Andar de bicicleta por Belo Horizonte não é apenas uma escolha ecologicamente correta, mas uma missão de risco. A ausência de infraestrutura combinada com o desrespeito de muitos motoristas têm elevado os acidentes nas ruas. As ocorrências envolvendo ciclistas aumentaram quase 40% na capital. 

De janeiro a agosto foram 33 registros, contra 24 no mesmo período do ano passado. Os dados são do Batalhão de Trânsito da Polícia Militar (BPTran). A segurança dos adeptos do mais popular meio de transporte alternativo e as condições de uso do modal na cidade voltam à tona em meio ao Dia Nacional do Trânsito, celebrado amanhã.

Em BH, a maioria dos acidentes acontece em avenidas sem faixa exclusiva. Dos 400 quilômetros de ciclovias previstos para a cidade – conforme atualização do Plano Diretor de Mobilidade Urbana (PlanMob-BH), em 2017 – apenas 80 foram implantados. Há dois anos, não há expansão, o que obriga muitos ciclistas a dividir as vias com os carros.

Os acidentes se concentram em importantes corredores de tráfego. De acordo com a BHTrans – que tem registros menores do que os da PM – a orla da Lagoa da Pampulha e as avenidas Cristiano Machado e Tereza Cristina são os três pontos principais.

“Um dos fatores de risco mais comum é o desrespeito à distância mínima de 1,5 metro que os automóveis devem manter, conforme o Código de Trânsito Brasileiro. A maioria não tem essa consciência”, afirma o porta-voz do BPTran, tenente Marco Antônio Said. 

O militar destaca que também há casos nos quais quem está na bike age com imprudência e, por ser um agente mais frágil no trânsito, acaba sendo o principal prejudicado. “BH tem pouquíssimas áreas reservadas e isso faz com que ele esteja quase sempre se arriscando”, analisa Said. 

“O aumento dos acidentes se deve, basicamente, a três fatores. O primeiro, e mais importante, é ausência de infraestrutura adequada. Faltam ciclofaixas e ciclovias. Em segundo, o fato de que o Brasil não tem a cultura do uso da bicicleta. Então, ainda não estamos acostumados a lidar com esse veículo no trânsito, nem os condutores nem os próprios ciclistas. Por último, não há uma formação para os ciclistas, muitos não respeitam as regras de trânsito. É comum ciclistas passarem por uma interseção com o sinal fechado para os carros (quando ele está no mesmo sentido dos veículos). Um outro fator é que não há uma regra de comunicação para que os ciclistas possam usar, como por exemplo, quando eles querem fazer uma conversão. Eles podem usar um sinal de braço, mas não há uma padronização desse sinal” (Agmar Bento, professor de Segurança Viária do Cefet-MG)

Caso

A jornalista Jéssica de Almeida, de 26 anos, diz ter vivido momentos de desespero depois de topar com uma motorista na avenida dos Andradas, no Centro. A discussão começou após uma fechada e terminou com a bicicleta esmagada.

“Eu e meu namorado colocamos nossas bikes em frente ao carro dela para esperar a chegada da polícia e ela simplesmente arrancou o carro. Fui carregada, no capô do veículo, por mais de 200 metros”, relembra Jéssica.

Para a arquiteta Amanda Corradi, membro do grupo BH em Ciclo, é preciso mais conscientização. “A falta de educação no trânsito e a inexistência de um controle de velocidade são os grandes problemas para os ciclistas hoje”.

Projetos 

Duas ações para melhorar a vida dos ciclistas estão previstas para Belo Horizonte até o fim de 2020. A primeira é a contratação de projetos executivos para 51 km de ciclovias – o que não garante a realização da obra. A segunda é o nivelamento da faixa exclusiva da Lagoa da Pampulha, que atualmente tem 7,5 km instalados na pista de rolamento e deverão ser elevados para a mesma altura da calçada.

“A gente está passando por um momento financeiro difícil. Por isso, é papel de quem governa a cidade fazer escolhas. Como a demanda por bikes é baixa, isso não assume uma posição de prioridade”, afirma a coordenadora de Projetos Especiais e Segurança do Trânsito da BHTrans, Jussara Bellavinha.

Ela ressalta, no entanto, que o financiamento para os novos projetos possa vir de bancos de fomento internacionais, de países que investem em modais alternativos de transporte. “A BHTrans está imbuída nesse propósito. Queremos contribuir para melhorar a qualidade de vida e pautamos o assunto em todos os nossos projetos”.

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