora Júlia Rocha, o arquiteto e cenógrafo Cristiano Cezarino, o diretor da Faculdade de Medicina da UFMG, Humberto José Alves e a professora universitária Maria José Ranuzia.

Criada na Rocinha (RJ), Vitória Régia Izaú transformou a própria realidade por meio do estudo e do ativismo. Mesmo com um doutorado no currículo, a professora da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) se vê obrigada a driblar o preconceito o tempo todo.

vitória izaú

Vitória Izaú é referência no estudo sobre inclusão social e racial

“Uma vez uma mulher entrou na faculdade procurando pela coordenadora do curso e, ao saber que era eu, ela riu. Achou surpreendente se deparar com uma mulher negra ali. Por isso, não me vejo dentro de um discurso de vencedora. Estou dentro de um grupo historicamente massacrado, subrepresentado em vários lugares de poder. Nossa luta é árdua e diária”, afirmou a professora.

Representatividade

Embora os pretos e pardos tenham passado a ocupar a maioria das vagas do ensino superior da rede pública no Brasil em 2018, conforme dados do IBGE, muito deve ainda ser feito para que eles alcancem postos de destaque dentro de grandes empresas e nas esferas de poder político e econômico.

No ano passado, segundo o IBGE, os pretos e pardos ocupavam apenas 29,9% dos cargos gerenciais no país, apesar de serem 55,8% da população. 

Um avanço importante já pôde ser verificado em um dos espaços mais nobres da academia. No ano passado, pela primeira vez, um negro assumiu o cargo de diretor da Faculdade de Medicina da UFMG. Professor de anatomia na instituição desde 1982, Humberto José Alves entende que, ao assumir o posto, se torna não somente representante de seus pares – médicos e professores – , mas também de funcionários e estudantes negros.

humberto josé alves

Humberto é o primeiro negro a dirigir a Faculdade de Medicina da UFMG

“No dia da minha posse como diretor, houve talvez a maior participação de funcionários e alunos em uma cerimônia como essa. Isso me deixa muito feliz”, diz o professor. “Faço questão de cumprimentar cada um, reconhecer os trabalhadores e enxergar essas pessoas que socialmente são transformadas em invisíveis”.

Quando entrou para o curso de medicina na UFMG, Humberto era um dos três estudantes negros em uma turma com mais de 150 alunos. Durante a graduação, chegou a ouvir de um colega que era um “negro de alma branca”. “Eu fiquei extremamente incomodado com aquele comentário e ele não entendeu o porquê”, lembra o professor.

Hoje Humberto é testemunha de uma mudança de perfil entre os alunos. Com a política de cotas raciais e sociais implementada na UFMG, pelo menos 40% dos alunos são pretos e pardos, segundo o professor. “Eles estão reivindicando seu espaço, se manifestando em nome de um reconhecimento. Fazem questão de mostrar que agora há um grupo marcante de negros dentro da faculdade de medicina”, observa.

Entre os jovens médicos negros que começam a fazer a diferença no exercício da profissão está Julia Rocha, profissional belo-horizontina que ganhou destaque nas redes sociais por conciliar o trabalho na medicina com a música. Em suas postagens, ela faz questão de trabalhar conceitos de saúde e empoderamento.

Filha de médico, Júlia passou a se reconhecer como negra depois da graduação. “Ao longo da vida, eu 'embranqueci' minha aparência. Alisava e clareava o cabelo de tempos em tempos. Como a minha pele é bem clara e meus traços não são tão negroides, não notei o racismo na graduação. Eu me 'descobri' negra ao decidir parar de alisar o cabelo”, conta a médica. “Em dois episódios recebi comentários extremamente racistas a esse respeito. Coisas do tipo: 'ela atende os pacientes com esse cabelo?' ou 'esse cabelo tem aspecto de sujo. Deve ter piolho'", lembra.

julia rocha

Julia Rocha concilia a medicina com a música

Novas pautas

Entre as áreas do conhecimento consideradas como inacessíveis às classes mais baixas está a arquitetura. Não à toa, Cristiano Cezarino era o único aluno negro em sua turma, formada em 2001, na UFMG. Hoje é professor na Escola de Arquitetura da universidade e contribui para que novas pautas e olhares sejam levados para o universo da pesquisa e da sala de aula.

Também reconhecido na área da cenografia, Cristiano sabe que a cor da pele pesa muito. Especialmente no teatro. “Nessa área, normalmente os negros trabalham nas áreas mais técnicas. Houve muitos casos em que fui confundido com um técnico, sem que a pessoa percebesse que, na verdade, eu era uma das pessoas responsáveis pelas tomadas de decisões”.

A importância da família

Para lidar com as muitas barreiras impostas pelo racismo, uma base familiar sólida pode ser fundamental. Doutor Humberto, por exemplo, nasceu em uma família humilde em Ouro Preto. Seu pai trabalhava em dois empregos para conseguir oferecer o melhor aos filhos, enquanto a mãe ia até a escola aprender melhor as matérias para estudar com os filhos durante o para casa. “Meu pai aprendeu com a minha avó que a única saída para nós era estudar e minha família levou isso a sério”, diz Humberto.

Genilson também faz questão de reforçar a importância da família para seu crescimento. A disciplina aprendida com o pai, policial militar, e a militância aprendida com as avós e as tias foram fundamentais para lidar com as adversidades que viriam pela frente. “Mesmo com pouca escolaridade, minha mãe me cobrava uma rotina de estudos”, lembra.

O apreço ao estudo aparece como denominador comum nas histórias de ascensão social para os negros. Vitória Izaú explica que o estudo é uma ferramenta importante, mas nem sempre suficiente para que pretos e pardos ocupem espaços de maior destaque, devido ao racismo estrutural. Segundo ela, muitas pessoas capacitadas ainda se deparam com portas fechadas pela discriminação racial.

cristiano cezarino

Cristiano é professor na e de Arquitetura da UFMG

O corpo negro ainda é culturalmente associado à criminalidade e à violência, um dos fatores que travam a ascensão de pretos e pardos no mercado de trabalho. “Temos que lutar por uma educação que valorize nossos representantes negros, fazer uma grande pesquisa para entender o grande legado dos negros, investir na representatividade política e fortalecer mecanismos para que haja gestores negros nas empresas e pessoas negras tenham representantes em todos os espaços decisórios”, afirma a professora.

Abrem-se outras portas

No início de carreira, Maria José Ranuzia se deparou com portas fechadas. Campeã de voleibol e formada em Educação Física pela UFMG em 1978, não conseguiu colocação nas escolas públicas ou particulares de Belo Horizonte. Sem emprego em escolas, começou a trabalhar em academias. E foi nesse universo que descobriu a paixão que viria transformar sua vida profissional: a massoterapia.

Ao desenvolver um sistema de massagens para diferentes biotipos corporais, Maria José ganhou reconhecimento nacional e passou a viajar por todo o país ministrando cursos. Criou os dois filhos sozinha e pagou pelas faculdades deles, quando os dois entraram, ao mesmo tempo, para cursos de medicina e odontologia. “Eu dava aula, tinha meus clientes e viajava muito para dar conta”, lembra Maria José, que é responsável por várias disciplinas no curso de Estética da Faculdade Promove. 

Para ela, uma maneira de lidar contra as barreiras do preconceito é não dar importância para o racismo. “O negro não pode deixar que aquele pensamento de discriminação interfira em suas emoções. Se uma pessoa é racista, o problema é dela, não deve ser meu”.

maria josé ranuzia

Maria José se tornou referência na área de massagem e é professora no curso de Estética do Promove