Desde que assumiu a gestão da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), em julho, Fábio Baccheretti diz que tem “apagado incêndios”. Com apenas 35 anos, o médico é o presidente mais novo da maior rede do Sistema Único de Saúde (SUS) no Estado e defende que a “pouca idade” é positiva diante do cenário da entidade. No início de 2019, a dívida da Fhemig já ultrapassava R$ 200 milhões. Nesta entrevista ao Hoje em Dia, Fábio revela os planos para a gestão, como o de tornar o Hospital Alberto Cavalcanti referência em atendimentos oncológicos, e diz que pretende reduzir gastos para que a rede seja mais eficiente e sustentável.

O senhor é o presidente mais novo que a Fhemig já teve na história. Sente o peso de comandar uma entidade tão importante para a saúde do Estado?
Sinto, na verdade, privilégio. Sou novo de idade, mas tenho muito tempo de Fhemig, são nove anos, me sinto maduro quanto à instituição. Comecei como plantonista, atendia no pronto atendimento do Hospital Júlia Kubitschek, no Barreiro. Era um hospital isolado, muito longe, poucos médicos e a estrutura, precária. Um ano depois, fui convidado para ser coordenador de plantão. Em seguida, estive à frente da equipe inteira, quando consegui organizar a unidade. Depois, virei assessor da diretoria técnica e logo, após, fui diretor-geral por onze meses. Apesar de hoje ocupar o cargo de presidente, sou radiologista e nunca abandonei a assistência porque, antes de tudo, sou médico.

Fábio Baccheretti, presidente da Fhemig
Presidente mais novo da Fhemig traça panorama da rede em Minas Gerais 


E como avalia a saúde, atualmente, em Minas?
Minas Gerais é o segundo maior Estado do Brasil, e os problemas, é claro, são proporcionais. Afinal, a saúde é muito heterogênea e díspar. Belo Horizonte concentra um polo. Então, por aqui temos uma assistência com muita qualidade e de fácil acesso aos que moram na região. Já no interior é possível perceber as diferenças mais graves. Onde a Fhemig tem hospitais, a dinâmica é outra, assim como a própria gestão dessas unidades. O caminho é pela organização de uma rede. Temos grandes parques tecnológicos espalhados em Minas e precisamos construir uma interlocução para que o paciente tenha o acesso homogêneo. É necessário continuar se articulando para fortalecer principalmente a atenção primária. Afinal, hospital tem que ser o último recurso, quando o paciente já está em estado grave. Essa é uma mudança lenta, mas necessária. É uma alteração de comportamento.


“O Alberto Cavalcanti, em médio e curto prazos, será aqui em Minas Gerais como o Hospital do Amor é em São Paulo e o Instituto Nacional do Câncer (Inca) é no Rio de Janeiro”

Em agosto deste ano foi anunciado que o Hospital Alberto Cavalcanti voltaria a ter foco apenas em atendimento a pessoas com câncer. Qual é o intuito dessa retomada ao conceito?
O Alberto Cavalcanti é uma unidade oncológica da Fhemig. No entanto, historicamente, foi necessário, durante uma reforma no Hospital Odilon Behrens, que ele tivesse pronto-atendimento. Por isso, com a porta aberta, chegam vários pacientes com as mais diferentes doenças que precisam de internação, o que representava cerca de 75% da assistência. Não estávamos seguindo a missão do Alberto Cavalcanti, de ser um hospital oncológico. Além disso, a gestão é nossa. mas o município regula a fila única, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (SMSA). Desde setembro estamos colhendo alguns números e percebemos que o que eram 25% de internações oncológicas agora já são 60%. Estamos operando 30% a mais e nosso atendimento ambulatorial de oncologia aumentou 25%. A ideia é torná-lo uma referência em atendimento às pessoas com tumores, assim como o Hospital de Câncer de Barretos, conhecido como Hospital do Amor, é em São Paulo e o Instituto Nacional do Câncer (Inca) é no Rio de Janeiro.

O que já está sendo feito para que se tenha, de fato, uma referência em atendimento desse tipo em Minas?
Algumas adaptações. Compramos um novo acelerador linear, para radioterapia, e já existem reformas nas áreas físicas de radio e quimioterapia e também na hematoncologia, que é um grande problema e tem uma longa fila de espera. Além da contratação de hematologistas. Em curto e médio prazos será apresentado como hospital de referência.

“Minas Gerais é o segundo maior Estado do Brasil e os problemas são proporcionais. Afinal, a saúde é muito heterogênea e díspar. É (necessária) uma mudança lenta de comportamento. Hospital tem que ser o último recurso”


Trabalhadores chegaram a protestar após anunciada as mudanças na unidade alertando a possibilidade de demissões.
Desde setembro não houve nenhuma demissão. Pelo contrário, precisamos de todos os profissionais que estão lá. E, como disse, há previsão de contratar mais hematologistas, como parte do plano de tornar o hospital referência em atendimento oncológico.

As alterações no conceito do Alberto Cavalcanti vão refletir no número de atendimentos na unidade?
No de internações, não muito. O que muda é o perfil. Por exemplo, se antes eram 300 atendimentos por mês, 75% desses casos não eram oncológicos. Agora, a expectativa é a de que todos sejam. Vamos trocar o paciente. O número de leitos também não muda e, dessa maneira, vamos triplicar a assistência quando o local tinha pronto-atendimento. Em toda a unidade são 102 leitos, divididos entre oncologia clínica, cirurgia e casos clínicos, associados a oncológicos.

Em agosto, as refeições servidas aos funcionários dos hospitais João XXIII e Infantil João Paulo II, em BH, sofreram alterações. Na época, a empresa fornecedora da alimentação substituiu carnes por ovos. Como está a situação atualmente?
Foi pontual, resquício dos atrasos das fornecedoras, mas já foi restabelecido. Hoje não é mais uma realidade. De setembro a novembro não tivemos outros casos semelhantes. O ovo foi só para funcionário. O paciente não teve prejuízo com esse repasse.

O Hoje em Dia mostrou, em setembro, que o João XXIII falha na prevenção a incêndios. Na época, o hospital não tinha o Auto de Vistoria (AVCB) do Corpo de Bombeiros. A Fhemig tomou providências, tendo em vista o incêndio em um hospital no Rio de Janeiro que deixou 20 mortos?
Ainda são necessárias algumas adequações físicas. O tema já é discutido por aqui antes mesmo de acontecer esse caso no Rio. Temos o custo de cada obra, e o próprio Corpo de Bombeiros está nos ajudando. Provavelmente, já estaremos fazendo todas as intervenções necessárias no fim deste ano e no decorrer de 2020.

Qual é o valor estimado e o que deverá ser feito?
As intervenções no João XXIII e no João Paulo II devem custar R$ 350 mil. E é preciso adequar acessos, escadas, rampas e outros espaços. Todos os locais já estão mapeados.

No início deste mês, uma fumaça causada por um gerador de energia assustou alguns pacientes...
Toda vez que entra em combustão pode gerar isso, a fumaça sempre vai existir. Esse episódio nos mostrou que precisamos de um plano de ação para desviar a fumaça e treinar a equipe para que não entre em pânico e que esteja preparada para quando, de fato, for um problema real. 

“Temos assistência maravilhosa em hospitais referência em toda Minas Gerais. Espero entregar a Fhemig para o próximo presidente mais eficiente e em tudo o que faz”

Quais são os planos para Fhemig durante a sua gestão?
Cheguei com uma situação financeira muito ruim. Muito atraso de fornecedores e uma dívida, no começo de 2019, de R$ 208 milhões. Nossa expectativa é a de que vire o ano com R$ 25 milhões a menos. Quando assumi, fui apagar incêndios, construir uma equipe forte e, juntos, pensar no planejamento estratégico. 

Como fazer para reverter o déficit financeiro?
Nossa ideia é buscar habilitações do Ministério da Saúde para as instituições que compõem a Fhemig e são especializadas para aumentar em até 40% a receita desses hospitais, além de parcerias com projetos não previstos no orçamento da rede para conseguir itens básicos, como caixas d’água, roupas de cama etc. Por mais difícil que seja, estou aqui para tentar fazer algo diferente, com foco no paciente. Temos assistência maravilhosa em hospitais referência, como o João XXIII é em traumas e queimados, o João Paulo II é em pediatria e doenças raras, o Júlia Kubitschek com pneumologia e o Odete Valadares com maternidade. Espero entregar a Fhemig para o próximo presidente mais eficiente e referência em tudo o que faz.