Os soldados da Polícia Militar Victor Morais e Wilker Figueiredo, que se casaram e fizeram sucesso na internet, não são os únicos agentes de segurança a mostrar publicamente a homossexualidade. Na conta do Instagram da Rede Nacional de Operadores de Segurança Pública LGBTI+ (Renosp), policiais e militares mostram seus rostos, nomes e histórias para provar à população a importância de se enfrentar os preconceitos dentro e fora das instituições.

A Renosp/LGBTI+ foi criada em 2010, no Rio de Janeiro, por agentes de segurança de todo o país, mas passou a ser mais atuante na divulgação dos direitos humanos no ano passado. A mudança aconteceu em julho, quando um policial militar do Estado de São Paulo foi ameaçado de morte por colegas de trabalho depois de ser flagrado dando um beijo na boca de outro homem.

A repercussão do caso foi tão grande que a rede decidiu criar uma conta no Instagram para que outros agentes de segurança e forças armadas pudessem mostrar seus rostos e suas histórias. “Ficamos indignados. Como um beijo poderia ser motivo para ameaças de morte? Decidimos nos organizar de maneira mais efetiva, transformamos a Renosp em pessoa jurídica, uma associação, para atuar em casos como esse”, afirma Anderson Cavichioli, pesquisador da Universidade de Brasília que faz parte da rede.

Além do uso da rede social, a Renosp decidiu trabalhar várias ações para combater a LGBTfobia dentro e fora das instituições de segurança - como polícias, guardas municipais e forças armadas. Assim, a rede acompanha os casos de violência, exigindo apuração por parte do poder público, além de oferecer apoio às vítimas. O grupo também se manifesta publicamente quando a comunidade LGBT se sente ofendida pelo discurso de alguma personalidade famosa.

Nesta quarta-feira (16), a Renosp usou o Instagram para divulgar um posicionamento de repúdio ao veto do governador de Santa Catarina, Carlos Moisés da Silva (PSL), a um projeto aprovado pela Assembleia Legislativa que garantia o uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero de pessoas transexuais e travestis no âmbito da administração pública estadual:

Também tem sido feito um trabalho educacional, levando o conhecimento sobre a diversidade sexual para as forças de segurança. Um manual foi construído para explicar conceitos aos agentes e quais são as melhores formas de se abordar e atender homossexuais e transgêneros. O texto leva em conta, inclusive, o trato que deveria ser dado à população LGBT dentro do sistema prisional.

“Recentemente, atuamos no caso de um morador de Goiás que estava montando um grupo de extermínio de pessoas LGBT e chegou a anunciar isso no Facebook. Acionamos o Ministério Público e acompanhamos o caso junto à delegacia de crimes cibernéticos”, afirma Cavichioli.

Hoje a Renosp é uma associação autônoma formada por aproximadamente 100 pessoas, sem qualquer vínculo com partidos políticos e sem apoio financeiro de origem pública. Todo o trabalho exercido na rede é voluntário. No ano passado, a associação realizou um seminário para discutir a construção de uma segurança pública sem LGBTfobia, contando com a presença de professores, pesquisadores e autoridades.

“Nosso projeto para 2019 é expandir as ações educacionais, produzir materiais e cursos para contribuir para a diversidade nas instituições de forças de segurança. Queremos construir uma força pública no país que seja democrática e inclusiva”, completa Cavichioli.

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