O caso da delegada de Crimes contra Mulheres que foi agredida pelo marido, em Três Corações, no Sul de Minas, reacendeu o debate entre os brasileiros sobre a violência doméstica contra a mulher. Por dia, há cerca de 315 pedidos de medida protetiva em Minas, uma média 45 vezes maior do que a registrada em 2007.

Mas cada vez mais há mulheres dispostas a lutar pelo fim do cotidiano de dor e humilhação. Com apoio do poder público e de organizações não governamentais, essas vítimas aprendem que é possível ter uma realidade diferente.

A cozinheira Francisca da Silva, mais conhecida como Xica, é um grande exemplo de superação. Foram dez anos de união com um homem que a agredia e a mantinha “presa” em casa. A Xica só havia a possibilidade de sair para a rua ao lado do companheiro, que chegou a impedi-la de trabalhar. 

Dor e mudança

Em 1999, Xica decidiu dar um basta e procurou a Benvinda – Centro de Apoio à Mulher, órgão da Prefeitura de Belo Horizonte para o amparo de vítimas de violência doméstica. Ali, ela encontrou apoio psicológico e assistencial, sendo encaminhada com as três filhas para um abrigo. 

Mas, como várias mulheres, Xica decidiu voltar para casa e reatar com o agressor, mesmo sem retirar a queixa na polícia. Não imaginava que o mais drástico estava por vir: o marido provocou intencionalmente um acidente de carro com toda a família. Por causa da batida, Xica ficou com o rosto todo cortado por vidros e perdeu um olho.

“No quarto dia em que estava no Hospital João XXIII, acordei e percebi que não poderia deixar aquilo acontecer com a minha vida”, conta.

Ela buscou ajuda junto à Coordenadoria dos Direitos da Mulher de Belo Horizonte e foi aconselhada a adotar um caminho empreendedor com outras mulheres que passavam pelo mesmo problema. Elas se reuniram e construíram a Rede de Alimentação Sabor Mineiro UAI, que hoje conta com 14 grupos de trabalho. 

Atualmente, a cozinheira tem um buffet, Amigos de Xica, que já chegou a atuar em eventos com mais de 10 mil pessoas. “Todo município deveria ter uma coordenadoria para abraçar essas mulheres que são vítimas e mostrar para elas que são pessoas importantes”, disse. 

Resgatar a autoestima e conquistar autonomia é um caminho que Jussara (nome fictício para protegê-la) começa a buscar. Grávida do agressor e com as duas filhas do primeiro casamento a tiracolo, ela tenta superar o medo para ter um 2017 diferente. “Depois que o bebê nascer, vou arrumar um emprego e sustentar meus filhos sozinha. Não quero depender de ninguém”. 

Dependência emocional da vítima é o grande obstáculo na busca da superação

Funcionário de um dos Centros de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), o psicólogo Fabiano Siqueira explica que o trabalho junto às mulheres vítimas de violência doméstica é bastante delicado. É muito comum os casos das que buscam ajuda, mas, depois, acabam voltando para casa, com a esperança de uma mudança por parte do cônjuge. 

“As mulheres que sofrem a violência doméstica possuem uma dependência emocional muito grande, que é mais grave do que a dependência financeira. O agressor bate hoje e amanhã pede desculpas, fazendo com que a mulher entre em um círculo vicioso”, explicou Siqueira.

Num primeiro momento, os psicólogos e assistentes sociais procuram ouvir as vítimas, permitem a elas uma possibilidade de desabafar. O segundo passo é fazê-las compreender como funciona o círculo vicioso emocional, para que elas mesmas consigam compreender os melhores caminhos para a mudança.

Prioridade

Siqueira defende que o acolhimento a mulheres em situação de vulnerabilidade deva ser encarado como prioridade pelos municípios. 

“É muito triste constatar que a violência doméstica geralmente termina em uma situação grave. Termina em óbito, no hospital ou na delegacia, com alguém preso. Temos que trabalhar para o ciclo ser interrompido antes que aconteça uma situação limite”. 

Uma sugestão do psicólogo é adotar a descentralização do atendimento às mulheres. Atualmente, o acolhimento em Belo Horizonte é feito na Benvinda, no bairro Santa Tereza, na Região Leste. Para mulheres que moram em bairros afastados da região central, o deslocamento se torna um empecilho. Outro problema, segundo Siqueira, é a falta de abrigos específicos para famílias vítimas de violência.