Depois de quatro anos com queda nos índices de desmatamento da mata atlântica, Minas voltou a registrar aumento da devastação. Mais de 3,3 mil hectares de área do bioma deixaram de existir em 2017 e 2018, o equivalente a 3 mil campos de futebol. O número representa crescimento de 8% em relação ao período anterior (2016-2017).

Os dados são do Atlas da Mata Atlântica. Desde 2015, quando quase 8 mil hectares foram extintos, o Estado vinha reduzindo gradualmente o nível de destruição, mas retornou com folga ao topo do ranking nacional. A degradação é 60% maior do que a registrada no Piauí, segundo colocado na lista. A última vez que o território mineiro ocupou o primeiro lugar na lista foi no biênio 2014-2015. 

De acordo com a SOS Mata Atlântica, o bioma está presente em 17 estados, abrangendo 15% do território brasileiro

Impactos

A perda do bioma traz impactos diretos ao ser humano e à fauna. O desaparecimento das florestas leva junto animais que, muitas vezes, estão em extinção. A ambientalista e professora universitária Márcia Rodrigues Marques lembra que restam poucas onças pintadas na mata atlântica. “Estamos perdendo espécies por falta de continuidade. Os animais precisam de mais área para sobreviver, mas têm ficado sem o próprio habitat”.

A vida das pessoas também é afetada. “Toda vez que a gente perde biodiversidade, perde potencial econômico. Ninguém pensa nisso. Por exemplo, na riqueza em relação à quantidade de remédios que podem ser extraídos”, acrescenta Márcia Rodrigues.

Diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, entidade responsável pelo levantamento, Mario Mantovani avalia que as estatísticas refletem falhas nas ações de controle que eram feitas nos anos anteriores.

O Dia da Mata Atlântica foi celebrado nesta segunda-feira (27)

Jequitinhonha

O especialista afirma que a região do Jequitinhonha continua sendo uma das mais problemáticas. Lá, segundo o ambientalista, a produção de carvão para o uso em siderurgias desmata centenas de hectares há anos.

Não por acaso, o município de mesmo nome é o líder em desmatamento em Minas, segundo a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semad). “Os números nacionais tiveram uma baixa muito forte, o que ressaltou o problema de Minas, que já teve 47% do território coberto por mata atlântica e hoje tem apenas 10%”, compara Mario Mantovani.

O diretor da Fundação defende maior rigor na fiscalização. “Não é prender o trabalhador que está nos fornos produzindo carvão, mas sim os compradores do material, que é ilegal”.

Transparência

Para a superintendente-executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda), Maria Dalce Ricas, a expansão urbana, a agropecuária e a mineração contribuem para que o Estado esteja novamente devastando mais o bioma.

Segundo ela, além da derrubada clandestina de árvores, a supressão autorizada também preocupa, caso não seja acompanhada pela sociedade. “Infelizmente, não há mais acesso aos dados de autorizações, com raras exceções. É até difícil acreditar que o motivo seja o carvão. Se for, é uma evidência de fiscalização deficiente”, avalia. 

Para as entidades mineiras de proteção do meio ambiente, é necessário construir um plano de proteção de biomas que reforce a importância da mata atlântica como patrimônio natural, diz Maria Dalce. 

Ainda segundo a ambientalista, a grade curricular nas escolas deveria ter conteúdos para explicar aos estudantes o quanto esse ecossistema é vital. “É uma desonra voltar ao primeiro lugar do país no ranking de desmatamento, sobretudo em um momento que a maioria dos estados segue na direção contrária”.

Novos dados

Mantido pelo SOS Mata Atlântica, o aplicativo “Aqui tem Mata?” monitora a existência de áreas remanescentes no Brasil. A plataforma coloca Águas Vermelhas, no Norte de Minas, na liderança da devastação no país, com 361 hectares destruídos até 2017.

No próximo mês, um novo estudo que enumera a situação dos municípios brasileiros será lançado pela entidade. No último, feito em 2015, seis das dez cidades que mais destruiram o bioma estavam em Minas. Curral de Dentro, também no Norte do Estado, emplacava a quarta posição nacional.

Carvão

Segundo a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), a legislação estadual de proteção à biodiversidade determina que o uso de carvão de origem nativa por siderúrgicas não pode ultrapassar a 5% do consumo anual do produto.

“Nesse sentido, observamos que, em 2018, os registros totalizaram 21,5 milhões de metros de carvão, dos quais apenas 30,2 mil foram oriundos de florestas nativas. Isso representa 0,14% do total consumido, ou seja, bem abaixo do valor estipulado pela lei”, informou o órgão, por nota.

Fiscalização

A pasta garantiu que o monitoramento da cobertura vegetal em Minas é realizado de forma contínua pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF). A partir de imagens detectadas via satélite, são elaborados “relatórios de acompanhamento e mapas que são usados como ferramenta de apoio às operações de fiscalização”.

A Semad ainda informou que, em 2017 e 2018, no Estado, foram criadas 24 novas unidades de conservação de proteção integral e uma de uso sustentável. Nelas, “estão inseridos 5.418 hectares do bioma mata atlântica”.

Em 2017 e 2018, no país, foram desmatados 113 km² de mata atlântica

(Com Bruno Inácio)

mata atlântica carvoaria
Carvoaria é apontada como uma das principais causas da destruição da mata atlântica